quinta-feira, 10 de agosto de 2017

AV.




Andamos na mesma avenida todos os dias atrás de comida e nossos ternos já estão puídos, nossos corpos em câmera lenta, cansados de subir e descer de prédios vazios, olhando em volta apenas ruínas. Carros parados no vento frio do final da tarde.  Mas entramos no museu e ainda há quadros, embora as prateleiras do mercado não tenham sequer laticínios vencidos ou pães sem mofo ou cigarros, cuja fumaça agradava e desagradava antes dessa ocorrência tão infausta.  O campo, disseram, ainda tem plantações, talvez batatas enterradas ou milharais secos. Não temos como chegar até lá. A água, no entanto, corre como rio na alameda paralela, atrás do grande centro de negócios, hoje coberto de urubus. Não foi um desastre. Foi aos poucos.

Ed.

Vamos ficar apenas com um elevador, informou o síndico, sem antever nem imaginar o que viria. Foi rápido. Logo, o porteiro estava demitido, metade do prédio já não pagava o condomínio, e, aproveitando-se da falta de segurança, veio um ladrão e assaltou três apartamentos. Os moradores mataram o ladrão quando ele tentava fugir pelas escadas. O curioso é que ninguém se lembrou de chamar a polícia. Jogaram o corpo no meio da rua, sem saber se faziam aquilo para dar um exemplo ou protestar contra a ausência do Estado.  Cinco pessoas perderam seus empregos; a do 401 atirou-se do 401. O homem do 202 morreu de causas naturais.

K.

Uma barata passeia livremente dentro do apartamento sem móveis e nem liga para a presença do homem deitado, nu, no meio da sala; vez por outra, como um animal amestrado, a barata passa por cima do corpo e faz pequenas piruetas em torno do umbigo do homem. O homem se levanta, respira fundo, e vai para o saco de dormir no quarto, sentindo-se também um inseto. Agora, ela também está no quarto, circula como Fred Astaire nos rodapés e emite um som melancólico de seus espiráculos; bastava um microscópio e veríamos um olhar expressivo e solidário para o homem.

ASDFG.

Bastava ter ginásio completo e curso de datilografia. Logo uma colocação no serviço público. Ele gostava das máquinas de escrever. Quando chegava ao fim da linha, rolava o cilindro de volta como quem recarrega uma arma, e repetia o mesmo gesto muitas vezes e era bonito quando todos no escritório estavam em sincronia; parecia uma orquestra. Ele preferia o barulho surdo das teclas sobre papeis intercalados de carbono. Quanto mais cópias, mais surdo o barulho. Quanto mais força, mais as letras chegavam mais nítidas à última folha.  Às vezes, o chefe aparecia para perguntar quem datilografou isso aqui e reclamava ou dizia meus parabéns. Aprendeu num curso noturno. ASDFG até pegar prática, até escrever sem olhar para a máquina, até conseguir usar os cinco dedos, até escrever a última carta, em três vias, a quem interessar possa.  

NY

O pequeno apartamento era muito pequeno. A cama ocupava a sala inteira. Um banheiro espremido no canto e uns cinco palmos de recuo para a pia. Quando eu saía para o trabalho, recolhia a cama à sua posição vertical, varria o chão e armava no espaço vazio uma mesa com um jarro de flores. Pensava muito naquela providência, pois estava arrumando a casa para nada. Ninguém iria ver a decoração. Nunca recebi visitas. Na volta do trabalho, desfazia tudo, deitava, olhava para o teto creme, pensava na volta ao meu país e dormia. O barulho da cidade ajudava. Som contínuo de sirenes, trânsito mesmo na madrugada. Às vezes pensava em abrir a janela, que corria na lateral, mas a vista era apenas a parede do prédio vizinho, em tijolo aparente. Abaixo, um precipício sem luz e algumas vozes. Minha principal atividade noturna era descer à lavanderia, que ficava no subsolo. No meio de pessoas caladas, poderia ressurgir a moça do 27º andar, que tinha um tique nervoso, mas era bonita; ou o dominicano que cantava baixinho sucesso de Cuco Valoy, para si mesmo, enquanto esperava a roupa secar. Quando eles não estavam lá, eu quase só olhava para a escotilha da máquina, como se fosse TV, cuecas e meias torcidas formando imagens de coisas e gente. Basicamente isso consumiu sete anos da minha vida.

