quarta-feira, 25 de abril de 2018

Ainda sem título - 1



O importante é comer, eu disse. Por que regras francesas, prazos entre o almoço e a sobremesa, garfos e taças especiais, se estamos diante de uma mesa tão simples, feijão, arroz e carne? Passe a garrafa – eu pedi. Era uma Coca litro.  Adélia, amuada, queria alguma cerimônia. Já viveu dias melhores antes da crise, principalmente antes de nos juntarmos, quando dispunha do bom e do melhor, vinhos e temperos orientais, quatro vagas na garagem. Casa dos pais. Perderam muito no século passado, mas mantinham alguma poupança e pose elegante, sem afetações, além de uns poucos imóveis. Família fina, desses sobrenomes que as pessoas têm pena de dispensar. Quando se casam com gente da mesma espécie terminam como Pereira Carneiro de Mello e Souza Freyre ou algo nessa linha hereditária. Casam-se muito com primos e desse modo não precisam amontoar tanta ancestralidade. Eu disse na época que podia ficar com seu nome de solteira. Se eu não me importasse, ela ficaria e ficou. Até hoje não sei por que escolheu alguém tão miserável.

Adélia tem um jeito cerimonioso com os talheres que outrora eu admirava. Agora me causa irritação. Por sua vez, ela já não gosta de minhas ideias políticas nem do meu jeito com os talhares, pegando o garfo pelo meio. Lembro que à época do namoro costumava contar-lhe a história de Marx e Laura, sua mulher, quase fugida de uma família nobre. Hoje, Adélia acha isso uma besteira. Reclama que não íamos às festas da família – a dela, claro -, pois não tem roupa adequada, vão dizer que a gente passa fome, quem mandou casar com alguém que não tem emprego fixo etc. Minha mãe havia prevenido: ela não é da nossa classe. Com o tempo perderá o encanto por você. Perdeu-se quase totalmente.  

Envelhecemos muito em pouco tempo. Torço pela hora de dormir e creio que também Adélia. Mas no sono os pensamentos se dissolvem. Tento introduzir alguns personagens no início do sonho, ainda meio consciente, mas eles são barrados ou desencaixam a história, levando a outros propósitos ou a propósito nenhum. Perco o fio da meada e sonho sobre o sonho de ontem em que história era o contrário; ela era pobre e modesta e eu um barão prussiano em decadência, embora ainda formoso e empinado, vestido num manto de virtudes. Tinha acabado de arrancar aquela mulher da miséria, na Rússia ou no sertão, e ela se deslocava se transformando, ora brejeira brasileira ora filha de um mujique de cara rosada e roupa barata.

Mais um dia. Ouço barulho na cozinha. Espero que ela saia para levantar. Penso em como Adélia mudou. Deixou de lado as vaidades intelectuais. Antes lia livros; agora prefere ficar no sofá sem fazer nada, uma, duas, três horas olhando para o nada e em silêncio. Tento puxar conversa, ela não responde e passei a achar isso normal. Também fiquei estranho aos olhos dela. Creio que pensa numa separação sem dramas e nunca mais nos veremos.

Já tivemos conversas animadas sobre qualquer coisa, no passado; ela planejava fazer mestrado e um dia fiquei abismado quando falou sobre Paulo, o evangelista, sempre disposto a apoiar a autoridade, mesmo tirânica, em nome de Deus e das sagradas escrituras. Ela era daquela linha do cristianismo que critica a igreja católica por ter adotado as ideias de Paulo e não as de Jesus. Sabia de cor a politicagem pré e pós-vaticana e isso eu achava uma delícia. Pode parecer besteira, mas gastávamos a madrugada inteira tomando cerveja e conversando animadamente sobre qualquer coisa e ela fugia dos assuntos da família, que também não me interessavam.

