Não era uma sociedade, é claro. Iberê já estava quase rico e não iria querer dividir o que já tinha. Queria mais, era ambicioso, um ministro de Deus com fome de poder e planos de chegar a algum cargo importante na sede das franquias, lá em Nova Jersey. Tinha aulas particulares de inglês, contratou uma secretária bilíngüe; nesse ramo, monoglota não tem vez. Resumo: eu receberia um fixo, mais uma parte dos dízimos, enquanto Assis ficaria entre a revista e a igreja – não entrei nesses pormenores, poderia atrapalhar. A empresa de Social Media estaria sob minha orientação.
Passamos os primeiros dias de trabalho numa casinha ao lado do templo, que Iberê comprou a preço de banana para o caso de querer ampliar a igreja. Duas mesinhas e um computador, um armário de metal e nada na parede. Comecei a escrever o Evangelho Segundo Iberê, a partir das minhas referências, dividindo o documento da seguinte forma: primeiro vinha a Terra, com seus seres humanos e suas complicações – pecados, dúvidas, possibilidades de arrependimento e, especialmente, necessidades. Daí havia uma bifurcação – uma pro céu; outra pro inferno, e a escolha seria do freguês. Para simplificar, o purgatório ficou de fora. O purgatório seria na terra mesmo e cada um tratasse de viver a vida de acordo com os mandamentos, dentro do possível, para esperar o juízo final, a morte individual, não uma hecatombe, o fim dos tempos, como anunciam algumas religiões.
O que tomou mais tempo foi descrição do inferno. Pensei em copiar umas partes de Dante, mas tive medo de Iberê pegar um processo por plágio. Mesmo assim havia uns pedaços, entre aspas (“E verdadeiramente tudo quanto do reino santo/em minha mente pude guardar/será agora matéria do meu canto”). Isso, mais umas coisinhas de Cícero, disfarçadas e dispersas, observações do crítico literário Ercih Auerbach, umas doidices bacanas tiradas do livro Catatau, de Paulo Leminski, e muita pesquisa na Internet.
Estava trabalhando feito um louco e Assis sempre chegava atrasado. Não tinha fotos para fazer, seria a segunda parte do trabalho, mas não gosto de ficar sozinho e ele poderia dar umas idéias para o texto. Quando chegava, suas histórias vinham da revista, quem fotografou, como foi o fechamento da edição, essas coisas. No final, soltou uma surpresa. Estava tendo um caso com Letícia, um relacionamento sério, e não queria que ela fotografasse mais. Pensava em ir morar com ela, no mesmo bairro do Paraíso, ademais Letícia tinha passado do ponto, saído do cardápio, como dizem lá, por causa das estrias e celulites, além do sentimento de culpa. A moça, segundo Assis, tinha uma pureza de alma que não combinava com aquele trabalho, precisava arranjar um emprego comum, o suficiente para ajudar na criação do menino. O pai era um pobre coitado, ex-plaboy e ex-traficante do terceiro escalão. Foi visto por ela da última vez há três anos, vendendo guarda-chuva, em dia de tempestade na Avenida Paulista. Teve raiva, teve pena, depois seguiu adiante, sem falar com ele.
- Assis, você acha que é hora de entrar numa fria dessas? – perguntei. Assis explicou que aconteceu por acaso, estava apaixonado, não tinha jeito, e emendou que agora, mais do que nunca, precisava do trabalho na Igreja. Também precisava arranjar alguma ocupação para Letícia. (continua)
quinta-feira, 15 de março de 2012
segunda-feira, 12 de março de 2012
Iberê - 2ª parte
Nisso, depois de dois anos, vejo na TV um rosto conhecido, num programa evangélico. Era Iberê. Paletó e gravata, a Bíblia na mão, tirando satanás do corpo de pobres coitados, prometendo curas, mentindo feito um desgraçado. Pelo jeito estava bem de vida. Até o português tinha melhorado. Duas horas no ar, quase de madrugada, mas tinha gente ligando e mandando e-mails. O danado do Iberê comprou horário na televisão e o logotipo de sua igreja estava ao fundo, um negócio de mau gosto, como, aliás, é a estética desses pentecostais. Iberê estava curando gente, ora veja, apenas colocando a mão na cabeça delas, mas dava para ver que era marmelada, embora as pessoas da plateia acreditassem naquele espetáculo caricato.
No dia seguinte não parei de pensar em Iberê. Comprei um exemplar do jornal de concursos, mas minha situação era mais urgente. Eu precisava sair logo do lava a jato e procurar coisa melhor, um plano de negócio, mas não tinha capital. Daí surgiu a ideia de procurar Iberê, desta vez com outra conversa, uma proposta de trabalho na igreja e no programa dele, um projeto para aumentar a audiência e arrebanhar mais fies, por meio da propaganda em redes sociais, uma coisa in process, como se diz.
