segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Memória do asfalto


A memória é fraca. Algumas começam a fraquejar no meio da velhice e morrem antes de seus donos; outras sobrevivem aos pedaços: situações vistas a vividas, nomes de personagens e datas se transformam em ondas perdidas no espaço. Por isso, algumas pessoas escrevem livros de reminiscências ou mantém uma agenda. Minha avó anotava tudo em papeizinhos e os colocava numa caixa de sapatos que ela se esquecia de consultar. A memória remota, no entanto, às vezes se preserva por mais tempo, talvez porque é a primeira impressão de um cérebro jovem e ainda cheio de espaço para armazenar lembranças. Ontem é um transtorno, mas o século passado surge brilhante e nítido, como o sangue escorrendo na principal rua da cidade, onde havia um matadouro de gado, enquanto onde Seu Augusto, meu vizinho, seguia para o grupo escolar.

Caixeiros viajantes, cassacos, ciganos e homens armados fumando cigarros Astória pareciam bem instalados na memória de seu Augusto, mas ele não tem registro do almoço do dia. “O que comi?” - pergunta de si para si e depois deixa de lado para ver-se com seus pensamentos da infância e juventude.

Quase sempre seu Augusto, o velho, é o jovem que observa os cassacos e seu trabalho escravo na construção da rodovia, trazendo o progresso e mais distração, conforme disse o prefeito – um senhor baixinho e simpático – e conforme disse o padre - alto, forte e alemão. Veio parar ali não se sabe como, mas a igreja tem recursos e condições de levar a palavra de Deus até mesmo aos cassacos, naquele fim de mundo onde a memória de Seu Augusto observa a estrada de rodagem ganhando asfalto e uma lagartixa percorrendo a traseira de um trator quebrado. “A lagartixa tinha um olhar condescendente e solidário”, observa seu Augusto em suas anotações para um livro de memórias.

A princípio Seu Augusto não falaria tanto de sua vida. Estava mais interessados na vida dos cassacos – trabalhadores eventuais e nômades da antiga Inspetoria de Obras Contra as Secas - e outros tipos da sua região do tempo, numa volta ao romance dos anos 30, como ele mesmo me contou. Já existe até um livro sobre com esse título, “Casacos”, de José Cordeiro de Andrade. Mas tudo bem, disse seu Augusto, eu só faço isso para não perder a memória.

Seu Augusto está bem situado em meados do século passado, quase outra era, quando parecia que o mundo estava sendo criado naquele momento e, tomando sua vida como referência, estava mesmo.  Vale a pena ver a animação de seu Augusto quando fala sobre Getúlio Vargas e programas de rádio, além de suas coisas cotidianas, sua visão do mundo a partir dos livros de Graciliano Ramos e das conversas na praça.  Com os dias de hoje, só dificuldade. Mesmo antes da doença, ele já não entendia a pressa dos acontecimentos. Também achava que ele próprio estava devagar ou, mais precisamente, havia uma conspiração do tempo – o de fora e o de dentro - contra seu final de existência.

Um de seus colegas da época de repartição, Gilvan Vieira Guedes, também escritor bissexto, deixou anotações sobre a vida difícil desses trabalhadores em uma pasta a que tive acesso porque ele é meu pai. O mesmo tom. Uma sociedade nascendo no Brasil pós-revolução de 30, embora Gilvan tenha desancado Getúlio, que não admirava por causa do governo autoritário. Mas o mundo nascia ali, perto do Rio Ipanema, numa cidade sertaneja calorenta de dia e fria à noite e onde algumas pessoas passavam fome e outras liam Émile Zola.

Os cassacos viviam em condições difíceis e carregavam suas redes para onde fossem. Não tinham qualquer documentação. Os contratados das obras contra as Secas, do Ministério de Viação e Obas Públicas, tinham salários, carteira assinada e também problemas.  Gilvan e seu Augusto liam Zola e se preocupavam com os cassacos. Só isso lhes dava a classificação de comunistas.