sábado, 15 de julho de 2017

A gosma pulsante



1 - Enquanto prendia a pequena plateia, tudo funcionava. Mas dava-se um tempo e passava a exigir mais atenção, cutucava seus amigos, como a enfiar-lhes um ponto de exclamação. Mais uns copos e repetia histórias e a voz ia ficando cada vez mais pastosa até extinguir-se por aquela noite. Voltava no dia seguinte, inteiramente refeito, como se nada tivesse acontecido, pois de fato sempre tinha sido assim, há muito tempo, desde que ainda jovem firmava-se como nome promissor das nossas letras.

2- Em casa, basicamente ele se dividia entre a feitura de um grande romance, ainda nas primeiras linhas, e a criação de enredo para conversas. Em determinadas situações, em que se sentia diante de um “um achado”, ele ficava sem saber se escrevia ou contava. Era bom ver a reação das pessoas diante de algo fabuloso que, sem ter acontecido, seria ainda muito mais interessante do ponto de vista formal. Como se pudesse ver a reação de seus leitores, no caso, ouvintes, alguns encabulados.  Pensava desse jeito, gastando frases de futuros livros – inclusive as da obra-prima empacada - em bebedeiras com amigos. Uns acreditavam, outros não, e uma parcela achava que tanto faz. Quando estava tranquilo não conseguia dormir. Preferia aproveitar acordado um momento tão raro, embora improdutivo. Nesse estado, jamais pensou algo que prestasse. Sentia apenas o conforto de recordar dias melhores.

3- De volta ao bar. Era só quase isso todo dia quando se sentava naquela mesa e contava histórias antigas como novidade: a formação do Bangu, Brigite Bardot, o primeiro satélite artificial em órbita, um voo no Stratocruiser da PAN AM; coisas desse tipo, que viveu de perto e achou importante. Muitos só ouviam por educação, mas ele tinha o passado vivo na memória; parecia mais nítido na hora das reminiscências do que no tempo em que estava sendo vivido. Foi ele que disse, aos quase oitenta anos. “O que penso que li no jornal já está na enciclopédia”, escreveu, no último livro, embora já tivesse dito isso inúmeras vezes.

4 – Passado. Viveu intensamente o tempo em que foi aclamado em certo círculo. Desconfiava daqueles que lhes davam tantos presentes. Via nisso uma incapacidade de a pessoa impressionar com as mãos limpas, sem o brinde, sentia falta de elogios densos. Mas pararam os presentes e os aplausos e também nunca mais ganhou concursos literários; nem mesmo os de abrangência municipal.


5 – Inspeção no corpo: problemas. Visto de fora, a perda dos movimentos. Em sua mente, porém, tinha a sensação de uma vida oleosa. Todos desse mundo untados por uma gosma compacta, sem cheiro e sabor, mas com textura viscosa, também sem cor, embora com propriedade pulsante, como algo vivo, ora juntando, ora afastando as pessoas umas das outras. Quando ele chegava perto de alguém que identificava – um amigo, um parente, uma celebridade antiga da TV -, logo era puxado em outra direção. Não havia dia nem noite nem um sentido preciso de tempo, conforme ele me contou.  

6 - Ele não entendia porque estava nesse processo e seguia assim, carregado pela torrente gosmenta, enquanto era observado por médicos numa sala de hospital, pois o pulso mal dava sinais de vida. La dentro, no entanto, as coisas aconteciam inteiramente fora de seu controle, mas eram intensas e marcantes, embora não houvesse pontos de coincidência com que vivera até então.  O tecido pastoso em que caíra não impedia lembranças, mas a consciência praticamente restringia-se àquilo, pois suas energias estavam voltadas para entender o que se passava em seu corpo mergulhado na indefinição dessa matéria sem nome. Desta ele escapou, como escaparia de outras.

