domingo, 19 de maio de 2013

Paris





Passei a vida com o propósito de conhecer Paris. Na infância, era apenas um sonho, a família pobre mal conseguiu me levar duas vezes à capital do Estado. Quando jovem, no primeiro emprego, o dinheiro das férias sumiu com dívidas e objetos de uso pessoal. Comprei um tênis e um guia turístico da França. Sempre havia um impedimento para a viagem. Já velho, enfim, veio a chance. Aposentado, tinha o suficiente para pagar as prestações das passagens, em doze vezes, e embarquei com a mesma ansiedade de criança.

Não peguei no sono. Paris nunca chegava. Paris parecia cada vez mais distante. Era como voar em sentido contrário ou em círculos. Nenhuma paisagem lá embaixo. Só nuvens e o ronco dos motores. Os outros passageiros aparentavam tranquilidade, como se Paris fosse logo ali, um destino corriqueiro. Uns dormiam, outros liam, alguns conversavam sem demonstrar ansiedade. Mesmo nos momentos de turbulência não emitiam sinais de apreensão. A mulher do meu lado roncava como se estivesse em sua cama. Comigo era diferente. Não conseguia parar de mexer as pernas, suar frio e roer as unhas, sempre pensando na possibilidade de não chegar.

De repente, avistei a terra. Nada demais. Só áreas de agricultura, longas faixas em tons de verde e amarelo, enquanto o avião começava a descer, mas de maneira estranha. Não era possível um pouso naquela posição. O bico estava abaixado demais, inclinando-se para a vertical. Então, um dos tripulantes anunciou uma anormalidade – uma anormalidade muito grande, pois um dos motores ardia em chamas e caíram as máscaras de oxigênio e os calmos passageiros mudaram de atitude. Gritos e deus nos acuda, o carrinho de bebidas rolando no corredor como nos filmes, cheiro de fumaça e querosene e as aeromoças aos prantos.

Não encostei a cabeça nos joelhos, como os demais. Eu só queria ver Paris pela janela e vi. Cada vez mais perto. Olha a torre Eiffel, a cidade crescendo, crescendo, o Sena, uma linda manhã de maio. Cadê o aeroporto? Não importava. Era a viagem dos meus sonhos.  

terça-feira, 14 de maio de 2013

Iberê, segundo Paulo a caminho da gráfica


A arte ficou pronta. Agora, Iberê, segundo Paulo segue para a gráfica. Na semana que vem anuncio os locais e datas de lançamento em São Paulo, Rio e Recife. Na Flip, será no dia 5 de julho. Agradecimentos especiais a João Bosco, Valdir Afonso, Cauê VM, Felipe Cohen e Luís Felipe Camargo

domingo, 12 de maio de 2013

Um bauruzinho entre a vida e a morte



Pois estou aqui parado, sem crédito para o celular, sem dinheiro para a passagem, sem um tostão para um bauruzinho de cinco reais. Almoço bauruzinho com Coca-Cola há muitos meses. Nem isso, hoje. O mais complicado é que não vivo entre miseráveis, mas no seio desta classe média tão cheia de exigências e padrões. Passo longe da mesa daquele bar, ali na frente, perto da farmácia, onde meus amigos estão sentados, tomando cerveja. Cansei de dizer “estou sem grana”; eles se cansaram de dizer “Ok, a gente paga”.

Tem pessoas que se acostumam a tais situações. Eu me revolto, mas só por dentro, não culpo a política do governo. Fico só naquela: por que esse desgraçado incompetente ganha uma fortuna e eu estou na merda? Não é inveja. Fiz faculdade, já tive um carro e viajei pelo mundo. Um dia deu tudo errado e dias errados se repetem até hoje. Tento. Mandei meu currículo para diversos lugares. Não há vagas. O emprego cresce no País e eu diminuo. Nem me lembro do último filme que vi no cinema. Também não culpo Deus. Nem acredito em Deus. Minha vizinha disse que é isso. Quem não acredita se fode. Aliás, na semana que vem não haverá mais vizinha – estou sendo despejado.

Por enquanto, só pinga algum quando aparece um trabalho eventual, free-lance, faço quase tudo, mas minha última especialidade é escrever teses de mestrado para filhos da puta que vão se dar bem na vida. Fico pensando: o cara vai ganhar o emprego que seria meu. O texto é meu, as ideias são minhas e até a encadernação é por minha conta. Tem ainda uma consultoria básica. Às vezes, o sujeito quer uma tese sobre a influência de X sobre Y e digo que é o contrário e ele aceita. Não pagam por isso.

