terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Pós-vida


Morreu e surgiu na vida eterna, ou em algo parecido, mas ali também não obteve respostas sobre a existência e o fim da existência. O lugar era espaço aparentemente vazio, embora outros mortos venham especulando que o vácuo está cheio de flutuações de gluóns, como ocorre no mundo das partículas. Mas a questão continua: onde estamos? Nenhuma entidade, religiosa ou não, apareceu para dar explicações, embora muitos já estejam nesse ambiente há milhares de anos.

Não há ordem nem leis para a população de 106 716 367 669 habitantes – presumível número de pessoas que já passaram pela vida terrena; e continua chegando gente. Reina a incerteza, não só a de Heisenberg, mas todas as outras – possíveis e impossíveis, incluindo a sensação de ausência do corpo, que contribui para outra dúvida nesse universo de dúvidas: eu sou eu? – perguntam com frequência. Indivíduos do passado e do presente misturados e perplexos numa área sem fronteira visível, em que se reúnem, por exemplo, fanáticos da idade Média, multidões de nômades e, mais recentemente, físicos teóricos. Convivência difícil. A coisa pode ser parecida com um ovo pelo avesso. A clara e a gema estão do lado de fora, onde todos viveram, e o interior oco, porém infinito, onde se acham agora. Mas é só uma suposição.

Adeptos de religiões acham que comprovaram sua tese da sobrevivência da alma, mas mesmo estes reclamam das condições e da falta de semelhança com o paraíso dos livros sagrados. Já os céticos em minoria consideram que o fenômeno faz parte do processo da natureza – talvez a dualidade onde-partícula - e lembram que Deus ainda não deu sinal de vida.

O escritor George Bernard Shaw, destacado incréu desse além, não contava com essa sobrevida (ou sobremorte), mas continua o mesmo. Maldiz a ciência, que nunca resolve um problema sem criar pelo menos outros dez, e maldiz a religião: “Cuidado com o homem cujo Deus está no céu”. Agostinho também esperava outra coisa, porque é santo, mas ele está no meio da multidão etérea ainda pregando a palavra do Todo Poderoso: “na procura de Deus é Ele quem se adianta e vem ao nosso encontro”, repete. “Tá demorando muito”, responde um apateísmo ansioso.

Não há frio nem calor nem comida nem cansaço nem repouso nem fome nem vontade de comer nem pontos de referência - alguns dizem que sequer há o tempo. Niels Bohr calcula que apenas passamos de uma orbita a outra sem percorrer o espaço intermediário. A pequena Guerra santicientífica, no entanto, é apenas retórica. Ninguém consegue tocar em ninguém. Nem conversar com vizinhos na calçada.


É um bom lugar para criar teorias, mas incômodo para morar.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Marilda


Depois de um longo tempo na empresa, saí à procura de novos desafios que não apareceram. Passaram-se seis meses e nada. O desemprego produz a sensação de que tiraram a escada e estou me segurando com esforço no parapeito do prédio. A cada decepção – “desculpe, não temos vagas” – parece que alguém pisa em minhas mãos e às vezes penso em soltá-las. Passo o dia pensando nessas coisas porque em casa a situação também não é boa. O casamento está no fim. O que passou, passou, eu disse, e prometi ir embora. Só não sei como sair por aí sem dinheiro.

Marilda ainda trabalha. Eu perdi o emprego numa agência de publicidade porque agora os produtos se anunciam sozinhos, por meio de algoritmos, e sem necessidade daquelas sacadas e frases de efeito que não causam mais efeito no consumidor. Inicialmente, ficamos acertados que ela manteria a casa naquele período difícil e depois veríamos como compensar, em termos de grana, pois o casamento é uma coisa, o dinheiro é outra.

Cada dia mais acuado em casa, um intruso, tentando não aparecer muito na cozinha e só como quando sou chamado. Li no jornal a entrevista de uma psicóloga em que ela garante que a felicidade é possível a um desempregado com boletos a pagar. Não é verdade, pelo menos no meu caso, pois Marilda deu um ultimato e disse que eu tinha três meses para arranjar qualquer trabalho – nem que fosse intermitente. Argumentei que o mundo tinha mudado, os empregos sumiram para quase todos e que só sei fazer uma coisa; talvez nem saiba mais, Marilda. Hoje uma margarina se anuncia por conta própria, levando em conta bilhões de possibilidades e eu sou do tempo do slogan e do jingle.