7 – Com aparência mais velha ainda, o rosto macilento de personagem de Dostoievski, ele voltou à mesa para contar sua odisseia nas fronteiras da morte. A teia víscida de seus delírios no hospital certamente serviria ao romance, como de fato serviu.


8 – Jamais imaginei que um dia estivesse agora rijo, num caixão, depois de uma luta de foice contra o fim e de uma vida que parecia o moto perpétuo. Estrebuchou tanto. Pensei que venceria a briga, especialmente quando buscou ar a ponto de nos sentirmos quase sem oxigênio em seu leito. Não funcionou. Deu-se o apito fino e constante do monitor de sinais vitais. Não deixou mulher nem filhos. Só um último livro incompleto, muito aquém de suas histórias no bar. 

sábado, 17 de junho de 2017

A Rua


Quanto mais durmo, mais economizo. Ruim é achar onde dormir até mais tarde. No abrigo, temos que acordar cedo; na rua o problema são os passinhos, bem perto do meu ouvido, sapatos de vários tipos, sons diferentes, sem padrão. Fosse um toc, toc constante, em ondas, eu ganharia umas horas. Só não sei para quê. Acordar, comer, calcular, dormir de novo e comer de novo caso consiga comida, mas aparece nem que seja uma sopa, e eu detesto sopa, e no último caso tem o lixo. Um dia achei um filé inteiro.

Mesmo assim, nessas atribulações, consigo economizar algum. Pequenos serviços. Outro dia ajudei uma moça a carregar dois sacos de roupa. Ela disse que era para vender no interior. Ganhei cinco reais. Nem esperava tanto. Também achei um celular e recebi uma recompensa boa, de vinte reais.

Não bebo. A verdade é que não bebo desde que vim para a rua. No entanto, participo da pequena vida social da praça. Todo mundo contando vantagens que se foram, se é que falam a verdade. De resto, lamentações e planos. Lá no canto, um grupinho divide uma garrafa de vinho barato e umas pedras de crack.

Eu falo muito porque os outros são quase silenciosos. Pelo menos os do meu grupo, homens de meia idade. Tenho agonia quando fica aquele silêncio e então começo. Se não tenho um assunto recente, explico para eles por que não acredito em discos voadores - o que as pessoas veem são aglomerados de partículas, mini galáxias, em movimentos sem lógica para nossa imaginação, especialmente para a de vocês, digo a eles, esperando uma intervenção e nada. Só no fim da história, alguém diz "pois é" ou algo como "Deus escreve certo por linhas tortas". Eu nunca esperei mais do que isso.

O grupo é pequeno, gente mais cautelosa, sempre num relacionamento complicado com os drogados, pois no fundo não sabemos quem está certo. Talvez sejam eles. Mesmo assim não vou arriscar outro passo em falso na vida. Na verdade não sei. Eles estão fazendo uma escala na viagem para a morte, mas eu vou direto e, no fim, dá na mesma. Às vezes eu penso assim, às vezes não. Pode ser apenas um monte de átomos em movimentos bizarros e quando a gente morre os átomos vão embora sem a menor cerimônia. Pode ser ainda uma alma imortal sujeita a julgamento e outros processos e, pensando nessa hipótese, eu evito experimentar essas coisas. O que mais faço na rua é pensar.

Aos poucos, a gente se acostuma. Bate nessa condição e fica, vai ficando, sem muitas providências para sair. Também aos poucos o que restava fora da rua vai sumindo. Mas ainda penso em Margô, minha ex-mulher. Não tivemos filhos. Não tenho mais tantas ligações genéticas com o mundo. Daí a falta de entusiasmo para voltar, empenhar um tremendo esforço que ao final pode ser insuficiente e só capaz de levar-me à depressão e ao desentendimento. Então, vou aos poucos. Estive numa espécie de curso para moradores de rua, os sem-teto, e só posso dizer que minhas perguntas não foram respondidas. Serviu para passar o tempo e havia lanche.