Hoje, não. Só fala o quanto perdeu da vida, deixando de lado uma carreira e o cartão de crédito do pai, pois ele praticamente a deserdou no dia em que nos casamos. Queria alguém da mesma casta. Agora é tarde, ele está morto, eu digo, enquanto Adélia me olha com cara severa, como se eu estivesse profanando o túmulo do velho. 

Sou do tipo de pessoa que tira o sapato usando o calcanhar do outro pé. Mesmo que esteja amarrado, insisto, sem desfazer o laço, às vezes impondo grande esforço e às vezes inutilizando o sapato. Sei que não é o jeito mais prático, mas pesquisei e descobri que existe um monte de gente que também é assim. Adélia detesta isso. Agora, principalmente, porque exibe uns ares de repulsa, como uma alergia às minhas ações mais banais. A situação está nesse ponto, mesmo no quarto onde dormimos – pouco, por causa da insônia, minha e dela.  Adélia não fecha a porta e deita-se na cama.  Procura abstrair-se da minha presença. Olha para uma infiltração no teto, fixa-se naquilo, uma Via Láctea escura; pequenas bolhas d’água estouram como supernovas. Esquece que existo; só pode ser isso. (Continua)

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Fuzis



O pelotão de fuzilamento está a postos para a primeira execução do novo governo. Há um clima de festa na plateia e os telespectadores também poderão acompanhar o evento transmitido em cadeia nacional. Desde 1876, há 142 anos, não víamos uma morte pública, demandada pelo Estado, quando o negro Francisco foi enforcado no município de Pilar, em Alagoas. Agora, o método é outro. Belos fuzis importados abaterão o traidor da pátria e da família, um sujeito assustado e baixinho, acusado de escrever impropérios contra o governo. O povo apoia, é o que interessa, disse o novo presidente a uma imprensa já preparada para o espetáculo. Os patrocinadores são uma empresa de cosméticos e um banco.

Durante a semana, em chamadas regulares, a TV anunciou o fuzilamento com certa sobriedade. Mas aos poucos surgiram vinhetas mais animadas, como nos anúncios sobre futebol e Formula-1, pois a audiência tem sido acima do esperado. Nos telejornais, matérias com a família e amigos do futuro morto que, apesar de tristeza, viam na medida governamental uma forma inovadora de conduzir o país dentro de padrões de respeito à autoridade e preservação dos bons costumes. Não dava para ficar do jeito que estava, observou a mãe do réu, eleitora entusiasmada do regime recém-inaugurado. Numa demonstração de patriotismo, ela não chorou.


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Procurando Carmen


Carmen desapareceu. Há uns anos venho percorrendo pistas por todos os meios, ali e aqui, e não há sinal de Carmen. Volto ao conjunto residencial e pergunto aos moradores mais antigos se se lembram de Carmen e nenhum se lembra.

Nada a respeito dela depois de trinta anos. Ninguém ouviu falar nem de longe e parecia não ser este o lugar a ser procurado porque o nome de Carmen sumiu da memória geral, assim, por encanto, e é um assombro que uma pessoa tão marcante seja esquecida desse jeito.
Carmen existe ou existiu. Alguns amigos se recordam dela, mas dizem que não a veem desde aquele tempo. Está numa foto. Cara tranquila e ansiosa ao mesmo tempo, pois só ela conseguia passar essas sensações ambíguas. Dá para perceber o início do gesto que ela faz para fugir do enquadramento, apressada, saindo do foco; não gostava de aparecer, não queria posar – achava falso. Usava óculos e gostava dos poucos amigos. Tomei por responsabilidade encontrá-la, embora sabendo que isso pode dar em decepção e desse modo estaria explicado porque ninguém notou a existência dela. Mesmo assim, sigo adiante, apenas com informações da memória. Na memória dos outros, preciso do ponto exato onde Carmen caiu no esquecimento e por que. Um problema: não sei o sobrenome de Carmen. 

