quarta-feira, 11 de abril de 2018

Fuzis



O pelotão de fuzilamento está a postos para a primeira execução do novo governo. Há um clima de festa na plateia e os telespectadores também poderão acompanhar o evento transmitido em cadeia nacional. Desde 1876, há 142 anos, não víamos uma morte pública, demandada pelo Estado, quando o negro Francisco foi enforcado no município de Pilar, em Alagoas. Agora, o método é outro. Belos fuzis importados abaterão o traidor da pátria e da família, um sujeito assustado e baixinho, acusado de escrever impropérios contra o governo. O povo apoia, é o que interessa, disse o novo presidente a uma imprensa já preparada para o espetáculo. Os patrocinadores são uma empresa de cosméticos e um banco.

Durante a semana, em chamadas regulares, a TV anunciou o fuzilamento com certa sobriedade. Mas aos poucos surgiram vinhetas mais animadas, como nos anúncios sobre futebol e Formula-1, pois a audiência tem sido acima do esperado. Nos telejornais, matérias com a família e amigos do futuro morto que, apesar de tristeza, viam na medida governamental uma forma inovadora de conduzir o país dentro de padrões de respeito à autoridade e preservação dos bons costumes. Não dava para ficar do jeito que estava, observou a mãe do réu, eleitora entusiasmada do regime recém-inaugurado. Numa demonstração de patriotismo, ela não chorou.


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Procurando Carmen


Carmen desapareceu. Há uns anos venho percorrendo pistas por todos os meios, ali e aqui, e não há sinal de Carmen. Volto ao conjunto residencial e pergunto aos moradores mais antigos se se lembram de Carmen e nenhum se lembra.

Nada a respeito dela depois de trinta anos. Ninguém ouviu falar nem de longe e parecia não ser este o lugar a ser procurado porque o nome de Carmen sumiu da memória geral, assim, por encanto, e é um assombro que uma pessoa tão marcante seja esquecida desse jeito.
Carmen existe ou existiu. Alguns amigos se recordam dela, mas dizem que não a veem desde aquele tempo. Está numa foto. Cara tranquila e ansiosa ao mesmo tempo, pois só ela conseguia passar essas sensações ambíguas. Dá para perceber o início do gesto que ela faz para fugir do enquadramento, apressada, saindo do foco; não gostava de aparecer, não queria posar – achava falso. Usava óculos e gostava dos poucos amigos. Tomei por responsabilidade encontrá-la, embora sabendo que isso pode dar em decepção e desse modo estaria explicado porque ninguém notou a existência dela. Mesmo assim, sigo adiante, apenas com informações da memória. Na memória dos outros, preciso do ponto exato onde Carmen caiu no esquecimento e por que. Um problema: não sei o sobrenome de Carmen. 

Era tão crítica. Parecia uma dessas pessoas de hoje, meio sem esperança, mas achando-se interessante por achar isso. Num dia na praia, fim de tarde, coisas daquele tempo, Carmen era a primeira a notar o estereotipo da cena; tinha horror a lual e animações do gênero. Enquanto os outros se supriam daquilo como a essência da juventude, ela vinha com uma história sobre a geração perdida e grandes batalhas a travar.  Só que dizia essas coisas de um jeito muito terno, sem tirar o prazer de ninguém por estar chapado, olhando pro céu ou dando beijinhos.   

Carmen diria hoje, imagino, que procurar pessoas perdidas é um recurso meio manjado – lembraria “Detetives Selvagens”, de Roberto Bolaño -, mas em relação a Carmen talvez fosse diferente: ela também arrumaria uma maneira de dizer siga em frente, pode dar certo. Talvez sugerisse que eu fosse procurá-la de outro modo, sem a preocupação encontrá-la, como pode ser o caso de agora. Uma vez ela disse que só processo existe; o resto (incluindo poder e glória) é pura ilusão.

Meu último registro é sua forte irritação. Implicava demais com avisos e ditos populares e frases em geral e corrigia a caneta comunicados do condomínio. “Por que Deus dá o frio conforme o cobertor? Por que não dá o cobertor conforme o frio?”. Éramos grudados numa época em que parecia estranho um cara sair todo dia com a mesma menina e não acontecer nada entre eles. As distrações eram outras, o universo e suas histórias, teorias mal ajambradas sobre tudo e a recorrente marcação de Carmen em cima de um mundo do qual ela discordava de quase tudo. 