Anos mais tarde, em 1964, já casados, ambos tiveram que fugir para evitar a prisão. Entocaram-se numa fazenda de um expedicionário da FEB e ali por perto também encontraram cassacos. Um deles estava encolhido num canto, tremendo no calor, maleita, ele disse, mas parecia coisa mais grave. O homem foi melhorando aos poucos, depois de um uísque Cavalo branco, depois mais outra; só duas, porque era caro.

Seu Augusto achou o homem muito doente, talvez fosse Schistosoma, pensou naquela hora, pois a barriga estava inchada, e talvez fosse doença de Chagas, Trypanosoma cruzi, o bichinho do barbeiro, tão comum nas taipas onde os cassacos estendiam suas as redes. Um buraco no coração, sangue venoso e arterial se misturam numa pororoca venenosa, seguida de morte horrível, como se diz atualmente.

- Melhor chamar o doutor Fernando, que sabe do nosso esconderijo. Fernando é comunista mesmo, pelo menos votou no marechal Lott; soube que esteve na palestra de Octávio Brandão. Falar nisso você precisa ler “Canais e Lagoas”, o livro de Octávio. Quer dizer: ele não é só comunista; é escritor também.
 
- Não dá – disse Gilvan -. A gente só pode sair daqui quando tiver informações de João Farias, que conhece gente no exército. Isso tem cara que vai demorar até 65 ou mais.

Seu Augusto e Gilvan ficaram bebendo, em copinhos de ágata – primeiro uísque, depois cachaça -, e conversando com o cassaco, que preferiu a cuia. Tinha uma conversa aprumada e disse que já esteve em situação melhor, muito antes, na mesma repartição, quando chegou ao cargo de auxiliar de contabilidade, mas fora demitido a bem do serviço público por Augusto Pereira Lima, o próprio seu Augusto, na época em que ele foi diretor de pessoal, em Palmeira dos Índios.  Nenhum sabia do outro. Pouco se viram, na verdade, mas o caso trazia indícios contra o cassaco, ali no canto, se ajeitando. Sem provas, repetiu o homem, tornando a falar.

-Assinei o papel com um revólver engatilhado em minha cabeça – contou o cassaco. – Não fiquei com nada, nenhum tostão, caí na miséria depois daquela comissão de inquérito.

- Era o que me faltava: o Dreyfus do sertão!  - lamentou-se seu Augusto. Mas ele estava mesmo preocupado em ter levado um homem àquela situação, como presidente do inquérito administrativo, e encheu-se de culpa. Foi uma coisa bem marcante. A partir daí, seu Augusto começou a envelhecer e o que veio depois só não se perdeu por causa das anotações de Gilvan, datilografadas em duas vias, hoje quase sépia e parte comida pelas traças.

Gilvan morreu em 2015. Deixou escrito que ele e seu Augusto terminaram chamando Dr. Fernando, que levou o cassaco para o posto de puericultura. O problema era subnutrição. Ninguém foi preso, mas os dois tiveram que sair de Alagoas porque o departamento estava cheio de delatores do novo regime.  

Seu Augusto, quase 100 anos, mantém a memória como uma seta do tempo ao contrário, dos anos de 1960 aos anteriores, e dai revê a cara abismada do cassaco inocente, o sangue escorrendo na rua do comércio e o asfalto quente levantando fumaça. Lá no fundo das lembranças, as normalistas de Santana do Ipanema cantam boleros de Consuelo Velazquez.


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Atolados no escuro


As luzes foram se apagando aos poucos, como o Big Rip, que é a teoria sobre a expansão do universo até o ponto em que todas as galáxias estarão isoladas umas das outras. Um astrônomo amador estava entre os perdidos nas trevas e disse isso apenas em termos comparativos porque havia a sensação de que, mesmo no escuro, as coisas iam se afastando – o próprio chão parecia se esticar como borracha e dai em diante as pessoas se apressaram em tatear entre os escombros da cidade, procurando alguma coisa para comer ou onde se abrigar, ou pelo menos encostar a cabeça em algo seguro. Mas paredes e muros duravam pouco em seu lugar e o próprio grupo, de mãos dadas, fazia um enorme esforço para manter-se unido.