Já havia passado por problemas financeiros, mas passar fome é demais. Nunca imaginei chegar a este ponto até cavoucar os bolsos, não encontrar nem moedas e engolir o seco como almoço. Perguntam se tenho família. Ora, tenho, muita gente, mas cada um está preocupado com seus próprios problemas, sempre maiores do que o meu. Pelo menos é assim quando ia pedir mais cem emprestados à minha tia, planejando arrodeá-la com elogios para depois dar o bote. Não funciona muito. Quando me vê, ela já começa a contar miséria e dar conselhos. “Por que você não faz um concurso?”, sugere titia. “Não quero ser funcionário público”, respondo. “Desse jeito, então, fica difícil”, arremata a velha. Sempre.

Na última segunda-feira, saí de casa decidido a resolver meus problemas. Pensei nas opções, mesmo em assaltar um banco, mas sou cheio de pruridos e a alternativa mais em conta seria me matar. Fiz os procedimentos, escolhi os objetos precisos e escrevi o tal bilhete. Muito grande, detalhista ao extremo, mas tinha suas qualidades. Pois morri e no mesmo minuto acordei, no mesmo canto, olhando para o mesmo bar defronte à farmácia e lamentando a falta de dinheiro. Não havia a sensação de ter virado fantasma. A sensação era de ineficácia da morte, nem ela resolveria meus problemas. De fato, ninguém notou que morri, foi rápido, apagão geral, e os comprimidos – tomei quatro cartelas, vencidas – me deixaram ainda mais melancólico e desgostoso com o mundo. O que fazer? Morrer de novo, brincando de eterno retorno, voltando sempre para a porcaria de sempre?

E agora?

Tornei-me um personagem inverossímil, sem muito espaço para manobras, uma vez que movimentos em falso produzem o total desando do texto, e seria prudente dar à minha morte a categoria de desmaio. Não sei ainda. Outro problema é começar com um drama da classe média e terminar nos jardins do Éden. Falta espaço para descrever as coisas do céu e do inferno, ou chupar histórias de Bulgakov, sobre o gato falante que fuma charuto e faz parte da comitiva do diabo.

No fundo, essa mania de metalinguagem é o meu horror. Nem posso morrer, nem comer e as outras saídas são absurdas. Criou-se aqui uma área de estagnação, um beco sem saída, um mato sem cachorro - apenas em nome de uma solução literária sem futuro. Fato e ficção se misturam. Talvez eu seja outro narrador – o primeiro eu matei - ou talvez eu enverede pela história do cara que morre e seus pensamentos ficam gravados num HD externo. Pode ser uma alegoria - "Morrer é mudar de corpo como os atores mudam de roupa" (Plotino)- ou uma história espírita, de reencarnação imediata, um plano de renascimento sem carência. Seja lá o que for, foda-se, não vou exigir muito. Meu estômago está roncando. Agora, só quero um bauruzinho.


sábado, 4 de maio de 2013

Como promover um livro num clube de swing





- Soft or hard? - perguntou a moça da entrada, em inglês impecável, pois esta história não se passou no Brasil. Digo mais: talvez nem tenha se passado. Não importa. Estamos em um clube de swing inteiramente fora do padrão. Dessa forma, resolvo meu problema com os especialistas nesta prática e suas modalidades. Iriam dizer que não é assim, mas no meu clube é, e ponto.

As expressões iniciais identificam casais que ficam nas carícias preliminares (sotf) e os que vão às vias de fato. O nosso hostess, barbadíssimo, aproximou-se para explicar. A primeira coisa foi deixar claro que aquelas pessoas eram empresários, profissionais liberais, nessa linha, como se precisasse de uma desculpa.

Não adiantou muito, no meu caso. Não vejo nada demais em troca de casais, seja numa casa noturna ou numa casa diurna. Grave é tentar mostrar-se acima de qualquer suspeita a partir de atividades profissionais – sempre empresários, profissionais liberais-, porque acham que estão fazendo alguma coisa errada e podem se redimir por terem boas posições no mercado de trabalho. Começa que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Sexo é sexo; trabalho é outra. Pelo menos eu acho.

A novidade dessa aventura foi encontrar, por coincidência, uma velha conhecida – hoje, mais velha do que conhecida. Há tempos não nos víamos e não éramos muito ligados, ou éramos? Não lembro bem. Só sei que era a gata da universidade e por causa dela – dizem - nossa instituição acadêmica tornou-se uma das piores do país. O pessoal ficou muito disperso com sua presença – professores, funcionários e alunos – e não rendia muito. Quem conheceu a moça sabe que não era exagero.