Apesar disso, quando estava certa tinha um charme benevolente. Nunca usou “eu não disse?!”. Aliava-se ao contraditor, ajudando-o a encontrar uma saída honrosa. E era muito bonita para ser esquecida de uma hora para outra. Nunca usou a beleza em proveito próprio, mas aí acabava despertando outras belezas e até certa dose de autoridade. Fomos seus amigos e seguidores. Uma rara turma com uma mulher no comando.

O que mais impressionava era a honestidade que passava ao falar sobre qualquer assunto. Podia não saber exatamente o que era, mas aos poucos ia montando o que dispunha para enfim apresentar um palpite interessante. Às vezes uma ideia. Foi a primeira pessoa que me falou sobre ondas gravitacionais e outras coisas que na época eram apenas especulação. Carmem entendia de Física de Partículas, lia Rosa Luxemburgo e gostava de futebol.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O envelope - Da série histórias com o mesmo final


A pobreza tem pernas curtas.  Quando mais pobres ficamos, maiores ficam as distâncias, menor a capacidade de chegar onde quer que seja. Empobreci. Antes ia de táxi, troquei por ônibus, hoje vou a pé. Tinha a cidade, sobrou o bairro. O universo dos ricos se expande como o universo de verdade; o dos pobres, encolhe.

Já estava entrando em desespero quando o telefone tocou: tenho um trabalho pra você, disse a voz do outro lado, uma pessoa que eu não conhecia, mas quem ligou estava a par da minha situação e provavelmente eu fora indicado por um ex-colega da agência da qual fui demitido. Pelo menos pensei assim na hora. Ele queria conversar a respeito do serviço, minha disponibilidade (total) e deixou bem claro que se tratava de algo sigiloso, segredo industrial ou coisa parecida, que é normal no mundo dos negócios. Na época, eu morava numa pensão, depois de passar por um hotel, uma quitinete e uma república de gente mais nova que não me deixava dormir. Assim que desliguei o telefone fui ao banheiro no final do corredor com uma toalha no pescoço e entrei na fila do banho. Antes de perder o emprego eu tinha uma casa de dois andares. Houve uma queda vagarosa e consistente.

Encontrei o homem no restaurante de um hotel de quatro estrelas e perguntei quem sugeriu o meu nome - ele respondeu que pegou o currículo na Internet.
- Como sabe que estou fudido?

- Pessoas fodidas distribuem currículos.

Também informou que o trabalho não era propriamente na minha área. Não sei fazer outra coisa a não ser texto publicitário, eu me adiantei, e ele garantiu que eu saberia fazer, pois era um serviço simples, de courrier. Eu tinha apenas que pegar um avião e levar documentos importantes para a sede da empresa, em Nova York.  Uma vez por mês, a dez mil reais a viagem, incluindo hospedagem e alimentação.
- Por que não manda pelo correio?  - perguntei ao homem.

- Tivemos problema com o correio – ele disse.

Minha primeira viagem foi tranquila. Era só um envelope, fino, bem colado, sem nada escrito. Levei apenas bagagem de mão. No Aeroporto John Kennedy, os funcionários revistaram minha bagagem, só encontraram uma muda de roupa e passei sem problemas pela imigração com o envelope debaixo do braço. Fiquei no hotel indicado, esperando pelo destinatário e ele chegou ainda pela manhã. Um homem de cabelo bem cortado, barba desenhada e vestido de terno, cujo desenho final lembrava um agente do FBI dos filmes. Ele pegou o envelope, me entregou dez mil em espécie e foi embora. Na segunda vez, a mesma coisa. À tarde, eu andava pela cidade, sem destino, comia num restaurante da Rua 47 e via filmes Jacques Riveti. De repente virei uma reação à minha própria certeza de que quanto mais pobres somos, mais pobre ficamos, e aderi a certo otimismo. De homem supérfluo, como diziam no século 19, passei a executivo bem-sucedido. Por uns segundos, eu esquecia o caráter do meu trabalho.  

Em dois meses eu estava com as contas em dia, dinheiro na poupança, mas um pouco intrigado. O que tinha dentro desses envelopes? Obviamente cheguei a pensar em drogas. Mas que droga seria tão fina a ponto de caber em um envelope e ainda capaz de compensar 10 mil reais só para transportá-la? Pensei até em espionagem, mas depois parei de pensar porque gosto de Nova York e estava gostando ainda mais de ganhar uma grana sem muito esforço, pois conseguia dormir em avião melhor do que dormia em casa, sonhando com meus problemas financeiros.