Fui atrás de Iberê num sábado de folga. Tudo tinha mudado. Quando falei do projeto de comunicação para a igreja, ele riu, já tinha contratado uma dessas empresas especializadas em Social Media Marketing, com objetivos traçados de acordo com as necessidades do cliente e coisa e tal. O templo tinha sido reformado, havia sofás novos e uma TV de tela plana; lá dentro, no auditório, tudo recém-pintado, com cadeiras da Tok stok brancas. Na frente, duas colunas, meio para o neoclássico, com elementos da arquitetura grega e romana, mas o prédio lembrava mesmo a casa do filme “E o vento levou...”
Iberê tinha carro do ano, cartão de crédito internacional e uma nova mulher, Zilda. Esteve nos EUA fazendo um curso de pastor, num esquema com outra igreja, com sede em Nova Jersey e filiais espalhadas pelo mundo. Era uma espécie de franquia, só que Iberê manteve o nome original, Igreja Pentecostal do Evangelho de Jesus. Fui bem-recebido, conheci os novos empregados e o novo sistema de avaliação de resultados, ou seja, o cara ganhava por produção: arrecadação de dinheiro. “Posso colocar você no projeto”, ela disse. “Mas te quero como pregador”. Eu disse que ia pensar. Iberê não falou no bilhete de despedida nem eu.
No dia seguinte, na chatice do lava a jato, matutei bastante sobre a proposta e pensei que, em termos financeiros, poderia ser compensador. Eu ia ganhar dinheiro falando e poderia dar um toque mais amplo às pregações, graças aos meus conhecimentos de literatura e filosofia, inclusive sobre religiões. Bastava estudar um pouco mais sobre o culto, com ênfase na doutrina do batismo com o Espírito Santo. Iria virar um missionário mesmo sem acreditar naquelas ideias, mas comparei com o lava a jato e conclui que seria um emprego como outro qualquer. Claro que o lava a jato é mais liberal em questões de comportamento, mas eu estava levando uma vida bem regrada, somente preocupado com a sobrevivência, e quase sem beber. Tinha outros poréns. Eu era grato e Iberê, mas continuava achando que ele não agia certo com as pessoas, empurrando aquela pregação goela abaixo, enganando uns e outros, enquanto sua conta bancária só fazia crescer.
Argumentei comigo mesmo, pros e contras, pensei em adotar uma neutralidade ética, coisa pré-aristotélica, assim entendi nos livros - o tal do phatos, se não estou enganado -, e resolvi voltar a Iberê dois dias depois para dizer sim. Vou aceitar, mas impor algumas condições, em relação ao salário e ao discurso; quero um fixo, além do porcentual dos dízimos, e mais liberdade para a pregação, incluindo novos livros, além da Bíblia, na minha conversa com os fiéis e infiéis. O primeiro vai ser A Divina Comédia, que era quase sagrado no seu tempo, e depois virão outros, mais leves, para contribuir com a formação daquele povo tão desprovido de cultural. Não sei o que Iberê vai achar, mas é isso. Finalmente terei parte numa igrejinha literária.
III
Nesse ponto da minha história com Iberê eu queria fazer uma pausa para contar como conheci Assis, o fotógrafo, num restaurante a quilo da Rua Augusta. Sujeito inteligente e frustrado, parecido comigo. Conversa vai, conversa vem e ele me convidou para conhecer seu trabalho numa revista de pornografia, com sede numa casinha do Paraíso. Fui lá e fiquei impressionado. Sentado num banquinho do estúdio, já no dia seguinte, pude observar como funciona esse mundo das publicações de putaria.
“Empina a bunda mais um pouco”, instruía Assis à modelo. Ela pensava já estar empinada o suficiente, mas o fotógrafo queria destacar as reentrâncias de forma mais escancarada ainda, seguindo os padrões de qualidade da revista. Buscava um ângulo novo, embora novidades nessa área não sejam tão valorizadas. Queria compensar a falta de atributos da mulher com uma pose menos usual, sem perder de vista os necessários teores de sacanagem. Mas não havia jeito. A decepção de ambos era visível. Poderia dar um intervalo, comer a modelo, e reiniciar o trabalho, como ocorre com freqüência na publicação pornográfica. Não. Assis foi tomar um café comigo na esquina e maldizer a vida. Ela foi chorar no banheiro.
Soube que Assis e a modelo, Letícia, tinham outros planos de vida. Ela sonhava com as passarelas internacionais quando era mais jovem; ele sonhava com as savanas africanas, os povos do terceiro mundo, uma vida de Sebastião Salgado. Mas estavam ali, no estúdio improvisado, produzindo closes de xerecas para o lupem do punhetariado.