Na rua, você precisa estar atento, informado sobre as possibilidades da próxima refeição. Existe o abrigo, cheio de regras e horários, mas descobrimos que muitos restaurantes e bares jogam pão fora no final do dia e dele nos servimos. Raramente recorro às minhas economias para um refrigerante. Um sujeito da praça gosta esbanjar e compra água mineral com gás. Pede dinheiro para dar-se a esse luxo e ainda posa de bacana num ambiente em que não existem bacanas de nenhuma espécie. Um dia vi o cara bebendo um café espresso.

Vivo assombrado comigo, mas procuro manter a linha. Banho todos os dias, roupa lavada uma vez por semana e um jogo mental diário para não ficar louco. Muita gente embarca nessa viagem e perde o juízo. Ontem mesmo, vi uma mulher numa fictícia ligação telefônica com um povo distante - Os Proparoxítonas. Na calma dá para montar a história dessas pessoas porque aqui normal e anormal se misturam, estão em único lugar ao mesmo tempo, caso se considere o tempo nessas bandas. Basta dar como possibilidade que o absurdo faz parte, qualquer coisa é possível, conforme preveem nossos avanços no ramo da Incerteza. Como se vê, minha aparente lucidez, quase forçada, não impede um mergulho nas cabeças mais distintas e suas oscilações entre loucura e indiferença. Às vezes confundo os lados.

Vivemos num horizonte de eventos, esperando a salvação, mas não acontece nada demais na rua. Ocorre mais na mente das pessoas, voltadas para o passado, enquanto o futuro se expande, fica cada vez mais rápido e distante. Conheço vários com experiência, mas de que adianta? A cada dia coisas novas são criadas, engolindo as antigas, deixando para trás quem conheceu o início de determinada tecnologia, mas que não terá tempo hábil de vida para criar novas possibilidades, pensar em longo prazo. Então os mais novos vão tomando conta, como sempre ocorreu. A tribo não precisa de anciãos.

A vida é assim, eu penso. Quem não juntou dinheiro corre o risco de parar na Patriarca porque à falta de emprego se junta a vontade de não trabalhar, embora eu conheça muitos capazes de ganhar um dinheirinho honesto e informal com seu minúsculo comércio de balas e chocolates ou cigarros por unidade. Eu queria voltar à minha profissão, mas fiquei desatualizado e aqui não é um lugar de troca de ideias na área da Física de Partículas, por exemplo. Quando eu falo que um elétron pode mudar de órbita sem passar pelo espaço intermediário, eles me olham com certo descaso, como se perguntassem “e daí?”.

Portanto, não dá para manter o orgulho se me dão pouco valor. Mas alimento o egocentrismo como substituto de segunda linha, negócio de outra categoria, mas em condições de manter o mínimo de satisfação comigo mesmo. Sou egocêntrico, não egoísta. É diferente. Posso dar minha roupa ao próximo se ele mostrar algum sinal de admiração por mim. Não quero poder; quero glória. Até mesmo neste buraco, procuro compensações.

Queria ser reconhecido pelo menos como o Aliócha de Dostoiévski, levando a vida sem qualquer esforço e qualquer humilhação, como bem descreve o autor, e quem me desse guarida achasse isto um prazer e não um fardo. Pena não funcionar assim, nem mesmo tendo um quarto de pensão eu poderia exercitar um personagem mais digno e com alguma justa vaidade. No meu caso, o pior da pobreza é a comparação com dias melhores. Nem sei se eram tão melhores; eram mais confortáveis.

Tudo começa com um pequeno desastre, quase uma singularidade. Sem querer derramei cerveja em seu vestido novo e a má vontade de Margô cuidou de transformar o incidente numa tragédia. Estava cheia de mim, deu-se para ver, todos viram, o jeito dela olhando para mim - uma geleira com raiva. Nos dias seguintes, a má notícia da minha demissão. Ela ouviu calada e depois, sem um pio de consolo, perguntou se eu tinha alguma coisa em vista. Vou mandar o currículo, eu disse. Você sabe que só isso não adiante, respondeu Margô. Você também precisa parar de beber, acrescentou ela, ainda mais séria.