Na terceira vez, o cara da imigração se lembrava da minha cara. Fez um gesto enigmático, como se dissesse estou de olho em você. O que o desgraçado faria nesse vaivém mensal? – deve ter imaginado. Senti necessidade de explicar ao agente o escopo do meu trabalho, mas deixei de lado para não piorar a situação porque nem eu mesmo sabia o que estava fazendo. Daí surgiu a curiosidade mais intensa e no hotel olhei para o envelope, coloquei-o contra a luz, dei pequenas balançadas e nada sugeria o conteúdo. Vou abri, em pensei, e abri. O envelope estava vazio.

Qual foi a minha decisão: colar o envelope direitinho, entregar ao cara e não falar mais nisso. Durante dois anos fiquei nessa ponte aérea, muito satisfatória, compensadora em termos financeiros e culturais, até o dia em que o homem não apareceu mais com a encomenda.  

Só então voltei à minha curiosidade, agora sem riscos, sem as viagens, mas ainda sem emprego. Qual a razão de ser pago para levar um envelope vazio a Nova York todos os meses? De novo, levantei várias possibilidades. Talvez o conteúdo fosse infinitamente pequeno; quando descolei o papel, a coisinha microscópica pode ter fugido como um fio de pena transparente, quase infinitesimal. Outras hipóteses: uma espécie de filantropia, um anjo da guarda, uma pesquisa, uma promoção comercial.

Anos depois, ao olhar pela janela do ônibus, vi o homem dos envelopes, cabisbaixo, e desci no próximo ponto para tentar alcançá-lo. Alcancei. Pedi que fossemos a um bar, ali perto, para esclarecer a história. Mal sentamos, chegou uma moça que se identificou como filha dele. Contou que o pai tinha problemas psiquiátricos e que havia piorado depois que parou de me ajudar. A família, no entanto, não tinha mais condições de promover as viagens aos Estados Unidos. Mas ela queria ver o pai mais animado, pois o tratamento não estava dando resultado, apesar das doses cavalares de Haloperidol.


A moça abriu uma pasta, puxou um envelope e uma passagem para Curitiba. Dois mil por viagem. Eu aceitei. O homem sorriu. 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Memória do asfalto


A memória é fraca. Algumas começam a fraquejar no meio da velhice e morrem antes de seus donos; outras sobrevivem aos pedaços: situações vistas a vividas, nomes de personagens e datas se transformam em ondas perdidas no espaço. Por isso, algumas pessoas escrevem livros de reminiscências ou mantém uma agenda. Minha avó anotava tudo em papeizinhos e os colocava numa caixa de sapatos que ela se esquecia de consultar. A memória remota, no entanto, às vezes se preserva por mais tempo, talvez porque é a primeira impressão de um cérebro jovem e ainda cheio de espaço para armazenar lembranças. Ontem é um transtorno, mas o século passado surge brilhante e nítido, como o sangue escorrendo na principal rua da cidade, onde havia um matadouro de gado, enquanto onde Seu Augusto, meu vizinho, seguia para o grupo escolar.

Caixeiros viajantes, cassacos, ciganos e homens armados fumando cigarros Astória pareciam bem instalados na memória de seu Augusto, mas ele não tem registro do almoço do dia. “O que comi?” - pergunta de si para si e depois deixa de lado para ver-se com seus pensamentos da infância e juventude.

Quase sempre seu Augusto, o velho, é o jovem que observa os cassacos e seu trabalho escravo na construção da rodovia, trazendo o progresso e mais distração, conforme disse o prefeito – um senhor baixinho e simpático – e conforme disse o padre - alto, forte e alemão. Veio parar ali não se sabe como, mas a igreja tem recursos e condições de levar a palavra de Deus até mesmo aos cassacos, naquele fim de mundo onde a memória de Seu Augusto observa a estrada de rodagem ganhando asfalto e uma lagartixa percorrendo a traseira de um trator quebrado. “A lagartixa tinha um olhar condescendente e solidário”, observa seu Augusto em suas anotações para um livro de memórias.