Era tão crítica. Parecia uma dessas pessoas de hoje, meio sem esperança, mas achando-se interessante por achar isso. Num dia na praia, fim de tarde, coisas daquele tempo, Carmen era a primeira a notar o estereotipo da cena; tinha horror a lual e animações do gênero. Enquanto os outros se supriam daquilo como a essência da juventude, ela vinha com uma história sobre a geração perdida e grandes batalhas a travar.  Só que dizia essas coisas de um jeito muito terno, sem tirar o prazer de ninguém por estar chapado, olhando pro céu ou dando beijinhos.   

Carmen diria hoje, imagino, que procurar pessoas perdidas é um recurso meio manjado – lembraria “Detetives Selvagens”, de Roberto Bolaño -, mas em relação a Carmen talvez fosse diferente: ela também arrumaria uma maneira de dizer siga em frente, pode dar certo. Talvez sugerisse que eu fosse procurá-la de outro modo, sem a preocupação encontrá-la, como pode ser o caso de agora. Uma vez ela disse que só processo existe; o resto (incluindo poder e glória) é pura ilusão.

Meu último registro é sua forte irritação. Implicava demais com avisos e ditos populares e frases em geral e corrigia a caneta comunicados do condomínio. “Por que Deus dá o frio conforme o cobertor? Por que não dá o cobertor conforme o frio?”. Éramos grudados numa época em que parecia estranho um cara sair todo dia com a mesma menina e não acontecer nada entre eles. As distrações eram outras, o universo e suas histórias, teorias mal ajambradas sobre tudo e a recorrente marcação de Carmen em cima de um mundo do qual ela discordava de quase tudo. 

Apesar disso, quando estava certa tinha um charme benevolente. Nunca usou “eu não disse?!”. Aliava-se ao contraditor, ajudando-o a encontrar uma saída honrosa. E era muito bonita para ser esquecida de uma hora para outra. Nunca usou a beleza em proveito próprio, mas aí acabava despertando outras belezas e até certa dose de autoridade. Fomos seus amigos e seguidores. Uma rara turma com uma mulher no comando.

O que mais impressionava era a honestidade que passava ao falar sobre qualquer assunto. Podia não saber exatamente o que era, mas aos poucos ia montando o que dispunha para enfim apresentar um palpite interessante. Às vezes uma ideia. Foi a primeira pessoa que me falou sobre ondas gravitacionais e outras coisas que na época eram apenas especulação. Carmem entendia de Física de Partículas, lia Rosa Luxemburgo e gostava de futebol.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O envelope - Da série histórias com o mesmo final


A pobreza tem pernas curtas.  Quando mais pobres ficamos, maiores ficam as distâncias, menor a capacidade de chegar onde quer que seja. Empobreci. Antes ia de táxi, troquei por ônibus, hoje vou a pé. Tinha a cidade, sobrou o bairro. O universo dos ricos se expande como o universo de verdade; o dos pobres, encolhe.

Já estava entrando em desespero quando o telefone tocou: tenho um trabalho pra você, disse a voz do outro lado, uma pessoa que eu não conhecia, mas quem ligou estava a par da minha situação e provavelmente eu fora indicado por um ex-colega da agência da qual fui demitido. Pelo menos pensei assim na hora. Ele queria conversar a respeito do serviço, minha disponibilidade (total) e deixou bem claro que se tratava de algo sigiloso, segredo industrial ou coisa parecida, que é normal no mundo dos negócios. Na época, eu morava numa pensão, depois de passar por um hotel, uma quitinete e uma república de gente mais nova que não me deixava dormir. Assim que desliguei o telefone fui ao banheiro no final do corredor com uma toalha no pescoço e entrei na fila do banho. Antes de perder o emprego eu tinha uma casa de dois andares. Houve uma queda vagarosa e consistente.

Encontrei o homem no restaurante de um hotel de quatro estrelas e perguntei quem sugeriu o meu nome - ele respondeu que pegou o currículo na Internet.
- Como sabe que estou fudido?

- Pessoas fodidas distribuem currículos.

