quarta-feira, 8 de julho de 2020

Carnaval



Antes disso, quando ainda era carnaval, passamos numa tenda de adivinhações e diante de uma cigana, ou uma só uma moça fantasiada de cigana,  perguntamos sobre aquela novidade na folia, quem teve a ideia, se vendiam cervejas ou só se apenas liam as mãos. A cigana respondeu que tinham as duas coisas e resolvemos ficar ali, livres do sol, enquanto ela nos olhava com certo espanto. De repente falou: Sabia que vai mudar? Perguntei o que iria mudar e ela respondeu: tudo.

Eu, que desdenho os videntes, até mesmo profetas,  pois o futuro ainda não existe, segundo creio, notei uma segurança terrível em suas palavras, como se a moça tivesse informações privilegiadas, vindas de uma agência de cenários possíveis ou qualquer organização do gênero, nas quais também não costumo acreditar, mas de qualquer forma ela demonstrou certeza. Aí passou um bloco estranho, de homens vestidos de avestruzes, e seguimos a onda caminhando, enquanto uma pequena orquestra tocava frevos muito melancólicos sobre carnavais passados, tempos ideais, sonhos que vão terminar. Aqueles avestruzes lembravam os cabeças da peste da Idade Média, com enormes bicos em que colocavam cânfora e mirra, embora o cheiro vigente fosse de maconha. Notei que os foliões estavam cabisbaixos, pensativos e vagarosos. Minha amiga carnavalesca explicou que era assim mesmo. As letras sugeriam certa solenidade e fomos até o terminal de ônibus, onde o bloco se dissolveu em outras multidões.

- Será que tudo vai mudar? - ´perguntei.

- Alguma coisa sempre muda – respondeu minha amiga -, pesando meu interesse pela cigana, quando na verdade, além disso, eu também intuía mudanças muito fortes, depois daquele carnaval. Eu voltaria a um emprego inseguro, o país estava submetido à loucura e imaginei que as mudanças viriam da política; só não tinha ideia se seria uma mudança boa ou má e muito menos se mudaria tudo ou só alguma coisa.

- Ei, você esqueceu sua carteira! – disse a cigana, que vinha correndo.

Eu não abri a carteira para ser educado. Não quis conferir se o dinheiro ainda estava lá, com os documentos;  mais tarde constatei que estava. Também havia um número de telefone fixo, sem mais informações. Não sabia se ligava antes ou depois do carnaval. Antes ou depois que alguma coisa mudasse ou mudasse tudo, mas deixei para o dia seguinte, quando novos blocos nos aguardavam, pois ainda era domingo. Alguma coisa me dizia que aquele telefone não era da cigana.

Na segunda-feira, conforme o combinado, haveria mais blocos e cervejas. Minha amiga acordou cedo, animada, mas logo se apôs à face um olhar de melancolia e susto, os dois juntos, embora não combinassem. Notou que não havia barulho, nenhum tambor, um grito, uma lata chutada, como é comum. O silêncio era enorme e eu também percebi numa fração de segundos que aquilo não era normal.

A janela dá para a rua em que ontem se aninhavam grupos de jovens bêbados e alegres e agora, no presente momento, não tem ninguém. Ainda é cedo, lembrou minha amiga, sem acreditar no que dizia. A rua também estava limpa, sem um único glitter no chão, como se no dia anterior não tivesse acontecido nada. A 500 metros dali estaria a tenda da cigana e andamos e andamos nas ruelas vazias, até desembocar na praça, e nesse rumo não avistamos uma única pessoa. Quando enfim chegamos, a tenda da cigana também não estava lá.

Pensei em alguns exageros de ontem, não tantos, mas minha amiga estava igualmente confusa com a paisagem. Não passava um carro. Talvez o carnaval esteja suspenso por algum evento, uma epidemia ou intervenção militar. Minha amiga ansiosa, olhando aquele vazio, se perguntanva se  poderia ser um filme? Eu falei que poderia ser um monte de coisas e o mais certo seria procurar alguns indícios. Também senti que não tinha cheiro de carnaval.