A princípio Seu Augusto não falaria tanto de sua vida. Estava mais interessados na vida dos cassacos – trabalhadores eventuais e nômades da antiga Inspetoria de Obras Contra as Secas - e outros tipos da sua região do tempo, numa volta ao romance dos anos 30, como ele mesmo me contou. Já existe até um livro sobre com esse título, “Casacos”, de José Cordeiro de Andrade. Mas tudo bem, disse seu Augusto, eu só faço isso para não perder a memória.

Seu Augusto está bem situado em meados do século passado, quase outra era, quando parecia que o mundo estava sendo criado naquele momento e, tomando sua vida como referência, estava mesmo.  Vale a pena ver a animação de seu Augusto quando fala sobre Getúlio Vargas e programas de rádio, além de suas coisas cotidianas, sua visão do mundo a partir dos livros de Graciliano Ramos e das conversas na praça.  Com os dias de hoje, só dificuldade. Mesmo antes da doença, ele já não entendia a pressa dos acontecimentos. Também achava que ele próprio estava devagar ou, mais precisamente, havia uma conspiração do tempo – o de fora e o de dentro - contra seu final de existência.

Um de seus colegas da época de repartição, Gilvan Vieira Guedes, também escritor bissexto, deixou anotações sobre a vida difícil desses trabalhadores em uma pasta a que tive acesso porque ele é meu pai. O mesmo tom. Uma sociedade nascendo no Brasil pós-revolução de 30, embora Gilvan tenha desancado Getúlio, que não admirava por causa do governo autoritário. Mas o mundo nascia ali, perto do Rio Ipanema, numa cidade sertaneja calorenta de dia e fria à noite e onde algumas pessoas passavam fome e outras liam Émile Zola.

Os cassacos viviam em condições difíceis e carregavam suas redes para onde fossem. Não tinham qualquer documentação. Os contratados das obras contra as Secas, do Ministério de Viação e Obas Públicas, tinham salários, carteira assinada e também problemas.  Gilvan e seu Augusto liam Zola e se preocupavam com os cassacos. Só isso lhes dava a classificação de comunistas.

Anos mais tarde, em 1964, já casados, ambos tiveram que fugir para evitar a prisão. Entocaram-se numa fazenda de um expedicionário da FEB e ali por perto também encontraram cassacos. Um deles estava encolhido num canto, tremendo no calor, maleita, ele disse, mas parecia coisa mais grave. O homem foi melhorando aos poucos, depois de um uísque Cavalo branco, depois mais outra; só duas, porque era caro.

Seu Augusto achou o homem muito doente, talvez fosse Schistosoma, pensou naquela hora, pois a barriga estava inchada, e talvez fosse doença de Chagas, Trypanosoma cruzi, o bichinho do barbeiro, tão comum nas taipas onde os cassacos estendiam suas as redes. Um buraco no coração, sangue venoso e arterial se misturam numa pororoca venenosa, seguida de morte horrível, como se diz atualmente.

- Melhor chamar o doutor Fernando, que sabe do nosso esconderijo. Fernando é comunista mesmo, pelo menos votou no marechal Lott; soube que esteve na palestra de Octávio Brandão. Falar nisso você precisa ler “Canais e Lagoas”, o livro de Octávio. Quer dizer: ele não é só comunista; é escritor também.
 
- Não dá – disse Gilvan -. A gente só pode sair daqui quando tiver informações de João Farias, que conhece gente no exército. Isso tem cara que vai demorar até 65 ou mais.

Seu Augusto e Gilvan ficaram bebendo, em copinhos de ágata – primeiro uísque, depois cachaça -, e conversando com o cassaco, que preferiu a cuia. Tinha uma conversa aprumada e disse que já esteve em situação melhor, muito antes, na mesma repartição, quando chegou ao cargo de auxiliar de contabilidade, mas fora demitido a bem do serviço público por Augusto Pereira Lima, o próprio seu Augusto, na época em que ele foi diretor de pessoal, em Palmeira dos Índios.  Nenhum sabia do outro. Pouco se viram, na verdade, mas o caso trazia indícios contra o cassaco, ali no canto, se ajeitando. Sem provas, repetiu o homem, tornando a falar.

-Assinei o papel com um revólver engatilhado em minha cabeça – contou o cassaco. – Não fiquei com nada, nenhum tostão, caí na miséria depois daquela comissão de inquérito.