Eu precisava de uma ideia, um aplicativo que gerasse renda, um modelo de negócio inédito, mas termina me distraindo jogando paciência no computador. Eu entendia a preocupação de Marilda, pois o salário dela tinha sido cortado pela metade, por uma nova medida do governo, e minha presença em casa estava estourando o orçamento. Outro problema era o fim do amor. Não apenas o nosso. O próprio sentido do amor tem se esvaziado em todo o planeta. As pessoas se casam para dividir os custos domésticos e, secundariamente, por sexo, que não resiste às oscilações do mercado e ao dia a dia. O importante é o equilíbrio das contas.

Meu mundo keinesiano desabou nessa temporada de ócio. O Estado não pode fazer nada por mim. Nem a iniciativa privada. Marilda já fez o que pôde.

Turismo

Finalmente, encontrei uma saída. O Turismo por Acaso era o meu produto. Vendia viagens que transcorriam ao sabor dos acontecimentos, sem hora para voltar, com todos os dias livres. Cada um marcava seu hotel, de acordo com o gosto e a situação, e o passageiro também poderia pegar a passagem quando quisesse ou desistir no último momento. Eu mesmo sou o guia de todas as excursões. Sento-me num bar, peço uma bebida e espero que algum cliente venha com dúvidas sobre a Catedral de São Vito ou os canais de Bolonha. Se não vier, melhor.

Realeza

Deslocava-se com facilidade nos bastidores da corte. Vez por outro se inclinava para Sua Majestade até os limites dos ossos. O rei torcia secretamente para ele inclinar-se ainda mais. Só no último instante fazia o gesto real que significa “por hoje, basta”. O homem faz a sua parte e recebe a contraparte. Move-se nas salas enormes, se solta em cortesias, chama burocratas de Vossa Excelência para situar-se também nos escalões inferiores. No final do mês, recebe as moedas e vai para taberna vangloriar-se de seu espírito público.

Memória

Escreveu as memórias até a metade do livro e dali em diante foram parágrafos e parágrafos sobre a perda da memória, crítica sem piedade à falta de sentido de coisas ditas do primeiro ao sexto capítulo e historinhas “bem chinfrins”, como Graciliano disse a Antônio Cândido. Depois da doença, só lhe vieram lembranças cotidianas sem importância aparente, sem comendas ou convivência com vultos da República. Não sabia mais quem eram aqueles homens com os quais dividiu segredos de Estado, mas os fatos da infância tinham nitidez e brilho, como a lagartixa imóvel na parede de seu quarto de criança e cenas do primeiro filme que viu na vida: Gunga Din, de 1939. A primeira parte era uma peça auto laudatória e, aqui e ali, mentirosa. A segunda parte era tudo que ele não teve na política: estilo. A amnésia deu-lhe jeito para juntar as palavras de forma direta e concisa.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Desafio profissional


A mudança de hábito se deu por necessidade.  Só havia vaga de vigia noturno, eu estava sem emprego e resolvi experimentar. Não era minha área. Sou formado em Física, mas o mercado tinha outras prioridades, enquanto os mais ricos queriam proteger o patrimônio dos vândalos e ressentidos com a situação vigente. Vez por outra os bandos saqueavam mansões, levando comida e aparelhos eletrônicos, que eram vendidos no mercado negro. Eu não podia fazer muita coisa em caso de emergência, embora a presença de um homem armado pudesse desencorajar invasões e roubos, senão todos, pelo menos alguns. Os ricos que ficaram no País estavam enfrentando uma situação intranquila. A maioria dos donos do dinheiro vendeu tudo e foi embora quando o pessoal sem trabalho partiu para a distribuição da renda de uma forma meio desorganizada.

Na minha guarita, eu ficava só, na madrugada, até chegar o segurança do dia, que corria menos perigo e também ganhava menos. Era um professor de história, muito conversador, e só não tivemos mais contato porque na hora que ele entrava, eu saía. Basicamente, meu trabalho consistia em olhar os monitores, pois havia câmeras em todos os lados da casa, e se a situação exigisse, usaria os meios dissuasivos disponíveis: um fuzil AK-47, com muita munição dentro de uma caixa; uma pistola Glock, um lança-chamas e granadas de mão. Quando eles chegassem eu deveria dar um tiro de advertência e em seguida atirar de verdade contra os intrusos que não recuassem. Eu nunca havia matado uma pessoa, disse isso na entrevista de emprego, mas o homem que me atendeu respondeu que não tinha importância. “Como o tempo você vai pegando prática”. Estava certo. Aprendi a lidar com o equipamento e com os dilemas morais.