O certo é que se passaram noites sem dias e a energia não voltava nem havia jeito de saber quando voltaria. Findaram as chamas das velas e isqueiros e o facho das lanternas.  Não se viam as estrelas, cobertas de nuvens, e começou a chover sem parar – chuva horizontal, estranha, vinda do Norte -, enlameando a caravana que seguia meio sem destino pela avenida principal interminável, pois prédios antes vizinhos agora estavam distanciados por quarteirões. Homens e mulheres de negócios, gente que teve bons empregos, inclusive na Bolsa de Valores, estavam agora na mistura de lama com escuro, uma substância pastosa e dispersa que não conseguia untar o que restava da cidade.

Seguiram no tato, ensopados, cuidando para não serem separados pelo tecido do chão em movimento, e a chuva lateral continuava, atrapalhando a busca. Seria preciso encontrar um teto, uma singularidade naquele estiramento, pois a enxurrada argilosa, com todos os cheiros da cidade parecia mais acelerada e a água já estava dos pés à cintura. Um homem foi jogado contra um carro, que também já se deslocava no lamaçal ralo, e mesmo com a dor da batida gritou que aconteceu uma coisa séria, e quando perguntaram se era uma enchente, ele respondeu que era muito pior.

- Tudo está se derretendo - disse ele - e o grupo ficou sem saber se era uma metáfora ou se era isso mesmo. Logo os sinais ficaram mais à vista, como o prédio adiante, que adquiriu a mesma consistência da lama e depois se misturou a ela, tornando líquidos apartamentos e salas comerciais.

- Siqueira, fudeu tudo! – gritou o último homem da corrente de mãos. Tentava segurar-se num poste com o braço solto, que também se distendia e se afastava e lá na frente se diluía. Ninguém conhecia Siqueira nem importava naquele momento.

Sob uma marquise, finalmente, encontram uma porta ainda sólida. Estava fechada à chave, com água barrenta até o meio, mas apresentou-se um mecânico com um pedaço de ferro e fez uma alavanca para tirar a porta da frente. Lá dentro não havia água nem lama, embora estivesse também escuro. Umas duas horas de procura, como cegos, e de repente uma luz clara, iluminando uma sala branca e impecável, sem decoração, apenas branca. No centro, um homem em pé, também de branco, perguntou como estava lá fora. Há dias estava trancado ali. Não ficou chateado com a presença dos estranhos. Pelo contrário, parecia alegre por ver gente.

- Acho a situação anti-intuitiva – disse o astrônomo amador.

- Tudo caminha para a desordem – respondeu o homem de branco.

- Eu sei, eu sei que é assim – retrucou o astrônomo amador – Só quero saber por que é especificamente assim, como agora?

- Porque pode ser de qualquer jeito -, respondeu de novo o homem de branco. O homem não sabia ao certo como estava o lado de fora, mas sabia o que era. Tranquilo em seu bunker, informou sobre o aparente colapso. Pelo visto vinha preparando aquele lugar há muito tempo. Não era santo nem profeta; era só um cara prevenido e bem informado. Além de encerrar as questões entrópicas do astrônomo, ele deu muitas referências sobre o estado da matéria e ainda cálculos precisos sobre a composição daquilo que envolvia a cidade e que, ao final, envolveria tudo.

Costas apoiadas nas paredes deixaram a sala suja de lama, mas o homem de branco não se incomodou. Disse apenas que não tinha como hospedar tanta gente porque o estoque de alimentos não daria para todos.

- Vamos ficar porque somos maioria – disse um advogado, exaltado, como num tribunal.

O homem de branco ouviu a proposta sem tomá-la como ofensa ou ameaça e apenas acrescentou que também ele teria que deixar o lugar em alguns dias.


- Talvez não seja o fim – disse ele. – Talvez continuemos a viver, dissolvidos, misturados à matéria viscosa. Talvez seja só uma mudança de estado.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Pós-vida


Morreu e surgiu na vida eterna, ou em algo parecido, mas ali também não obteve respostas sobre a existência e o fim da existência. O lugar era espaço aparentemente vazio, embora outros mortos venham especulando que o vácuo está cheio de flutuações de gluóns, como ocorre no mundo das partículas. Mas a questão continua: onde estamos? Nenhuma entidade, religiosa ou não, apareceu para dar explicações, embora muitos já estejam nesse ambiente há milhares de anos.