- Era o que me faltava: o Dreyfus do sertão!  - lamentou-se seu Augusto. Mas ele estava mesmo preocupado em ter levado um homem àquela situação, como presidente do inquérito administrativo, e encheu-se de culpa. Foi uma coisa bem marcante. A partir daí, seu Augusto começou a envelhecer e o que veio depois só não se perdeu por causa das anotações de Gilvan, datilografadas em duas vias, hoje quase sépia e parte comida pelas traças.

Gilvan morreu em 2015. Deixou escrito que ele e seu Augusto terminaram chamando Dr. Fernando, que levou o cassaco para o posto de puericultura. O problema era subnutrição. Ninguém foi preso, mas os dois tiveram que sair de Alagoas porque o departamento estava cheio de delatores do novo regime.  

Seu Augusto, quase 100 anos, mantém a memória como uma seta do tempo ao contrário, dos anos de 1960 aos anteriores, e dai revê a cara abismada do cassaco inocente, o sangue escorrendo na rua do comércio e o asfalto quente levantando fumaça. Lá no fundo das lembranças, as normalistas de Santana do Ipanema cantam boleros de Consuelo Velazquez.


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Atolados no escuro


As luzes foram se apagando aos poucos, como o Big Rip, que é a teoria sobre a expansão do universo até o ponto em que todas as galáxias estarão isoladas umas das outras. Um astrônomo amador estava entre os perdidos nas trevas e disse isso apenas em termos comparativos porque havia a sensação de que, mesmo no escuro, as coisas iam se afastando – o próprio chão parecia se esticar como borracha e dai em diante as pessoas se apressaram em tatear entre os escombros da cidade, procurando alguma coisa para comer ou onde se abrigar, ou pelo menos encostar a cabeça em algo seguro. Mas paredes e muros duravam pouco em seu lugar e o próprio grupo, de mãos dadas, fazia um enorme esforço para manter-se unido.

O certo é que se passaram noites sem dias e a energia não voltava nem havia jeito de saber quando voltaria. Findaram as chamas das velas e isqueiros e o facho das lanternas.  Não se viam as estrelas, cobertas de nuvens, e começou a chover sem parar – chuva horizontal, estranha, vinda do Norte -, enlameando a caravana que seguia meio sem destino pela avenida principal interminável, pois prédios antes vizinhos agora estavam distanciados por quarteirões. Homens e mulheres de negócios, gente que teve bons empregos, inclusive na Bolsa de Valores, estavam agora na mistura de lama com escuro, uma substância pastosa e dispersa que não conseguia untar o que restava da cidade.

Seguiram no tato, ensopados, cuidando para não serem separados pelo tecido do chão em movimento, e a chuva lateral continuava, atrapalhando a busca. Seria preciso encontrar um teto, uma singularidade naquele estiramento, pois a enxurrada argilosa, com todos os cheiros da cidade parecia mais acelerada e a água já estava dos pés à cintura. Um homem foi jogado contra um carro, que também já se deslocava no lamaçal ralo, e mesmo com a dor da batida gritou que aconteceu uma coisa séria, e quando perguntaram se era uma enchente, ele respondeu que era muito pior.

- Tudo está se derretendo - disse ele - e o grupo ficou sem saber se era uma metáfora ou se era isso mesmo. Logo os sinais ficaram mais à vista, como o prédio adiante, que adquiriu a mesma consistência da lama e depois se misturou a ela, tornando líquidos apartamentos e salas comerciais.

- Siqueira, fudeu tudo! – gritou o último homem da corrente de mãos. Tentava segurar-se num poste com o braço solto, que também se distendia e se afastava e lá na frente se diluía. Ninguém conhecia Siqueira nem importava naquele momento.

Sob uma marquise, finalmente, encontram uma porta ainda sólida. Estava fechada à chave, com água barrenta até o meio, mas apresentou-se um mecânico com um pedaço de ferro e fez uma alavanca para tirar a porta da frente. Lá dentro não havia água nem lama, embora estivesse também escuro. Umas duas horas de procura, como cegos, e de repente uma luz clara, iluminando uma sala branca e impecável, sem decoração, apenas branca. No centro, um homem em pé, também de branco, perguntou como estava lá fora. Há dias estava trancado ali. Não ficou chateado com a presença dos estranhos. Pelo contrário, parecia alegre por ver gente.