Nesse ponto, tive a ideia de ligar para o telefone deixado pela cigana. Pedi umas fichas a minha amiga e fui até o orelhão. Disquei, pois era assim no século 20, e não chegou a três toques para que uma voz masculina e formal dissesse que a gente tinha saído do carnaval. O carnaval estava no mesmo lugar. Vocês é que estão num lugar diferente, ele disse.

- O que faço para sair daqui? – perguntei, menos assustado do que deveria.

- Espera

- Quando tempo?

- Não sei – ele respondeu

Voltamos para a casa alugada e no caminho eu contei a minha amiga o diálogo ao telefone ela simplesmente riu. Achou absurdo e pediu que eu contasse a verdade, como foi a conversa  com a cigana etc. Eu disse que não era uma cigana. Era outra pessoa, um homem. Percorremos as mesmas ruas vazias, entramos na casa, e olhei do quintal  coqueiros sobre tetos antigos e silenciosos, e mais além o mar sem ondas.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Confinamento




A dificuldade é não ter para onde ir nessas horas em que os espaços escolheram. Nem espaço existe mais em alguns lugares, que não são mais lugares, porque não há espaço, ex-lugares, por assim dizer, pois tinham nomes e pessoas dentro dele. Não tem mais nenhuma. Foram esmagadas até ficar nada. Reduzidos a uma lembrança, embora a lembrança também tenha se reduzido, a ponto de ficar como um lampejo. O que resta aqui? Um velho senhorio com seus lamentos sobre o próprio canto em que vive e que sobra. Dia e noite, suas palavras ocupam tudo. Não posso sair porque lá fora tudo diminui. Se ponho um pé na rua, encontro logo um obstáculo contagioso.  Um ar que não se respira direito, como tivesse densidade maior do que tem e que entra pelas narinas como algo pegajoso e aos gritos. O ar encolhe junto com a rua, devagar, mas sem intervalos, e grandes avenidas já são becos, e prédios foram pressionados contra o chão ou sumiram. Pode ter sido um sonho ou sintoma da doença.

Há outro “lá fora”, visto na TV, repetindo que está tudo em paz. Uma mulher corre com um cão no parque e sua respiração vaza no microfone de alta sensibilidade e ela ofega e ofega e diz coisas de si para si que não são muito boas. Mas um carro de música, circula, também só na tela, explicando que todos podem sair, enquanto outros fazem sinal de “não” com o dedo, por trás da repórter, e nos deixa assustados e indecisos. Nessas horas há uivos nas janelas, conversas aos berros sobre o que está acontecendo, mas às vezes é apenas uma versão; melhor esperar o pronunciamento oficial, que será feito às 20h, sobre a real situação, dimensão dos estragos etc.

Só que o homem vestido com uniforme de parada, a espada sobre a mesa, prefere fazer digressões sobre outros assuntos; seus tempos da cavalaria, infantaria e paraquedismo, que agora não existe mais porque as forças militares foram transformadas em guardadores de carros de luxo, cantores de marchas e desviadores da atenção. Disseram que falam sobre um fundo verde, em que é colocado um mundo unidimensional, inteiramente falso, em que aparecem o comércio aberto, cotias atravessando a rua e pessoas trabalhando em seus escritórios com rostos risonhos de atores.

Preferimos ficar uns dias sem tentar abrir a porta, pois seria deparar com a mesma gosma que cresce a cada dia ou só o espaço se comprimindo que torna sua textura mais grosa. O que dizem não combina com o aperto dos cômodos, as paredes que parecem se mexer em direção à mesa do centro, transformando grandes apartamentos em quitinetes e quartos em celas.

Novo amanhecer, novas sensações e delírios. O lado externo já estaria transformado em outro tipo de espaço, como o inferno de Joyce, uma prisão medonha, cujas paredes têm seis quilômetros de espessura e seus prisioneiros estão empilhados, enquanto o coral de tosse seca ecoa nas casas e a febre de todos aumenta a temperatura da cidade.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Presidente


O sargento, em seu terceiro ou quarto mandato – já nem lembro mais –, dera-se ao vício do jogo que ele mesmo legalizara no País. Jogava com seu próprio salário e às vezes com dinheiro público, numa roda de baralho frequentada pelos mesmos personagens de sempre, pastores e militares, e alguns ministros de Estado. Quando perdia, ficava amuado, trancava-se num quartinho do palácio, e deixava a administração por conta dos filhos, já envelhecidos e ainda infantis. Eles brigavam entre si, maldiziam o pai, e às vezes decretavam estado de sítio quando não tinham ideia melhor para conter a onda de crimes praticados por seus próprios aliados.