Antes a vida tinha os ingredientes necessários. Um apartamento comprado à prestação, carro e vaga na garagem. Eu ensinava Física numa escola particular e Margô era funcionária pública concursada; ainda é, eu acho. Ela tinha o dinheiro dela, eu tinha o meu, e assim a contabilidade dava certo, mesmo com meus gastos com álcool e às vezes com outras substâncias. Perdi o emprego e perdi a liberdade. No começo Margô deixava umas notas em cima de mesa, mas com o tempo elas sumiram. Não cobrei. Continuei a procurar emprego, num momento difícil do País, e não encontrei sequer uma promessa. Aí um dia Margô disse chega, me deu cinco mil reais e me mandou embora. Ela tinha suas razões.

Pode ter sido tarde. Mesmo assim parei de beber. Fui para uma pensão do centro, mas logo o dinheiro acabou e caí na Praça do Patriarca, dormindo sob uma marquise, minha estreia. É como pular de um universo para outro, onde as leis da física são diferentes, bizarras, nada combinam com nada. Em minha cama improvisada, feita de papelão e plástico de bolhas, passo o braço para encostar em a Margô, meio sonado, e só há um buraco na calçada; minha mão tateando na realidade. Outras vezes sonho estar acordando em minha casa, pronto para calçar meus chinelos, e acordo com o clarão da cidade. Mal comparando é como a Terra sem a proteção da atmosfera.

Chego a pensar que só o espaço do pensamento vale a pena. Dentro da minha cabeça existe outro mundo como existe outro mundo no mundo das partículas. Domino seu interior, viajo pelo espaço, frequento bons restaurantes. Há uma projeção de mim que se dá bem, um físico notável, prêmio Nobel, e caso haja outra dimensão, do jeito que imaginam agora, posso dizer que dei a este lugar paralelo a minha consciência e as minhas sensações. Bastar estar só para ser aquele que não sou aqui e agora.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

A bordo


Na cabine, trabalho e atenção; lá ficam os controles, controladores e técnicos. Três turnos de oito horas no comando da nave, como manda a lei trabalhista; pleno emprego a bordo, sem contar a vida social ativa e incentivada. Fora do expediente, cada um faz o que quer, observando apenas o bom senso e a segurança da viagem. No final turno, muitos deixam seus postos e vão direto para a destilaria, que trabalha com matéria-prima colhida na nuvem Sagittarius B2 – aquela com cheiro de rum e sabor de framboesa. Ali servem um dos melhores mojitos do universo conhecido.  

Basta atravessar alguns metros de corredores, em esteiras rolantes, e tudo parecerá festa permanente: casais de mãos dadas, brigas e bebedeiras, casas de shows iluminadas, bares temáticos e cassinos em que nada se perde e nada se ganha. Estão cheios de gente e de apostas imaginárias.  Nesse cenário, passageiros e funcionários enchem as ruas, falam alto e riem por qualquer coisinha.  

A tentativa é reconstruir uma pequena cidade terrena, com suas atrações e desejos, a não sei quantos milhões de anos luz, em que o tempo deixou um tanto de importar e as pessoas cumprem seus papéis num eterno agora ou quase isso.  Mas basta olhar pelas raras janelas para a ver a leve mudança da paisagem, ou pelo menos um pequeno cometa cruzando a estibordo, de vez em quando Acontece quando a nave reduz sua velocidade, em oásis no meio do nada, e então é possível ter ideia do lado de fora. A regra é a nave deslizar no espaço a quase 299 792 458 metros por segundo.

Os personagens passam por todos os processos de uma viagem demorada. Dormem em casulos e acordam noventa anos depois – como nos filmes -, enjoam em nebulosas turbulentas, mas a missão tem o objetivo principal de promover a diversão e eliminar o tédio nesse passeio praticamente sem fim. Muito tempo fora de casa. Quando voltarem – se voltarem – encontrarão seus trinetos em clínicas geriátricas. Enquanto o tempo a bordo de arrasta devagar, conforme prevê a física, a base terrestre envelhece e muda, ou talvez deixe de existir entre a partida e eventual chegada. Pensar nisso entristece tripulantes e passageiros e só a balada permanente garante a paz de espírito.