- Acho a situação anti-intuitiva – disse o astrônomo amador.

- Tudo caminha para a desordem – respondeu o homem de branco.

- Eu sei, eu sei que é assim – retrucou o astrônomo amador – Só quero saber por que é especificamente assim, como agora?

- Porque pode ser de qualquer jeito -, respondeu de novo o homem de branco. O homem não sabia ao certo como estava o lado de fora, mas sabia o que era. Tranquilo em seu bunker, informou sobre o aparente colapso. Pelo visto vinha preparando aquele lugar há muito tempo. Não era santo nem profeta; era só um cara prevenido e bem informado. Além de encerrar as questões entrópicas do astrônomo, ele deu muitas referências sobre o estado da matéria e ainda cálculos precisos sobre a composição daquilo que envolvia a cidade e que, ao final, envolveria tudo.

Costas apoiadas nas paredes deixaram a sala suja de lama, mas o homem de branco não se incomodou. Disse apenas que não tinha como hospedar tanta gente porque o estoque de alimentos não daria para todos.

- Vamos ficar porque somos maioria – disse um advogado, exaltado, como num tribunal.

O homem de branco ouviu a proposta sem tomá-la como ofensa ou ameaça e apenas acrescentou que também ele teria que deixar o lugar em alguns dias.


- Talvez não seja o fim – disse ele. – Talvez continuemos a viver, dissolvidos, misturados à matéria viscosa. Talvez seja só uma mudança de estado.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Pós-vida


Morreu e surgiu na vida eterna, ou em algo parecido, mas ali também não obteve respostas sobre a existência e o fim da existência. O lugar era espaço aparentemente vazio, embora outros mortos venham especulando que o vácuo está cheio de flutuações de gluóns, como ocorre no mundo das partículas. Mas a questão continua: onde estamos? Nenhuma entidade, religiosa ou não, apareceu para dar explicações, embora muitos já estejam nesse ambiente há milhares de anos.

Não há ordem nem leis para a população de 106 716 367 669 habitantes – presumível número de pessoas que já passaram pela vida terrena; e continua chegando gente. Reina a incerteza, não só a de Heisenberg, mas todas as outras – possíveis e impossíveis, incluindo a sensação de ausência do corpo, que contribui para outra dúvida nesse universo de dúvidas: eu sou eu? – perguntam com frequência. Indivíduos do passado e do presente misturados e perplexos numa área sem fronteira visível, em que se reúnem, por exemplo, fanáticos da idade Média, multidões de nômades e, mais recentemente, físicos teóricos. Convivência difícil. A coisa pode ser parecida com um ovo pelo avesso. A clara e a gema estão do lado de fora, onde todos viveram, e o interior oco, porém infinito, onde se acham agora. Mas é só uma suposição.

Adeptos de religiões acham que comprovaram sua tese da sobrevivência da alma, mas mesmo estes reclamam das condições e da falta de semelhança com o paraíso dos livros sagrados. Já os céticos em minoria consideram que o fenômeno faz parte do processo da natureza – talvez a dualidade onde-partícula - e lembram que Deus ainda não deu sinal de vida.

O escritor George Bernard Shaw, destacado incréu desse além, não contava com essa sobrevida (ou sobremorte), mas continua o mesmo. Maldiz a ciência, que nunca resolve um problema sem criar pelo menos outros dez, e maldiz a religião: “Cuidado com o homem cujo Deus está no céu”. Agostinho também esperava outra coisa, porque é santo, mas ele está no meio da multidão etérea ainda pregando a palavra do Todo Poderoso: “na procura de Deus é Ele quem se adianta e vem ao nosso encontro”, repete. “Tá demorando muito”, responde um apateísmo ansioso.

Não há frio nem calor nem comida nem cansaço nem repouso nem fome nem vontade de comer nem pontos de referência - alguns dizem que sequer há o tempo. Niels Bohr calcula que apenas passamos de uma orbita a outra sem percorrer o espaço intermediário. A pequena Guerra santicientífica, no entanto, é apenas retórica. Ninguém consegue tocar em ninguém. Nem conversar com vizinhos na calçada.