Não havia oposição fora dos presídios, mas os amigos davam tanto trabalho quanto os antigos desafetos e precisavam de um basta. A exemplo dos comunistas, muitos foram mortos em emboscadas e solitárias sem pão e água. Quando o presidente voltava à cena, rezava num templo erguido em intenção da alma do primeiro santo evangélico, falecido na década passada e autor de milagres comprovados pelo conselho do reino da república. A imagem do senhor que viveu a maior parte do tempo no estrangeiro, e ditava o programa de governo, vertia sangue e leite condensado, dependendo da estação do ano. Ali, no pequeno altar, o chefe do executivo inspirava-se para retomar as rédeas do poder e conter a família em eterno conflito.


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

A reforma



Deslizou o envelope sob a mão, sobre o mármore, mas não era para disfarçar. Todos sabiam dos pagamentos em dinheiro vivo. Ele só queria sentir o conteúdo. Pelo som de arrastar o papel saberia quanto teria no bolso, daqui a pouco, e poderia enfim pagar as dívidas contraídas com terceiros para executar o serviço. Muitas vezes a cena se repetiu e ele aprendeu a ler o conteúdo sem vê-lo. Notas de mil dólares, recém-chegadas à praça com a nova reforma econômica, provavelmente vinte e cinco mil. Daria para ficar com vinte ou dezessete. Matar determinadas não era mais uma novidade e a mão de obra excedente fez os preços baixarem. Com o fim de tantos empregos e tantas profissões, o assassinato por encomenda ganhou um peso considerável nos índices de emprego informal. Também era um trabalho sem grandes riscos porque a polícia estava instruída a não mexer nesses casos e recebia sua parte por isso.

- Trabalho à noite. Atiro nos alvos predeterminados. A bala alojada envia os dados para não sei onde e logo volta a informação. Recebo o OK e sigo em frente. O próximo é um homem magro e assustado, conforme vejo a três metros de mim e, agora, ainda mais assustado, depois do tiro. Chego. Ele ainda olha. Quer fazer uma pergunta e eu fico querendo saber o que seria, mas não dá tempo. A gente recebe por pontuação. Errar, menos cinco pontos. Não resolver da primeira vez, perde entre 2 e 5. A produtividade conta muito.

Depois do trabalho ele vai ao mesmo lugar de sempre. Uma casa de sucos dentro da igreja, num corredor de pequenos quiosques que vendem armas, bíblias, gift cards de dízimos e salvos-condutos para andar na rua depois das 22h.  Ali também expedem comprovantes de renda para empreendedores de pequenos negócios, atestados médicos e uniformes militares. Mais adiante, no final do corredor, há uma clínica de esterilização mantida pelos religiosos. A casa de sucos não vende café nem álcool, por força de lei federal. Conversa com colegas sobre o trabalho, erros e acertos, pontuação e estatísticas.

- Um dia isso vai acabar. Os recursos são finitos, pessoas pobres são finitas e a questão da pobreza que enfrentamos há anos está quase resolvida. Todos que restam já estão cadastrados – desajustados sem renda, saudosos da velha ordem e falsos profetas. Uns fogem, mas não têm onde se esconder; a maioria espera sua hora, com calma e entendimento do processo.       


terça-feira, 11 de junho de 2019

A barata




Uma barata passeia livremente dentro do apartamento sem móveis e nem liga para a presença do homem deitado, nu, no meio da sala; vez por outra, como um animal amestrado, a barata passa por cima do corpo e faz pequenas piruetas em torno do umbigo do homem.