Não há ordem nem leis para a população de 106 716 367 669 habitantes – presumível número de pessoas que já passaram pela vida terrena; e continua chegando gente. Reina a incerteza, não só a de Heisenberg, mas todas as outras – possíveis e impossíveis, incluindo a sensação de ausência do corpo, que contribui para outra dúvida nesse universo de dúvidas: eu sou eu? – perguntam com frequência. Indivíduos do passado e do presente misturados e perplexos numa área sem fronteira visível, em que se reúnem, por exemplo, fanáticos da idade Média, multidões de nômades e, mais recentemente, físicos teóricos. Convivência difícil. A coisa pode ser parecida com um ovo pelo avesso. A clara e a gema estão do lado de fora, onde todos viveram, e o interior oco, porém infinito, onde se acham agora. Mas é só uma suposição.

Adeptos de religiões acham que comprovaram sua tese da sobrevivência da alma, mas mesmo estes reclamam das condições e da falta de semelhança com o paraíso dos livros sagrados. Já os céticos em minoria consideram que o fenômeno faz parte do processo da natureza – talvez a dualidade onde-partícula - e lembram que Deus ainda não deu sinal de vida.

O escritor George Bernard Shaw, destacado incréu desse além, não contava com essa sobrevida (ou sobremorte), mas continua o mesmo. Maldiz a ciência, que nunca resolve um problema sem criar pelo menos outros dez, e maldiz a religião: “Cuidado com o homem cujo Deus está no céu”. Agostinho também esperava outra coisa, porque é santo, mas ele está no meio da multidão etérea ainda pregando a palavra do Todo Poderoso: “na procura de Deus é Ele quem se adianta e vem ao nosso encontro”, repete. “Tá demorando muito”, responde um apateísmo ansioso.

Não há frio nem calor nem comida nem cansaço nem repouso nem fome nem vontade de comer nem pontos de referência - alguns dizem que sequer há o tempo. Niels Bohr calcula que apenas passamos de uma orbita a outra sem percorrer o espaço intermediário. A pequena Guerra santicientífica, no entanto, é apenas retórica. Ninguém consegue tocar em ninguém. Nem conversar com vizinhos na calçada.


É um bom lugar para criar teorias, mas incômodo para morar.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Marilda


Depois de um longo tempo na empresa, saí à procura de novos desafios que não apareceram. Passaram-se seis meses e nada. O desemprego produz a sensação de que tiraram a escada e estou me segurando com esforço no parapeito do prédio. A cada decepção – “desculpe, não temos vagas” – parece que alguém pisa em minhas mãos e às vezes penso em soltá-las. Passo o dia pensando nessas coisas porque em casa a situação também não é boa. O casamento está no fim. O que passou, passou, eu disse, e prometi ir embora. Só não sei como sair por aí sem dinheiro.

Marilda ainda trabalha. Eu perdi o emprego numa agência de publicidade porque agora os produtos se anunciam sozinhos, por meio de algoritmos, e sem necessidade daquelas sacadas e frases de efeito que não causam mais efeito no consumidor. Inicialmente, ficamos acertados que ela manteria a casa naquele período difícil e depois veríamos como compensar, em termos de grana, pois o casamento é uma coisa, o dinheiro é outra.

Cada dia mais acuado em casa, um intruso, tentando não aparecer muito na cozinha e só como quando sou chamado. Li no jornal a entrevista de uma psicóloga em que ela garante que a felicidade é possível a um desempregado com boletos a pagar. Não é verdade, pelo menos no meu caso, pois Marilda deu um ultimato e disse que eu tinha três meses para arranjar qualquer trabalho – nem que fosse intermitente. Argumentei que o mundo tinha mudado, os empregos sumiram para quase todos e que só sei fazer uma coisa; talvez nem saiba mais, Marilda. Hoje uma margarina se anuncia por conta própria, levando em conta bilhões de possibilidades e eu sou do tempo do slogan e do jingle.