Jeitinho

A gambiarra, enfim, tomou lugar das instituições e a vida seguiu na base do improviso. Alguns se resignaram e viam o precário apenas como provisório.  O importante era que no fim dava certo, ou mais ou menos, e quando dava errado era porque é assim mesmo. Acontece. A própria vida um dia acaba.  As coisas se ajeitam, pensavam, e as coisas de fato se juntavam umas às outras, mas sempre deixando para trás os seus nós, fios desencapados, pequenas pontes de madeira podre. Tudo era remendo no meio da informalidade e da desambição. Também as pessoas começaram a desenvolver suas relações sem nenhum planejamento, confiantes em encaixes imperfeitos, homogeneizações por conta própria e promessas de que amanhã a gente dá um jeito.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Baseado em fatos que serão reais



Como não há mais empregos, Heleno resolveu inscrever-se num curso rápido e grátis sobre esmolas. Não queria sair por ai, sem conhecimento do mercado, sob o risco de voltar para casa de cuia vazia. Quando era um profissional bem-sucedido sabia o que fazer, mas agora, em um novo desafio, precisava de ferramentas adequadas e pegada vendedora para angariar algumas moedas no restrito ambiente da compaixão. Em suas primeiras lições teóricas, aprendeu que o apelo religioso é o mais eficiente, conforme já disse São Leão Magno - “A mão do pobre é o banco de Deus” - e conforme está escrito no Livro dos Provérbios: “Quem se apieda do pobre, empresta ao Senhor, que lhe restituirá o benefício”. Heleno é ateu. No entanto, notou nessa abordagem um processo de troca adequado, em que mãos invisíveis abastadas pelo capital acumulado poderiam investir uns trocados no item salvação.

Como não há mais empregos, a estudante de Letras Maria Alice resolveu vender sua alma ao diabo. Pegou-se à tragédia de Fausto em busca de algum dinheiro, mas logo descobriu que metáforas não geram renda. O comprador nunca apareceu.

Como não há mais empregos, a publicitária Patrícia Caldeira aceitou vender o próprio corpo. Começou por um rim.

Como não há mais empregos, o velho Giba foi buscar a sobrevivência no mundo do crime, que às vezes compensa, às vezes não, igual a tudo na vida. Escolheu o tráfico de drogas por conhecer bem a mercadoria como consumidor diário e jogou-se no empreendimento de uma pequena boca de fumo. Teve, no entanto, todos aqueles dilemas morais de crime e castigo, mas o momento é outro, pensou, e seguiu em frente. Tratou a consciência à base do seguinte raciocínio: sua atividade era mais uma na informalidade geral e o aspecto produto x legislação não existia mais. Não há polícia, não há sanção, não há crime. E não há perigo. A única lei vigente é a da oferta e da procura. Para ele, a desvantagem foi a perda dos amigos, mesmo aqueles que se tornaram seus clientes. “Sempre me tratam com olhar superior, como seu eu tivesse fazendo uma coisa errada”, lamenta-se o velho Giba. Boa gente, Giba, mas o preconceito ainda é grande.



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Depoimentos falsos


Quer se matar, se mate, mas já pensou se você se mata e acorda num lugar que nem tem remédio pra dormir?  Pense nisso e você vai querer se matar de novo quando chegar lá. Morre e dá de cara com outro lugar pior e assim por diante. Veja, por exemplo: você deve duzentos mil, não tem como pagar e por isso quer fugir dos credores de uma forma que considera eficiente e definitiva. Toma a cartela de remédios ou pula do prédio, sonhando com o nada, o fim da encheção de saco deste mundo, e cai em outro onde deve quatrocentos, com cobradores ainda mais ferozes e decididos. Como já se matou uma vez, fica mais fácil e imagina que a solução será morrer novamente. Morre e a dívida vai aumentando. À medida que mais se mata, mas a dívida cresce. (João Coelho, conselheiro de investimentos).

João Saraiva já estava cansado de escrever histórias que ninguém lia. A desgraça de sempre, fome e falta de rumo, além de elementos químicos gosmentos que ele enfiava no enredo para dar um toque de ficção científica.  A mistura não funcionava direito porque os desvalidos de seus contos eram os mesmos que já estavam lá foram e o leitor não queria tanta falta de esperança, chega, bastam as reportagens, cujos assuntos em pauta naqueles dias eram o fim dos sistemas de energia elétrica e comunicação. Ainda havia luz e internet, mas não iria demorar para cair tudo. João Saraiva tinha prevenido. Só que a crítica não soube; ninguém soube. Agora precisava de um veio novo, menos niilista, coisa difícil de fazer por falta de verossimilhança com a situação vigente. (João Saraiva, por ele mesmo).