Na época, todos queriam vê-la de perto, trocar umas palavras, sentir o cheiro de seu cabelo e assim por diante. Nos Estados Unidos diriam que era “popular”. A gente só dizia que era “gostosa”. Eu também, é claro, estava me chegando, mas minha única chance era na condição de amigo. Ficamos mais ou menos amigos. Ela enfatizava sempre nossa amizade diante de outros, reduzindo minhas chances a zero. Cheguei a tentar umas abordagens. Ela saía pela tangente e um dia se irritou um pouco: “eu não gosto deste agarração comigo, não”. Ali morreu tudo e agora ela estava diante de mim, no clube deswing, sob o olhar animadinho do namorado, um sujeito bastante esportivo.

Terminou acontecendo. Foi meia boca e lamentei muito as décadas de atraso, mas deixei o passado pra lá. Não havia muito espaço para aquela conversa pós-trepada. Deu apenas para passar minhas impressões à parceira e a seu namorado. Como personagem – fique bem claro - disse de forma polida que gostava mais de relações extraconjugais que geram climas e destroem casamentos. O ambiente institucional do clube não me agradava. “O homem é coagido a seguir determinadas regras em cada sociedade”, respondeu o namorado, citando Émile Durkheim.

Não estava, no entanto, detestando o lugar, apesar do hostess e de Durkheim. Fiquei mais tempo. Logo encontrei as gêmeas niilistas. O que estariam fazendo ali? Adélia e Amélia são personagens do livro “Iberê, segundo Paulo” (Editora Nhambiquara, 204 páginas), a ser lançado neste mês. Na verdade, havia uma confraternização de figuras centrais da obra, inclusive o bispo Iberê, com sua namorada – a ex-atriz pornô Letícia –, e seu ghost-writer, o ateu e alcoólatra Paulo. Mesmo no escurinho, divisei outros participantes da pitoresca trama: a deliciosa Pepa, com uma saia curtíssima, e o fotógrafo Assis, olhos vermelhos de maconha. Sem contar os obreiros anônimos da Igreja, todos a caráter, com gravatas de crochê.

A turma tinha vindo para a avant-première do livro – o primeiro livro com avant-première - e queriam transformar o ambiente em algo menos burocrático e contratual. Paulo, o narrador, sugeriu a suruba como uma revolução dentro doswing. “Ninguém é de ninguém”, proclamou, já bêbado. As gêmeas toparam e o pastor consultou Letícia sobre a conveniência de participarem ou não. “Tenha cada homem sua própria mulher e cada mulher seu próprio marido (Coríntios 7:2)”, lembrou Iberê. Mas o esquivo bispo pentecostal já era outro – como se verá no livro -, cheio de leituras fora da Bíblia, e encontrou a desculpa em Soren Kierkegaard: “Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História”.

A partir dai, liberou geral. Minha velha conhecida juntou-se ao grupo e não fosse o exíguo espaço desta página entraria em detalhes técnicos, no jorro sexual sem precedentes da esbórnia, entremeados de “aleluias” . Há ainda, claro, o elemento surpresa, aliás, muitos elementos surpresa, e algumas surpresas sem elemento, como o próprio Deus encarnado no bispo, cuspindo sangue por todas as páginas. Situações desse tipo, e outras bem melhores, estarão no romance. Leiam.  

sábado, 27 de abril de 2013

Lançamento em maio


São Paulo, Rio, Recife, Flip (julho)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

OVO




Quando era criança ouvia o pai repreender a mãe por procurar cabelo em ovo. Ele ficava torcendo para ela achar, pois nesse tempo ainda não era versado em expressões idiomáticas e não via nada demais em um ovo ter cabelo. Afinal, a pequena estrutura já era esplêndida por natureza, inteiramente fechada e branca, num arredondamento perfeito, sem sinais de entrada, mesmo secreta, impossível, por exemplo, de ser aberta como se abre hoje um kinder ovo. O cabelo seria mero ornamento externo, igual às perucas coloridas do carnaval. Não havia uma marca, uma divisão, uma área desatarraxável, uma saída ao estilo do cubo mágico, geometricamente favorecido por seu formato quadrado. Para se chegar à clara e à gema, apenas uma solução deselegante: quebrar a casca, de preferência contra a borda da frigideira. Depois, o conteúdo do ovo era frito e comido, sem a menor reflexão sobre a falta de suavidade e estilo. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Elas por elas





Minha coleção de virtudes está incompleta. Falta uma figurinha carimbada: não lhe dei atenção no momento crucial, quando veio a doença, junto com suas necessidades práticas – o plano de saúde ou um pedido a um velho conhecido da política, bastante para uma internação gratuita em melhores condições, num hospital público. Faltou-me dinheiro e iniciativa e eu esperei em casa, sob os edredons, no inverno de 1990, enquanto ela buscava tratamentos alternativos, que nunca dão certo.