Eu precisava de uma ideia, um aplicativo que gerasse renda, um modelo de negócio inédito, mas termina me distraindo jogando paciência no computador. Eu entendia a preocupação de Marilda, pois o salário dela tinha sido cortado pela metade, por uma nova medida do governo, e minha presença em casa estava estourando o orçamento. Outro problema era o fim do amor. Não apenas o nosso. O próprio sentido do amor tem se esvaziado em todo o planeta. As pessoas se casam para dividir os custos domésticos e, secundariamente, por sexo, que não resiste às oscilações do mercado e ao dia a dia. O importante é o equilíbrio das contas.

Meu mundo keinesiano desabou nessa temporada de ócio. O Estado não pode fazer nada por mim. Nem a iniciativa privada. Marilda já fez o que pôde.

Turismo

Finalmente, encontrei uma saída. O Turismo por Acaso era o meu produto. Vendia viagens que transcorriam ao sabor dos acontecimentos, sem hora para voltar, com todos os dias livres. Cada um marcava seu hotel, de acordo com o gosto e a situação, e o passageiro também poderia pegar a passagem quando quisesse ou desistir no último momento. Eu mesmo sou o guia de todas as excursões. Sento-me num bar, peço uma bebida e espero que algum cliente venha com dúvidas sobre a Catedral de São Vito ou os canais de Bolonha. Se não vier, melhor.

Realeza

Deslocava-se com facilidade nos bastidores da corte. Vez por outro se inclinava para Sua Majestade até os limites dos ossos. O rei torcia secretamente para ele inclinar-se ainda mais. Só no último instante fazia o gesto real que significa “por hoje, basta”. O homem faz a sua parte e recebe a contraparte. Move-se nas salas enormes, se solta em cortesias, chama burocratas de Vossa Excelência para situar-se também nos escalões inferiores. No final do mês, recebe as moedas e vai para taberna vangloriar-se de seu espírito público.

Memória

Escreveu as memórias até a metade do livro e dali em diante foram parágrafos e parágrafos sobre a perda da memória, crítica sem piedade à falta de sentido de coisas ditas do primeiro ao sexto capítulo e historinhas “bem chinfrins”, como Graciliano disse a Antônio Cândido. Depois da doença, só lhe vieram lembranças cotidianas sem importância aparente, sem comendas ou convivência com vultos da República. Não sabia mais quem eram aqueles homens com os quais dividiu segredos de Estado, mas os fatos da infância tinham nitidez e brilho, como a lagartixa imóvel na parede de seu quarto de criança e cenas do primeiro filme que viu na vida: Gunga Din, de 1939. A primeira parte era uma peça auto laudatória e, aqui e ali, mentirosa. A segunda parte era tudo que ele não teve na política: estilo. A amnésia deu-lhe jeito para juntar as palavras de forma direta e concisa.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Desafio profissional


A mudança de hábito se deu por necessidade.  Só havia vaga de vigia noturno, eu estava sem emprego e resolvi experimentar. Não era minha área. Sou formado em Física, mas o mercado tinha outras prioridades, enquanto os mais ricos queriam proteger o patrimônio dos vândalos e ressentidos com a situação vigente. Vez por outra os bandos saqueavam mansões, levando comida e aparelhos eletrônicos, que eram vendidos no mercado negro. Eu não podia fazer muita coisa em caso de emergência, embora a presença de um homem armado pudesse desencorajar invasões e roubos, senão todos, pelo menos alguns. Os ricos que ficaram no País estavam enfrentando uma situação intranquila. A maioria dos donos do dinheiro vendeu tudo e foi embora quando o pessoal sem trabalho partiu para a distribuição da renda de uma forma meio desorganizada.

Na minha guarita, eu ficava só, na madrugada, até chegar o segurança do dia, que corria menos perigo e também ganhava menos. Era um professor de história, muito conversador, e só não tivemos mais contato porque na hora que ele entrava, eu saía. Basicamente, meu trabalho consistia em olhar os monitores, pois havia câmeras em todos os lados da casa, e se a situação exigisse, usaria os meios dissuasivos disponíveis: um fuzil AK-47, com muita munição dentro de uma caixa; uma pistola Glock, um lança-chamas e granadas de mão. Quando eles chegassem eu deveria dar um tiro de advertência e em seguida atirar de verdade contra os intrusos que não recuassem. Eu nunca havia matado uma pessoa, disse isso na entrevista de emprego, mas o homem que me atendeu respondeu que não tinha importância. “Como o tempo você vai pegando prática”. Estava certo. Aprendi a lidar com o equipamento e com os dilemas morais.