A encomenda é sobre uma estação espacial prestes a cair na Terra. Só que não há mais foguetes para buscar os tripulantes por causa de uma gigantesca crise econômica global. A bordo, russos, norte-americanos e chineses discutem a respeito de quase tudo, com destaque para geopolítica, sexo e morte. Pensei em colocar um canadense para tentar convencer os demais a encontrar uma forma de voltar para casa a partir dos próprios recursos da estação. Pelo menos nessa parte, cópia deslavada de ”O Voo da Fênix” (1965), de Robert Aldrich, cujo elenco conta com James Stewart e, claro, Ernest Borgnine, ator de dez entre dez filmes desse tipo naquela época. A diferença é que o espaço substitui o Saara e a M17 – ou qualquer coisa por aí - substitui o velho Fairchild C-82A Packet. Primeira ideia: para não ficar igual ao filme de Aldrich, o tripulante canadense não consegue convencer os demais e eles morrem ao reentrar na atmosfera. Categoria: ação e fracasso. (Pedro, roteirista)

Eu só queria uma lata bem equipada, com dechavador, sedas de variadas procedências, um palito daqueles de manicure (para pilar, ou apilar, como se dizia antigamente); o certo é que comecei a discutir seriamente comigo mesma as diferenças entre antes e agora. As coisas que se foram - a lata, por exemplo - e a esbravejante incerteza de todos os lados dos dias de hoje; ninguém se entende nem se cala no seu canto, com sua lata, como eu fazia há muito tempo quando tive o prazer de possuir uma lata com todos os utensílios necessários. Eu estava entre as pessoas que queriam mudar o mundo, contando que me deixassem quietinha, num cantinho.  Assim passei a minha juventude, apesar de tudo, muito boa.  Hoje, sou uma velha perplexa com medo de ser mal interpretada, mas ainda mais assustada com o que estou vendo.  Tenho receio de escrever essas coisas, embora o mais provável seja que ninguém leia. Mesmo assim, fique claro que não estou falando de um caso ou outro, desta ou daquela situação em particular; é mais ou menos sobre tudo.  Bom. Acabei de fumar um e estou com tendência a tornar as coisas muito amplas. (Lúcia, funcionária pública). 

Estou de banho tomado e quase quite com o Senhor.  Sei que estou pagando, já dei tudo que tenho e ainda devo mais, pois cometi todas as barbaridades, pior que o Senhor no Evangelho Segundo Lucas, ordenando a matança, embora com razão, levando em conta que as vontades de Deus são insondáveis. Vontade, não, princípio, meio e fim de tudo, pois é Aquele que reina no cheio e no vazio. O pior que usei do Senhor a norma seguinte: como de trata de Alguém cujo propósito desconhecemos, como saber se o que estou fazendo e acontecendo vai ou não de encontro a esses propósitos? Um meio de se livrar de uma acusação questionando a essência do projeto. Não deu certo. O pastor me esclareceu tudo e houve uma solução conciliadora, aceita pelas partes: o perdão. Não é um caminho curto. Por isso estou aqui, catando caquinhos no lixo, à espera da hora do culto. (Reginaldo, morador de rua, evangélico).    


terça-feira, 3 de outubro de 2017

A consultoria



Tudo andava muito provisório até que consegui uma vaga numa empresa realmente ducaralho. Lá, ninguém trabalhava. Cumpríamos o expediente, mas não havia o que fazer em termos práticos, embora os computadores estivessem dispostos em mesas impecáveis, com retratos da família e um buraco redondo para colocar o copo.  O dia transcorria animado à base de caipirinhas e outros drinques e conversávamos sobre nosso passado em redações de jornais e agências de publicidade. Vez por outra, o dono da empresa, um jovem elegante e gentil, chegava para perguntar como iam as coisas.  Tudo OK, nós dizíamos, enquanto uns dormiam na sala de jogos ou namoravam na antessala do banheiro.  Salário sempre em dia, seguro de saúde, carteira assinada.

Alguma coisa deveria estar errada e tal conversa às vezes rolava no corredor. Pensamos em lavagem de dinheiro. Nesse ponto, as opiniões se dividiam. Por que uma empresa de fachada seria tão bem equipada e tão dedicada em suas relações trabalhistas? Alguns colegas, no entanto, achavam simplesmente que se tratava de um caso de beneficência ou algo parecido, talvez uma promessa, pois o patrão deveria ter outros negócios capazes de sustentar nosso luxo. Poderia ser uma pesquisa sobre o mundo do trabalho – no caso, sem trabalho – ou até um reality show. Fosse como fosse, assinávamos o ponto, a documentação estava em dia e eu achava que merecia essa deferência depois de tantos anos penando na imprensa.