Também informou que o trabalho não era propriamente na minha área. Não sei fazer outra coisa a não ser texto publicitário, eu me adiantei, e ele garantiu que eu saberia fazer, pois era um serviço simples, de courrier. Eu tinha apenas que pegar um avião e levar documentos importantes para a sede da empresa, em Nova York.  Uma vez por mês, a dez mil reais a viagem, incluindo hospedagem e alimentação.
- Por que não manda pelo correio?  - perguntei ao homem.

- Tivemos problema com o correio – ele disse.

Minha primeira viagem foi tranquila. Era só um envelope, fino, bem colado, sem nada escrito. Levei apenas bagagem de mão. No Aeroporto John Kennedy, os funcionários revistaram minha bagagem, só encontraram uma muda de roupa e passei sem problemas pela imigração com o envelope debaixo do braço. Fiquei no hotel indicado, esperando pelo destinatário e ele chegou ainda pela manhã. Um homem de cabelo bem cortado, barba desenhada e vestido de terno, cujo desenho final lembrava um agente do FBI dos filmes. Ele pegou o envelope, me entregou dez mil em espécie e foi embora. Na segunda vez, a mesma coisa. À tarde, eu andava pela cidade, sem destino, comia num restaurante da Rua 47 e via filmes Jacques Riveti. De repente virei uma reação à minha própria certeza de que quanto mais pobres somos, mais pobre ficamos, e aderi a certo otimismo. De homem supérfluo, como diziam no século 19, passei a executivo bem-sucedido. Por uns segundos, eu esquecia o caráter do meu trabalho.  

Em dois meses eu estava com as contas em dia, dinheiro na poupança, mas um pouco intrigado. O que tinha dentro desses envelopes? Obviamente cheguei a pensar em drogas. Mas que droga seria tão fina a ponto de caber em um envelope e ainda capaz de compensar 10 mil reais só para transportá-la? Pensei até em espionagem, mas depois parei de pensar porque gosto de Nova York e estava gostando ainda mais de ganhar uma grana sem muito esforço, pois conseguia dormir em avião melhor do que dormia em casa, sonhando com meus problemas financeiros.

Na terceira vez, o cara da imigração se lembrava da minha cara. Fez um gesto enigmático, como se dissesse estou de olho em você. O que o desgraçado faria nesse vaivém mensal? – deve ter imaginado. Senti necessidade de explicar ao agente o escopo do meu trabalho, mas deixei de lado para não piorar a situação porque nem eu mesmo sabia o que estava fazendo. Daí surgiu a curiosidade mais intensa e no hotel olhei para o envelope, coloquei-o contra a luz, dei pequenas balançadas e nada sugeria o conteúdo. Vou abri, em pensei, e abri. O envelope estava vazio.

Qual foi a minha decisão: colar o envelope direitinho, entregar ao cara e não falar mais nisso. Durante dois anos fiquei nessa ponte aérea, muito satisfatória, compensadora em termos financeiros e culturais, até o dia em que o homem não apareceu mais com a encomenda.  

Só então voltei à minha curiosidade, agora sem riscos, sem as viagens, mas ainda sem emprego. Qual a razão de ser pago para levar um envelope vazio a Nova York todos os meses? De novo, levantei várias possibilidades. Talvez o conteúdo fosse infinitamente pequeno; quando descolei o papel, a coisinha microscópica pode ter fugido como um fio de pena transparente, quase infinitesimal. Outras hipóteses: uma espécie de filantropia, um anjo da guarda, uma pesquisa, uma promoção comercial.

Anos depois, ao olhar pela janela do ônibus, vi o homem dos envelopes, cabisbaixo, e desci no próximo ponto para tentar alcançá-lo. Alcancei. Pedi que fossemos a um bar, ali perto, para esclarecer a história. Mal sentamos, chegou uma moça que se identificou como filha dele. Contou que o pai tinha problemas psiquiátricos e que havia piorado depois que parou de me ajudar. A família, no entanto, não tinha mais condições de promover as viagens aos Estados Unidos. Mas ela queria ver o pai mais animado, pois o tratamento não estava dando resultado, apesar das doses cavalares de Haloperidol.