Jeitinho

A gambiarra, enfim, tomou lugar das instituições e a vida seguiu na base do improviso. Alguns se resignaram e viam o precário apenas como provisório.  O importante era que no fim dava certo, ou mais ou menos, e quando dava errado era porque é assim mesmo. Acontece. A própria vida um dia acaba.  As coisas se ajeitam, pensavam, e as coisas de fato se juntavam umas às outras, mas sempre deixando para trás os seus nós, fios desencapados, pequenas pontes de madeira podre. Tudo era remendo no meio da informalidade e da desambição. Também as pessoas começaram a desenvolver suas relações sem nenhum planejamento, confiantes em encaixes imperfeitos, homogeneizações por conta própria e promessas de que amanhã a gente dá um jeito.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Baseado em fatos que serão reais



Como não há mais empregos, Heleno resolveu inscrever-se num curso rápido e grátis sobre esmolas. Não queria sair por ai, sem conhecimento do mercado, sob o risco de voltar para casa de cuia vazia. Quando era um profissional bem-sucedido sabia o que fazer, mas agora, em um novo desafio, precisava de ferramentas adequadas e pegada vendedora para angariar algumas moedas no restrito ambiente da compaixão. Em suas primeiras lições teóricas, aprendeu que o apelo religioso é o mais eficiente, conforme já disse São Leão Magno - “A mão do pobre é o banco de Deus” - e conforme está escrito no Livro dos Provérbios: “Quem se apieda do pobre, empresta ao Senhor, que lhe restituirá o benefício”. Heleno é ateu. No entanto, notou nessa abordagem um processo de troca adequado, em que mãos invisíveis abastadas pelo capital acumulado poderiam investir uns trocados no item salvação.

Como não há mais empregos, a estudante de Letras Maria Alice resolveu vender sua alma ao diabo. Pegou-se à tragédia de Fausto em busca de algum dinheiro, mas logo descobriu que metáforas não geram renda. O comprador nunca apareceu.

Como não há mais empregos, a publicitária Patrícia Caldeira aceitou vender o próprio corpo. Começou por um rim.

Como não há mais empregos, o velho Giba foi buscar a sobrevivência no mundo do crime, que às vezes compensa, às vezes não, igual a tudo na vida. Escolheu o tráfico de drogas por conhecer bem a mercadoria como consumidor diário e jogou-se no empreendimento de uma pequena boca de fumo. Teve, no entanto, todos aqueles dilemas morais de crime e castigo, mas o momento é outro, pensou, e seguiu em frente. Tratou a consciência à base do seguinte raciocínio: sua atividade era mais uma na informalidade geral e o aspecto produto x legislação não existia mais. Não há polícia, não há sanção, não há crime. E não há perigo. A única lei vigente é a da oferta e da procura. Para ele, a desvantagem foi a perda dos amigos, mesmo aqueles que se tornaram seus clientes. “Sempre me tratam com olhar superior, como seu eu tivesse fazendo uma coisa errada”, lamenta-se o velho Giba. Boa gente, Giba, mas o preconceito ainda é grande.



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Depoimentos falsos


Quer se matar, se mate, mas já pensou se você se mata e acorda num lugar que nem tem remédio pra dormir?  Pense nisso e você vai querer se matar de novo quando chegar lá. Morre e dá de cara com outro lugar pior e assim por diante. Veja, por exemplo: você deve duzentos mil, não tem como pagar e por isso quer fugir dos credores de uma forma que considera eficiente e definitiva. Toma a cartela de remédios ou pula do prédio, sonhando com o nada, o fim da encheção de saco deste mundo, e cai em outro onde deve quatrocentos, com cobradores ainda mais ferozes e decididos. Como já se matou uma vez, fica mais fácil e imagina que a solução será morrer novamente. Morre e a dívida vai aumentando. À medida que mais se mata, mas a dívida cresce. (João Coelho, conselheiro de investimentos).