O homem bom, o cara legal, sempre reconhecido pelo caráter impecável, ficou parado, esperando que tudo se resolvesse por conta própria ou por intervenção de terceiros. Ela não morreu, mas perdeu o viço, envelheceu dez anos em poucos meses, e a capacidade de tomar conta de si foi sumindo até desaparecer. Não havia mais ninguém entre os velhos amigos e seu pequeno mundo não tinha parentes providenciais. Meu único gesto digno foi empurrar a cadeira de rodas na saída da enfermaria, pagar um táxi e levá-la para minha casa, deixando-a na edícula como um animalzinho ferido.

Nenhuma reclamação da parte dela. Parecia ir morrendo aos poucos, calada, tentando sorrir à força para agradecer minha atenção tardia. Daí em diante, tentei manter os cuidados, mas era um pouco tarde, talvez tarde demais. Dava-lhe comida na boca, providenciava o banho, mudava-lhe a roupa. Depois saía e procurava esquecer esse transtorno na minha vida. Ia a bares, bebia com outras mulheres e contava a elas essa história triste, sem entrar em pormenores, sem a causa.

Um salto mortal para o passado, como se fosse possível, e estamos nos anos oitenta do século vinte. Uma vida feliz de casal. Unha e carne, como diziam, juntos como duas ratazanas de padaria, bichinhos conhecidos pela fidelidade mútua. Até o dia em que ela conheceu a mulher de sua vida. Duas mulheres juntas ainda era um tabu, naquele tempo, e me senti duplamente traído. No fundo, minhas ações posteriores foram motivadas por vingança, orgulho e preconceito, embora ainda não tivesse lido Jane Austen e se tivesse dava na mesma. Literatura não resolve tudo, como de resto quase nada resolve alguma coisa. No fim, como sempre, dá merda. Assim é a vida e a morte, o ciclo imperfeito, e pensei na época que seu eu fosse bom ou mau seria indiferente. Não há Deus para acudir a gente, como pensam por aí, mas sentia falta de Deus, especialmente um deus que tomasse providências, evitasse o declínio da nossa existência. Não havia. Tudo é acaso e nossas grandes e pequenas desgraças ocorrem com frequência porque Ele não existe e se existe fica apenas observando o circo pegar fogo.

Eu pensava muito nisso. Se Deus existe nem precisa do diabo, exerce os dois papéis. Dá o frio e tira o cobertor, deixa o crente entregue a outros mecanismos. Mesmo assim poderia estar enganado. Só que a fé não funciona comigo.

Tiro Deus dessa história. A culpa é inteiramente minha. Comi o prato frio da vingança quando a namorada dela foi embora e a deixou na miséria, apaixonada, doente e sem emprego. Mas a gente termina não comemorando a vingança. É o prazer mais rápido que existe no mundo. Depois vem a culpa e a sensação de falta de sentido. Foram os pensamentos que passaram por minha cabeça quando empurrava a cadeira de rodas, na porta da Santa Casa de Misericórdia (por que colocam esses nomes em hospitais? Parece nome de cemitério. Gosto mais da linguagem tecnocrática: centro de recuperação, pronto socorro, atendimento à saúde etc etc).



No anos 80 e 90 os medicamentos antidepressivos não eram tão bons como os de agora. Psicotrópicos deixavam os pacientes babando e com a voz engrolada. Ela sofria muito com a separação e adoeceu de outras coisas. Sofreu com a namorada, mas não sofreu quando separou-se de mim – esse era o problema; eu queria um pouco de sofrimento por nossos anos de casados. Apesar de tudo, não culpo a namorada, que agiu da forma como ela agiu comigo. Foi embora e ponto final.

Aí veio a passagem do século e ela começou a melhorar a custa de novos remédios e do tempo passado. Já andava, comia sem ajuda e conseguiu remédios de última geração. A medicina evoluiu e seu coração ficou menos apertado por causa da outra. Ficou agradecida pelos meus préstimos, embora eu não achasse que merecesse tanto. Ainda nutria restos de sentimentos negativos. Mas ajudei a repô-la no mundo em condições razoáveis de sobrevivência. Considerava isso a melhor parte – a parte do homem bom.

Então, ela renasceu. Tinha jeito para a escrita e terminou um bom livro sobre a doença, mas sem entrar em detalhes do nosso relacionamento. Não éramos personagens da história, pois preferiu tratar a depressão como um moto próprio - uma espécie de diário da cura.

Em 2013, considerei minha participação encerrada. Ela Também. Escreveu uma carta amável, deixou em cima da mesa, e foi embora de novo, desta vez sem ninguém. Fiquei aliviado por ter colaborado com a recuperação – pelo menos depois da Santa Casa de Misericórdia. Desde então, nunca mais nos vimos.