É um bom lugar para criar teorias, mas incômodo para morar.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Marilda


Depois de um longo tempo na empresa, saí à procura de novos desafios que não apareceram. Passaram-se seis meses e nada. O desemprego produz a sensação de que tiraram a escada e estou me segurando com esforço no parapeito do prédio. A cada decepção – “desculpe, não temos vagas” – parece que alguém pisa em minhas mãos e às vezes penso em soltá-las. Passo o dia pensando nessas coisas porque em casa a situação também não é boa. O casamento está no fim. O que passou, passou, eu disse, e prometi ir embora. Só não sei como sair por aí sem dinheiro.

Marilda ainda trabalha. Eu perdi o emprego numa agência de publicidade porque agora os produtos se anunciam sozinhos, por meio de algoritmos, e sem necessidade daquelas sacadas e frases de efeito que não causam mais efeito no consumidor. Inicialmente, ficamos acertados que ela manteria a casa naquele período difícil e depois veríamos como compensar, em termos de grana, pois o casamento é uma coisa, o dinheiro é outra.

Cada dia mais acuado em casa, um intruso, tentando não aparecer muito na cozinha e só como quando sou chamado. Li no jornal a entrevista de uma psicóloga em que ela garante que a felicidade é possível a um desempregado com boletos a pagar. Não é verdade, pelo menos no meu caso, pois Marilda deu um ultimato e disse que eu tinha três meses para arranjar qualquer trabalho – nem que fosse intermitente. Argumentei que o mundo tinha mudado, os empregos sumiram para quase todos e que só sei fazer uma coisa; talvez nem saiba mais, Marilda. Hoje uma margarina se anuncia por conta própria, levando em conta bilhões de possibilidades e eu sou do tempo do slogan e do jingle.

Eu precisava de uma ideia, um aplicativo que gerasse renda, um modelo de negócio inédito, mas termina me distraindo jogando paciência no computador. Eu entendia a preocupação de Marilda, pois o salário dela tinha sido cortado pela metade, por uma nova medida do governo, e minha presença em casa estava estourando o orçamento. Outro problema era o fim do amor. Não apenas o nosso. O próprio sentido do amor tem se esvaziado em todo o planeta. As pessoas se casam para dividir os custos domésticos e, secundariamente, por sexo, que não resiste às oscilações do mercado e ao dia a dia. O importante é o equilíbrio das contas.

Meu mundo keinesiano desabou nessa temporada de ócio. O Estado não pode fazer nada por mim. Nem a iniciativa privada. Marilda já fez o que pôde.

Turismo

Finalmente, encontrei uma saída. O Turismo por Acaso era o meu produto. Vendia viagens que transcorriam ao sabor dos acontecimentos, sem hora para voltar, com todos os dias livres. Cada um marcava seu hotel, de acordo com o gosto e a situação, e o passageiro também poderia pegar a passagem quando quisesse ou desistir no último momento. Eu mesmo sou o guia de todas as excursões. Sento-me num bar, peço uma bebida e espero que algum cliente venha com dúvidas sobre a Catedral de São Vito ou os canais de Bolonha. Se não vier, melhor.

Realeza

Deslocava-se com facilidade nos bastidores da corte. Vez por outro se inclinava para Sua Majestade até os limites dos ossos. O rei torcia secretamente para ele inclinar-se ainda mais. Só no último instante fazia o gesto real que significa “por hoje, basta”. O homem faz a sua parte e recebe a contraparte. Move-se nas salas enormes, se solta em cortesias, chama burocratas de Vossa Excelência para situar-se também nos escalões inferiores. No final do mês, recebe as moedas e vai para taberna vangloriar-se de seu espírito público.

Memória

Escreveu as memórias até a metade do livro e dali em diante foram parágrafos e parágrafos sobre a perda da memória, crítica sem piedade à falta de sentido de coisas ditas do primeiro ao sexto capítulo e historinhas “bem chinfrins”, como Graciliano disse a Antônio Cândido. Depois da doença, só lhe vieram lembranças cotidianas sem importância aparente, sem comendas ou convivência com vultos da República. Não sabia mais quem eram aqueles homens com os quais dividiu segredos de Estado, mas os fatos da infância tinham nitidez e brilho, como a lagartixa imóvel na parede de seu quarto de criança e cenas do primeiro filme que viu na vida: Gunga Din, de 1939. A primeira parte era uma peça auto laudatória e, aqui e ali, mentirosa. A segunda parte era tudo que ele não teve na política: estilo. A amnésia deu-lhe jeito para juntar as palavras de forma direta e concisa.