A empresa era uma consultoria, mas nunca não éramos consultados. Podíamos ser, mas de uma forma tão sutil que nem percebíamos. Uma consultoria com escopo vago, genérico, baseado em soluções para problemas de clientes que não existiam. Ali só recebíamos visitas de amigos, em ocasiões festivas e frequentes, e não raro esquecíamo-nos do término do expediente, levando a farra até a madrugada. Pedíamos comidas e bebidas pela internet e, no dia seguinte, não havia sequer um farelo de pizza no chão. Tudo limpo e lustroso.

- Vocês fazem consultoria de quê? – perguntavam os convidados nessas happy hours expandidas -. Disfarçávamos bem, respondendo que, cada caso era um caso, dependia do imponderável, enfim, situações não contempladas por outras empresas do gênero, ressaltando logo em seguida as ótimas condições de trabalho, o clima de liberdade e camaradagem entre os funcionários - ingredientes essenciais para uma boa consultoria.
Eu aproveitava o tempo sempre livre para ler romances do século XIX na biblioteca do segundo andar, jogar paciência e ouvir música deitado numa rede com vista para a avenida principal, onde homens e mulheres andavam apressados no horário do almoço. Uma colega escrevia um blog de cultura, alguns se penduravam no telefone e também promovíamos campeonatos de games da FIFA. Não faltavam os jornais do dia, revistas de fofocas e balas de vários sabores. Os mais novos e esportivos faziam musculação. Alguns passavam o dia fumando maconha e vendo seriados na TV a cabo.

Durou quase dois anos até o patrão aparecer com uma má notícia: a empresa iria fechar por conta da crise dos mercados e das altas taxas de juros. Enquanto ele falava, um homem mais velho, que parecia seu pai, estava de pé, junto à porta, esperando que o jovem empresário terminasse seu pequeno discurso de despedida. Ao final dos agradecimentos por nossa colaboração e empenho, o patrão foi embora.  Uma semana depois, soubemos que estava internado numa clínica psiquiátrica.


Um cara legal. Nunca tinha visto ninguém assim na iniciativa privada.  

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Na mesma toada


Por Joao Bosco Alves Sousa

Acordei muito cedo para não fazer nada. Quase não reconheci o senhor no espelho do banheiro que me encarava. Senti pena daquele outro que imitava meus gestos. Tiro os olhos do espelho e procuro o creme dental que já está no fim. Pensei um impropério, mas não pronunciei em voz alta como se não quisesse acordar alguém ou a mim mesmo. Será que estou preso dentro de algum pesadelo? Vou até a geladeira e o que me resta de desjejum é o resto de uma salsicha que sobrou de alguma refeição. Engulo com certo enjoo e arremato com um copo d'água. Sento pesado na poltrona para fumar um resto de cigarro e pensar numa agenda do dia que não tenho. Resta-me apenas todo o dia inútil. Sorvendo lentamente cada trago para que durasse uma eternidade, vejo o infame bilhete de cobrança sendo enfiado por baixo da porta. Sei que é o síndico pelo latido histérico do cão que ele sempre leva para passear naquela hora. Penso em mandar enfiar o bilhete no cu ou apanhar a bosta do cachorro com ele. Mas não me resta muita disposição. Continuo sentado à espera de Godot. Mantenho os olhos fixos onde antes tinha uma televisão e agora só restam expostos fios, poeira e um controle quebrado. Faz algumas semanas que a tevê virou comida e maços de cigarro. Não sou mais smart, nem conectável e nem tributável.

Saco de um livro do Maiakovski que está na prateleira e leio um trecho de um poema:

"Caros
camaradas
futuros!
Revolvendo
a merda fóssil
de agora,
pesquisando
estes dias escuros,
talvez
perguntareis
por mim."

Ultimamente só aqueles a quem devo perguntam por mim, ou o maldito síndico que me vigia. O estômago dói, as vísceras fazem um barulho estranho, protestam exigindo uma xícara de café para desfrute...


Meu tempo agora é marcado por um arremedo de relógio solar. A réstia de luz insidiosa avança pela janela. Pego os restos do que sobraram de mim e como a um cão que levamos para passear resolvo sair, fugir da caverna que se tornou o apartamento. A segunda-feira se repete como um feitiço do tempo. Ao chegar à porta eu paro suando frio, imaginando o síndico me espreitando, me tocaiando na escada, no elevador... Preciso estancar a dignidade que foge das minhas veias. O que resta do homem que fui escolhe sair pela janela... Não será mais um segunda como as outras eu me tornarei pássaro e voarei para longe das contas, do desespero da infâmia de todos os dias...