O homem se levanta, respira fundo, e vai para o saco de dormir no quarto, sentindo-se também uma barata, igual no livro, embora Metamorfose não seja sobre um inseto especifico. Agora, ela também está no quarto, circula como Fred Astaire nos rodapés e emite um som melancólico de seus espiráculos; bastava um microscópio e veríamos um olhar expressivo e solidário com o homem.

O apartamento precisa ser desocupado. Despejo. A barata parece saber disso e comporta-se quase como um cachorro lamentando por seu dono. O homem percebeu, mas olha a barata pensando em outras coisas, o fim do emprego, o fim de todos os empregos possíveis para alguém que faz uma tarefa que não existe mais.
E pensa no tempo do emprego

- Lembra-se do tempo dos empregos? – diz o homem à barata -.Tive uns.  Bastava ter ginásio completo e curso de datilografia. Logo uma colocação no serviço público. Eu gostava das máquinas de escrever. Quando chegava ao fim da linha, eu rolava o cilindro de volta como quem recarrega uma arma, e repetia o mesmo gesto muitas vezes e era bonito quando todos no escritório estavam em sincronia; parecia uma orquestra. Eu preferia o barulho surdo das teclas sobre papeis intercalados de carbono. Quanto mais cópias, mais surdo o barulho. Quanto mais força, mais as letras chegavam mais nítidas à última folha.  Às vezes o chefe aparecia para perguntar quem datilografou isso aqui e reclamava ou dizia meus parabéns. Aprendi num curso noturno. ASDFG até pegar prática, até escrever sem olhar para a máquina, até conseguir usar os cinco dedos.

Bons tempos – exclamei à barata.

A lei

Pensando por esse lado eu cometo crimes porque a vida é curta e não adianta viver na merda durante cem anos se for tudo igual todo dia e mais à frente a gente vai perceber que não viveu nada.  Então eu roubei e fui preso. Nem liguei. Estava previsto. O que tinha sido bom foi muito bom no momento do ocorrido. Valeu a pena andar como rico por mais de dez anos e agora sei como funciona tudo lá em cima. Primeiro eu quis todos os objetos e tive. Depois comprei algumas pessoas; umas de modo suave, outras explicitamente.  Quanto custa? É tanto. Vamos nessa. Se estiverem pensando em prostitutas ou políticos, estão errados. São outros profissionais, gente dos poderes, aos quais meus negócios ilegais interessam.  Gostam como a coisa é feita. Sem sair de casa. Pelos computadores. O programa é bom, os nomes somem, enquanto o dinheiro chega ao destino livre desses intrusos nos negócios - a polícia, por exemplo. Com facilitações adequadas, cada um pega a sua parte. Eu compro, mas ganho ainda mais, pois só investi nisso a vontade de fazer. Não tenho culpa porque só roubo quem já tem muito, embora os clientes, na maioria dos casos, também tenham muito e às vezes mais. Uns roubam os outros por meu intermédio, no mercado de capitais, e se agora me encontro privado da liberdade, tenho o espírito livre para criar outras maneiras de burlar a bolsa de valores e outros grandes templos do capital. 

Cada um vive do jeito que quiser e embora alguém possa considerar que o mesmo não vale no meu caso, uma situação ilícita, na maior parte das vezes, pelo menos, eu respondo que as leis mudam com o tempo – o que vale hoje, não vale amanhã – e que se a própria justiça funciona desse jeito, deixando uns crimes de lado e acrescentando outros, eu também posso estar sujeito a oscilações; posso inclusive levar em conta que tenho o direito de me arrepender, devolver o dinheiro reclamado, ou o que sobrou. Nessas horas, quando tudo se encerra, tem que ter desapego. Devolva o que puder ajudar em sua libertação. Conheço o judiciário como a palma da mão, como se conhece o inimigo e procuro me antecipar, sem contar outras providências, de ordem mais prática e também muito mais caras.