Caso o som fosse ouvido no vácuo – e tivesse alguém para ouvi-lo – o bate-estaca das boates, os churrascos e pagodes competiriam com os motores de antimatéria da animada espaçonave turística. Eis a narrativa do cosmo: balas aceleradas de silício lá fora, e cá, entre as paredes titânicas, um ambiente urbano, com direito ao ócio – redes e cadeiras de cruzeiro marítimo - e esplendidamente posto a serviço lazer, com pornografia para todos, traficantes de drogas recém-descobertas, sons imitando buzinas de cidades deixadas no chamado grupo local - endereço da remota Via Láctea. Tudo perfeito para a dissipação, enquanto não vem novo sono entre colunas reforçadas e vidros a prova de saídas precoces. Uma nau estelar urbana, em que jovens centenários circulam com garrafas de Bourbon, roupinhas curtas e provocantes, e a necessária alegria estampada na cara porque não haveria outro jeito de resistir à aparente eternidade da situação.


sábado, 29 de abril de 2017

Uma visão do inferno


Satanás teve um sono bom. Na manhã agradável e panorâmica, respira a poeira incandescente de estrelas, enquanto lê a "Humani Generis”, enquanto come pãezinhos do Biscottificio Innocenti, enquanto recebe informações sobre a chegada de pecadores. Satanás faz várias coisas ao mesmo tempo e assim cumpre seu papel católico, hospedando os indesejáveis de Deus, em convênio com o Paraíso. O inferno está em alta temporada, negócios a todo vapor, ocupação em torno de noventa por cento.

Nesse dia em que acordou disposto e expedito, Satanás tinha o sentimento do dever cumprido e olhou a imensidão de suas posses como um fazendeiro, um senhor das terras sem limites no espaço e no tempo. Esteve mais tarde com sua mulher, deusa grega decaída, mas de beleza clássica mantida. Ela foi vítima do monoteísmo, vítima de Constantino, vítima da história e da literatura. A exemplo do marido, não envelhece e acumula conhecimento. Os dois se dão bem há séculos e não se cansam de produzir orgasmos e filhos.

Vida tranquila e segura num lugar mal compreendido pelos mortais antes de morte. Um empreendimento e tanto.

No prédio principal, o ambiente tem iluminação a ignis fatuus, produzida pelos próprios viajantes da última viagem, mas sem aquele cheiro de compostos orgânicos voláteis.     Sem muita burocracia, seguem-se: Imigração das almas, Check-in no balcão, Portal de Hades. Só um pouco lembra os livros sagrados, pois Satanás também recorre à Philosophiae Naturalis Principia Mathematica e até obras mais recentes para compor sua estética. O lugar – indisponível em mapas, inclusive os astrais - é decorado à imagem e semelhança de seu dono, com um largo vão modernista cobrindo parte do jardim até o períbolo, onde se destacam figuras votivas e quadros assinados por artistas de eras variadas.

Nada corresponde aos pesadelos associados ao inferno. Ninguém está pendurado pela língua sobre piscinas borbulhantes de sangue. Nenhum rastro do Apocalipse de Pedro. Almas não são torturadas, conforme espalhou Santa Faustina. Não existe sinal daquela desgraceira descrita por Virgílio, que ali exerce sua antiga função de guia turístico. Os nove círculos de sofrimento são uma metáfora, esclarece. A Psicopedagogia é outra. Virgílio chegou como hóspede e foi ficando. “A gente resolve tudo na conversa”, diz um dos preceptores.  

No inferno fala-se o Latim, por conveniência histórica e poética, e os folhetos na portaria informam que o dialeto toscano também é admitido, em alguns casos. De qualquer modo, funciona bem o serviço de tradução simultânea, destinado a línguas vivas e a línguas mortas com seus falantes.

Muita gente trabalha para Satanás e, portanto, resta-lhe tempo para apreciar o universo, desde o início até hoje, por meio de sua apurada veia mais científica do que religiosa. O inferno é uma estação de repouso, lugar de leitura e reflexão; um sanatório de Berghof com alguns graus a mais, com o define um escritor vindo da Alemanha. 
  