A moça abriu uma pasta, puxou um envelope e uma passagem para Curitiba. Dois mil por viagem. Eu aceitei. O homem sorriu. 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Memória do asfalto


A memória é fraca. Algumas começam a fraquejar no meio da velhice e morrem antes de seus donos; outras sobrevivem aos pedaços: situações vistas a vividas, nomes de personagens e datas se transformam em ondas perdidas no espaço. Por isso, algumas pessoas escrevem livros de reminiscências ou mantém uma agenda. Minha avó anotava tudo em papeizinhos e os colocava numa caixa de sapatos que ela se esquecia de consultar. A memória remota, no entanto, às vezes se preserva por mais tempo, talvez porque é a primeira impressão de um cérebro jovem e ainda cheio de espaço para armazenar lembranças. Ontem é um transtorno, mas o século passado surge brilhante e nítido, como o sangue escorrendo na principal rua da cidade, onde havia um matadouro de gado, enquanto onde Seu Augusto, meu vizinho, seguia para o grupo escolar.

Caixeiros viajantes, cassacos, ciganos e homens armados fumando cigarros Astória pareciam bem instalados na memória de seu Augusto, mas ele não tem registro do almoço do dia. “O que comi?” - pergunta de si para si e depois deixa de lado para ver-se com seus pensamentos da infância e juventude.

Quase sempre seu Augusto, o velho, é o jovem que observa os cassacos e seu trabalho escravo na construção da rodovia, trazendo o progresso e mais distração, conforme disse o prefeito – um senhor baixinho e simpático – e conforme disse o padre - alto, forte e alemão. Veio parar ali não se sabe como, mas a igreja tem recursos e condições de levar a palavra de Deus até mesmo aos cassacos, naquele fim de mundo onde a memória de Seu Augusto observa a estrada de rodagem ganhando asfalto e uma lagartixa percorrendo a traseira de um trator quebrado. “A lagartixa tinha um olhar condescendente e solidário”, observa seu Augusto em suas anotações para um livro de memórias.

A princípio Seu Augusto não falaria tanto de sua vida. Estava mais interessados na vida dos cassacos – trabalhadores eventuais e nômades da antiga Inspetoria de Obras Contra as Secas - e outros tipos da sua região do tempo, numa volta ao romance dos anos 30, como ele mesmo me contou. Já existe até um livro sobre com esse título, “Casacos”, de José Cordeiro de Andrade. Mas tudo bem, disse seu Augusto, eu só faço isso para não perder a memória.

Seu Augusto está bem situado em meados do século passado, quase outra era, quando parecia que o mundo estava sendo criado naquele momento e, tomando sua vida como referência, estava mesmo.  Vale a pena ver a animação de seu Augusto quando fala sobre Getúlio Vargas e programas de rádio, além de suas coisas cotidianas, sua visão do mundo a partir dos livros de Graciliano Ramos e das conversas na praça.  Com os dias de hoje, só dificuldade. Mesmo antes da doença, ele já não entendia a pressa dos acontecimentos. Também achava que ele próprio estava devagar ou, mais precisamente, havia uma conspiração do tempo – o de fora e o de dentro - contra seu final de existência.

Um de seus colegas da época de repartição, Gilvan Vieira Guedes, também escritor bissexto, deixou anotações sobre a vida difícil desses trabalhadores em uma pasta a que tive acesso porque ele é meu pai. O mesmo tom. Uma sociedade nascendo no Brasil pós-revolução de 30, embora Gilvan tenha desancado Getúlio, que não admirava por causa do governo autoritário. Mas o mundo nascia ali, perto do Rio Ipanema, numa cidade sertaneja calorenta de dia e fria à noite e onde algumas pessoas passavam fome e outras liam Émile Zola.