O resultado é que consigo sair – sempre consegui –, mas saio quebrado em termos de finanças, em dívida com advogados e ainda devendo no ramo das “outras providências”, conforme disse. Saio e tento recomeçar a vida dentro dos padrões, tudo em dia. Só que a falta do que tinha e perdi me leva a querer de novo e vejo que os caminhos ditos legais são muito precários em remuneração, exigindo mais trabalho em troca de menos dinheiro. Então volto à cena, com outros truques e justificativas.  




segunda-feira, 15 de abril de 2019

Geometria




Eles caíam aos poucos, em câmara lenta, embora um observador pudesse vê-los caindo de uma vez - uma queda seguida do baque seco e finalmente corpos inertes no chão. Alguns se mexiam; outros, não. Quem caía, no entanto, experimentava um demorado suplício, e sem a aceleração própria da gravidade. Uma viagem vertical em que os pensamentos eram repassados como uma via sacra, compactando os piores momentos da vida, os maiores desatinos, a vergonha, o medo e a dor. Mas havia também um cotidiano, famílias, expedientes, contas a pagar e até o simulacro de um governo. Não estavam ali por vontade própria nem foram empurrados. Só estavam naquela situação e não havia como explicar por que caíam.

Durante a queda conseguiam manter contato com outros cadentes de longo prazo. Questionavam a razão de estarem ali e estavam certos de não tratar-se de um simbolismo sobre a existência ou algo parecido. Era um acontecimento físico e envolvia centenas, talvez milhares, de seres desinformados. Um fenômeno recente da natureza em contradição com certas leis estabelecidas. Sabiam que não estavam num precipício – era uma queda em si, feita sob medida para determinadas pessoas, como um castigo ou um destino. Os observadores, por sua vez, estavam igualmente espantados. Tanto por verem tanta gente nessa trajetória quanto por temerem que eles também pudessem desabar de uma hora para outra. O mundo, naquela época, basicamente era isso. Os que caiam e os que observavam. A instabilidade, portanto, afetava todos.

No meio da queda havia tempo e espaço para refletir sobre aquilo. Nenhuma explicação razoável, mas tentativas de encontrar uma saída – a interrupção da queda, o despertar de um pesadelo, a revelação de que tudo não passava de uma brincadeira – uma pegadinha da TV, embora muitos já estivessem acostumados à queda e procuravam levar a vida como se nada demais estivesse acontecendo. Despertavam, no entanto, quando vinham as partes mais difíceis do processo: pesadelos vívidos e realidade num só bloco, situações tão assombrosas que faziam o sonhador preferir voltar à queda regular do dia a dia.

A velocidade era igual para todos na mesma linha de queda e nesse ritmo as mesmas coisas e pessoas estavam num mesmo plano, como a banca de revista, que cai junto com a mulher que compra um jornal, sendo que mais adiante – ou mais embaixo, que seja – não existem mais jornais nem revistas.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

Armas



Não fazer gestos bruscos porque se fizer eles disparam. Também nos instruíram a não emitir opiniões divergentes, em qualquer língua, pois se atiram a esmo, por nada, podem muito bem atirar numa pessoa capaz de contrariá-los. Portanto, não se pode falar sobre determinados assuntos e muitos preferem ficar em casa – deixam até de ir ao trabalho -, com medo das armas engatilhadas na cidade.  Apertam o gatilho por qualquer coisinha.

Portanto, levantar dados sobre o país tem sido uma tarefa complicada. O fato de ser estrangeiro ajuda, mas ser jornalista atrapalha. O rapaz com um rifle de assalto Heckler e Koch - calibre de 5,56 mm e alcance de 600 metros - foi o que pareceu mais amistoso e, após cautelosas tentativas de aproximação dispôs-se a falar, mas exclusivamente sobre armas. Nada de política, disse.

Ele não está inteiramente satisfeito com o equipamento atual. Espera um financiamento do governo para adquirir uma metralhadora MG3 - calibre de 7,62 mm, alcance efetivo de 1200 metros, 1000-1300 tiros por minuto, conforme o manual de instrução na Internet.  Seu rendimento, porém, tem sido elogiado com a Hecker e Koch. Matou 26 no mês passado, quase todos vadios e viciados, segundo ele.

No final do dia, ele e seus amigos se reúnem em um bar para comentar as ações do dia, as estatísticas, o desempenho de cada um e a chance de obter uma promoção, talvez um patrocínio. É preciso aproveitar as oportunidades.