Satanás é um livre pensador, embora agarrado àquele contrato com Deus, que o sustém. Negócio de longo prazo e cláusulas bem aceitas pelas partes. Só não sabe por que sua empresa foi escolhida para tamanha tarefa, mesmo sendo ele casado com uma deusa de outra origem. Por obra do pai, do filho e do espírito santo aceitaram-no nesse equilíbrio de forças que mantém a fé em estado febril e as órbitas em suas respectivas elipses. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nove mentiras


  1. 1)   Já não tomamos sustos a cada dia. Virou um susto único, compacto, desde que desabamos neste poço sem fundo. Há ocorrências cotidianas, todas espetaculares, mas incapazes de destacar-se do susto inicial. A partir da queda, houve um estiramento da primeira impressão - o dantesco "caos impiedosamente ordenado”. A volta ao passado numa viagem que deixou de ser viagem. Virou um estado.

    2)    Não se iluda; nada é real. Hoje, cidades projetadas são assim – uma miragem. Projeta-se de um ponto bidimensional e aqui está ela, em três dimensões, ou quatro, incluindo o tempo. Não podemos pegar na cidade, sentir seu cheiro e ouvir seus gritos. Não podemos tocar em seus muros porque a mão atravessa a falsa matéria como se atravessasse o vácuo. Não é palpável, mas funciona.

    3)    Dois homens na plataforma abandonada acenam para um trem que não vem mais. Fazem isso porque são os dois doidos da cidade, sempre juntos. Ficam ou ficavam o dia inteiro na antiga estação sem trilhos à espera de ninguém. O município convivia naturalmente com o fato. Os dois doidos tentam consertar a paisagem e encenam a chegada de amigos e parentes, carregam malas imaginárias e, enfim, à noite, tomam o último vagão para casa.

    4)    Nunca me acostumei com espelhos. Olho, parece outra pessoa, nunca eu mesmo diante do espelho, mas alguém se passando por mim do outro lado, imitando meus gestos, cheio de sincronia e truques. O pior é a sensação de que alguém já escreveu isso.

    5)    Não havia plano B e o A era fraquinho. A ideia era comprar guarda-chuvas e vendê-los na Avenida Paulista em dias de temporão, na saída do metrô. Comprei. Investi o que restava na mercadoria e desde então não choveu. Todo dia eu olhava a previsão do tempo. Nada. 0 mm. Em casa, o estoque de comida estava no fim e numa tarde, antes de cortarem a luz, vi na TV que o Estado enfrentaria uma seca, talvez a maior de todos os tempos, consequência do El Niño, ventos alísios soprando no sentido oeste, através do Oceano Pacífico tropical, com imensa repercussão em minha vida. Tudo ocorre por acaso, mas o acaso beneficia mais uns do que outros, aleatoriamente, sem sentindo, e é isso que chamam de azar - as repetições desastrosas em uma lista de repetições infinitas, como se a roleta só parasse no 1, eternamente, porque também é uma possibilidade.

    6)    Vamos promover uma rifa. Promover é a palavra certa. Uma rifa profissional, adequada às nossas condições, enfim uma rifa insubstancial, de algo em que não se pode pegar. Não é geladeira, TV, essas coisas. A rifa é de uma viagem. Alguém que comprou o bilhete pode querer ver o objeto, ao vivo. O mesmo não se pode dizer de quem comprou a possibilidade de uma viagem, uma vez que só o viajante – no caso o vencedor do sorteio – pode mostrar alguma coisa nesse sentido: uma foto, umas histórias, pelo menos, mas só depois. Tudo juridicamente assentado, eu acho. Se o comprador quiser ver a passagem diremos, meu amigo, se não confia em nossa iniciativa, tudo bem. Não precisa comprar o bilhete. Disséssemos isso em relação a uma geladeira, e não houvesse geladeira, estaríamos encrencados.

    7)    Quando a olho, ela se desfaz. Está ou esteve em algum canto da sala e no quarto, quando a luz é apagada. É possível que exista em qualquer espaço – até mesmo em dois lugares ao mesmo tempo -, mas some quase no momento em que aparece. Por isso tem que ser vista em partes. Primeiro, seus olhos, que fornecem à memória o primeiro sinal de desejo. Depois, outras frações do corpo, até formá-la inteira, como quem produz uma teoria.