Os cassacos viviam em condições difíceis e carregavam suas redes para onde fossem. Não tinham qualquer documentação. Os contratados das obras contra as Secas, do Ministério de Viação e Obas Públicas, tinham salários, carteira assinada e também problemas.  Gilvan e seu Augusto liam Zola e se preocupavam com os cassacos. Só isso lhes dava a classificação de comunistas.

Anos mais tarde, em 1964, já casados, ambos tiveram que fugir para evitar a prisão. Entocaram-se numa fazenda de um expedicionário da FEB e ali por perto também encontraram cassacos. Um deles estava encolhido num canto, tremendo no calor, maleita, ele disse, mas parecia coisa mais grave. O homem foi melhorando aos poucos, depois de um uísque Cavalo branco, depois mais outra; só duas, porque era caro.

Seu Augusto achou o homem muito doente, talvez fosse Schistosoma, pensou naquela hora, pois a barriga estava inchada, e talvez fosse doença de Chagas, Trypanosoma cruzi, o bichinho do barbeiro, tão comum nas taipas onde os cassacos estendiam suas as redes. Um buraco no coração, sangue venoso e arterial se misturam numa pororoca venenosa, seguida de morte horrível, como se diz atualmente.

- Melhor chamar o doutor Fernando, que sabe do nosso esconderijo. Fernando é comunista mesmo, pelo menos votou no marechal Lott; soube que esteve na palestra de Octávio Brandão. Falar nisso você precisa ler “Canais e Lagoas”, o livro de Octávio. Quer dizer: ele não é só comunista; é escritor também.
 
- Não dá – disse Gilvan -. A gente só pode sair daqui quando tiver informações de João Farias, que conhece gente no exército. Isso tem cara que vai demorar até 65 ou mais.

Seu Augusto e Gilvan ficaram bebendo, em copinhos de ágata – primeiro uísque, depois cachaça -, e conversando com o cassaco, que preferiu a cuia. Tinha uma conversa aprumada e disse que já esteve em situação melhor, muito antes, na mesma repartição, quando chegou ao cargo de auxiliar de contabilidade, mas fora demitido a bem do serviço público por Augusto Pereira Lima, o próprio seu Augusto, na época em que ele foi diretor de pessoal, em Palmeira dos Índios.  Nenhum sabia do outro. Pouco se viram, na verdade, mas o caso trazia indícios contra o cassaco, ali no canto, se ajeitando. Sem provas, repetiu o homem, tornando a falar.

-Assinei o papel com um revólver engatilhado em minha cabeça – contou o cassaco. – Não fiquei com nada, nenhum tostão, caí na miséria depois daquela comissão de inquérito.

- Era o que me faltava: o Dreyfus do sertão!  - lamentou-se seu Augusto. Mas ele estava mesmo preocupado em ter levado um homem àquela situação, como presidente do inquérito administrativo, e encheu-se de culpa. Foi uma coisa bem marcante. A partir daí, seu Augusto começou a envelhecer e o que veio depois só não se perdeu por causa das anotações de Gilvan, datilografadas em duas vias, hoje quase sépia e parte comida pelas traças.

Gilvan morreu em 2015. Deixou escrito que ele e seu Augusto terminaram chamando Dr. Fernando, que levou o cassaco para o posto de puericultura. O problema era subnutrição. Ninguém foi preso, mas os dois tiveram que sair de Alagoas porque o departamento estava cheio de delatores do novo regime.  

Seu Augusto, quase 100 anos, mantém a memória como uma seta do tempo ao contrário, dos anos de 1960 aos anteriores, e dai revê a cara abismada do cassaco inocente, o sangue escorrendo na rua do comércio e o asfalto quente levantando fumaça. Lá no fundo das lembranças, as normalistas de Santana do Ipanema cantam boleros de Consuelo Velazquez.