João Saraiva já estava cansado de escrever histórias que ninguém lia. A desgraça de sempre, fome e falta de rumo, além de elementos químicos gosmentos que ele enfiava no enredo para dar um toque de ficção científica.  A mistura não funcionava direito porque os desvalidos de seus contos eram os mesmos que já estavam lá foram e o leitor não queria tanta falta de esperança, chega, bastam as reportagens, cujos assuntos em pauta naqueles dias eram o fim dos sistemas de energia elétrica e comunicação. Ainda havia luz e internet, mas não iria demorar para cair tudo. João Saraiva tinha prevenido. Só que a crítica não soube; ninguém soube. Agora precisava de um veio novo, menos niilista, coisa difícil de fazer por falta de verossimilhança com a situação vigente. (João Saraiva, por ele mesmo).

A encomenda é sobre uma estação espacial prestes a cair na Terra. Só que não há mais foguetes para buscar os tripulantes por causa de uma gigantesca crise econômica global. A bordo, russos, norte-americanos e chineses discutem a respeito de quase tudo, com destaque para geopolítica, sexo e morte. Pensei em colocar um canadense para tentar convencer os demais a encontrar uma forma de voltar para casa a partir dos próprios recursos da estação. Pelo menos nessa parte, cópia deslavada de ”O Voo da Fênix” (1965), de Robert Aldrich, cujo elenco conta com James Stewart e, claro, Ernest Borgnine, ator de dez entre dez filmes desse tipo naquela época. A diferença é que o espaço substitui o Saara e a M17 – ou qualquer coisa por aí - substitui o velho Fairchild C-82A Packet. Primeira ideia: para não ficar igual ao filme de Aldrich, o tripulante canadense não consegue convencer os demais e eles morrem ao reentrar na atmosfera. Categoria: ação e fracasso. (Pedro, roteirista)

Eu só queria uma lata bem equipada, com dechavador, sedas de variadas procedências, um palito daqueles de manicure (para pilar, ou apilar, como se dizia antigamente); o certo é que comecei a discutir seriamente comigo mesma as diferenças entre antes e agora. As coisas que se foram - a lata, por exemplo - e a esbravejante incerteza de todos os lados dos dias de hoje; ninguém se entende nem se cala no seu canto, com sua lata, como eu fazia há muito tempo quando tive o prazer de possuir uma lata com todos os utensílios necessários. Eu estava entre as pessoas que queriam mudar o mundo, contando que me deixassem quietinha, num cantinho.  Assim passei a minha juventude, apesar de tudo, muito boa.  Hoje, sou uma velha perplexa com medo de ser mal interpretada, mas ainda mais assustada com o que estou vendo.  Tenho receio de escrever essas coisas, embora o mais provável seja que ninguém leia. Mesmo assim, fique claro que não estou falando de um caso ou outro, desta ou daquela situação em particular; é mais ou menos sobre tudo.  Bom. Acabei de fumar um e estou com tendência a tornar as coisas muito amplas. (Lúcia, funcionária pública). 

Estou de banho tomado e quase quite com o Senhor.  Sei que estou pagando, já dei tudo que tenho e ainda devo mais, pois cometi todas as barbaridades, pior que o Senhor no Evangelho Segundo Lucas, ordenando a matança, embora com razão, levando em conta que as vontades de Deus são insondáveis. Vontade, não, princípio, meio e fim de tudo, pois é Aquele que reina no cheio e no vazio. O pior que usei do Senhor a norma seguinte: como de trata de Alguém cujo propósito desconhecemos, como saber se o que estou fazendo e acontecendo vai ou não de encontro a esses propósitos? Um meio de se livrar de uma acusação questionando a essência do projeto. Não deu certo. O pastor me esclareceu tudo e houve uma solução conciliadora, aceita pelas partes: o perdão. Não é um caminho curto. Por isso estou aqui, catando caquinhos no lixo, à espera da hora do culto. (Reginaldo, morador de rua, evangélico).