    8)    Enquanto recebia o soro nas veias fracas, a mãe segurou seu pulso, até quando ele começou a melhorar, a sentir as pernas, olhando em volta e já guardando na memória aquele gesto materno, a eterna proteção, e dali em diante seria este seu melhor pensamento da primeira infância. Os fatos advindos são extensões daquele momento.

    9)    Voltei, depois de muitos anos, para continuar o jogo.  Estou destreinado para a agressiva sinceridade de Amélia, que hoje banca meu final de vida, deixa trocados em cima da mesa, compra os remédios, passa o cartão de crédito no supermercado. Há um preço alto. Diante de todos, ela revela minha situação de pobre coitado, não tem onde cair morto, diz, com risinho de vingança. Os outros ficam sérios por fora, mas riem por dentro. Não sei por que a vingança, se não fiz nada. Talvez seja apenas a necessidade de Amélia em ter alguém por perto para suster e esmagar, morder e assoprar – e mesmo longe, estive por perto, levando sermões pelo telefone. Sempre saía reduzido a nada, como ocorre agora, todos os dias, desde a minha volta.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Em movimento 6 (fim)


Sem lei, a nossa sociedade funciona precariamente, mas funciona. Não há crimes como antes porque a sobrevivência tornou-se um ato solitário e às vezes de famílias; não dependemos de patrões ou empregados. Mas chegou-se ao ponto em que era preciso criar normas de convivência, talvez escritas, numa terra sem governo conhecido pelos cidadãos – se é que podemos nos chamar assim.

Em qualquer sociedade - mesmo a nossa, em colapso -, sempre surge alguém querendo organizar, criar direitos e deveres, especialmente aqueles que viveram o período anterior, quando a cidade tinha prefeito e câmara de vereadores. Faz tempo. Agora é cada um por si, entre os escombros, procurando comida, embora não haja animosidades, pelo contrário. Não existem mais estatísticas, mas não temos conhecimento de assassinatos e são poucos os roubos. Não há muito que roubar.

A lei, no entanto, está chegando a partir de um corolário muito parecido com uma versão laica dos dez mandamentos. Ficaram “Não roubarás” e “não matarás”, mas questões relacionadas com a mulher – ou homem – do próximo (a), que não importam tanto nessas ruínas, foram deixadas de lado. Resolvam-se. Também não amaremos a Deus sobre todas as coisas por termos outras prioridades. O pequeno conjunto de regras teve, por fim, toques do código penal do século passado, quando este imenso terreno baldio era um tribunal.

A carta, como tentam chamar, tem poucas palavras. Não adianta enchê-la de artigos, pois a criminalidade está ligada à posse de coisas que se podem vender e comprar. No nosso caso, além da Praça de Trocas, o escambo, não temos nada perto daquilo que a história registra como “mercado financeiro”. Existem moedas, por ai, desprezadas. Perderam a referência em relação a outras moedas e são usadas para jogar damas.

Por enquanto é só isso – uma lei de coerção moral. Não temos nem queremos o poder de polícia. Ninguém pensa em reconstruir a cidade. Não temos meios nem teremos.  Acho que também falta vontade. O passado nos deu ruins e bons exemplos, mas resolvemos não seguir nenhum deles.  De concreto, herdamos apenas o entulho e objetos sem as funções para a quais foram fabricados. Uso um fogão de quatro bocas como armário. Não sabemos ao certo em que ano passou o último caminhão de gás. 

Levamos a vida assim mesmo, sem quase nada.

Perdemos a civilização moderna, com seus expedientes e equipamentos e caíamos num cenário mais sombrio das coisas desgastadas pelo tempo. Não repomos peças, que já não temos, e não há qualquer organismo encarregado da manutenção das ruas e dos condomínios. Não restaram instituições: escolas e repartições, por exemplo, são só referências em livros que achamos no lixo. Em compensação, nos livramos do compromisso da produtividade e da ascensão social.


Para nossos sábios, que não souberam evitar o desastre nem revertê-lo, aconteceu o inevitável, conforme as leis da natureza. Saímos do estado ordenado para o estado desordenado. É assim que funciona, dizem eles.