O caso dela foi coração partido. Casou-se, teve um filho, foi abandonada e ficou com cicatriz de cesariana. O dele foi álcool. Como a profissão não decolava e as fotos não renderam o devido reconhecimento, caiu na cerveja até onde o dinheiro dava, depois, quase na miséria, restavam Dreher e 51, as mesmas bebidas que eu tomava antes de ser resgato por Iberê. Quando parou já era tarde. Só apareceu emprego na revista de mulheres nuas, quase pelo avesso, e ele topou. O paudurismo só durou uma semana. Logo, logo o trabalho ficou chato, repetitivo, uma sequência interminável de bundas, linguinhas pra fora, sorrisos falsos, pernas abertas, e o velho fundo escuro do estúdio. Vidinha de merda – e Assis ainda tinha que ajudar na paginação. Mal conversava com as meninas, muito menos saía como elas depois do expediente. Não era moralismo. Achava tudo sem muita imaginação, poderia até inovar, aqui e ali, mas os leitores, digamos assim, nem iriam notar. O cara que compra a revista quer ver xoxota in natura, sem frescuras estéticas, esqueça o Cartier-Bresson. Então eu sugeri a Assis: posso te arrumar uma colocação na Igreja de um amigo, a gente pode produzir uma publicação, house organ, sobre os cultos, as obras sociais, enquanto você faz um trabalho por fora, mais artístico, para seu uso, mostrando a presepada das sessões de cura. Assis ficou curioso, já pensando num livro de arte, com capa dura, e resolveu ir comigo conversar com Iberê.
Assis me acompanhou só para assuntar, mas Iberê não gostou. Quando chegamos ao templo, o pastor perdeu a espontaneidade, ficou com uma conversa que não chegava ao ponto e eu ainda nem tinha entrada em detalhes sobre a função prometida ao meu amigo. Muito menos sobre o conteúdo da minha pregação, capaz de atrair gente da classe média, com mais dinheiro. Finalmente, olhei para Iberê e disse:
- Olha, Iberê, não adianta você se concentrar apenas no pessoal do bairro e no seu público da TV, que no final das contas é a mesma coisa, pobres e ignorante. Sei que você vai concordar comigo. É um homem religioso, mas a mensagem não anda sem o tino empresarial – e você também é bom nisso, eu sei. Não pode restringir sua pregação. Temos que atrair fiéis com conta no banco, situados na sociedade, e para os que já estão aqui, dar uma melhor formação cultural, botar esse povo pra ler e refletir sobre o mundo terreno. Não é o caso de deixar o céu e o inferno no segundo plano, isso não, é arrumar um jeito para lidar com a vida, enquanto Jesus não volta. Jesus é C.E. O; você é o executivo.
Iberê ficou pensativo. Primeiro, disse que sua igreja não previa a volta de Jesus; a pessoa é que vai se encontrar com ele ou desanda pro inferno, depende do comportamento. Nessa hora eu fiquei pensando no comportamento de Iberê. Só falava no inferno, parecia ter estado lá, e poucas palavras sobre o ambiente celestial, o funcionamento do céu, as facilidades, a beleza do paraíso, as recompensas, a abundância, o clima ameno. “Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus”, conforme o Apocalipse (2.7), ou então que seja aqui mesmo na Terra. As coisas seriam resolvidas, conforme os salmos, pois está escrito que os homens morrerão uma só vez, vindo depois disso o Juízo final, que confirma a sentença recebida por cada um no seu juízo particular. Precisamos organizar as idéias, fazer uma cartilha com os principais ditames da nossa religião. Nesse caso, o Assis pode nos ajudar. Além de fotógrafo ele é diagramador. Faz um serviço de primeira.
Num ponto eu sabia por onde pegar Iberê. A Igreja Pentecostal do Evangelho de Jesus era uma bagunça em termos de doutrina e ele precisava de um guia prático, um negócio com começo meio e fim, um Vade-mécum. Na verdade, era uma mistura de várias crenças, além do pentecostalismo, incluindo o catolicismo e a umbanda, com traços esotéricos. Minha ideia: o inferno será o de Dante, sob as ordens e comando do poeta Virgílio, como está na Divina Comédia. O céu a gente constrói a partir da Bíblia e de outros livros da antiguidade, sempre mostrando o lugar do modo mais favorável possível. A terra será um lugar de preparação e aperfeiçoamento, com boas condições de vida para todos, principalmente para a sua, Iberê, e nesse caso temos vasto material teórico. Juntamos tudo em um novo livro, sem desprezar a Bíblia, mas sem nunca esquecer o acabamento, em papel couchê, fotografia caprichada, ilustrações chiques. Eu pensei que Iberê iria encrencar com aquilo, mas não, ele gostou. “A gente começa na semana que vem”, prometeu Iberê. “E Assis?”, eu perguntei. “Assis vem junto”, falou o pastor. (Continua)
No dia seguinte não parei de pensar em Iberê. Comprei um exemplar do jornal de concursos, mas minha situação era mais urgente. Eu precisava sair logo do lava a jato e procurar coisa melhor, um plano de negócio, mas não tinha capital. Daí surgiu a ideia de procurar Iberê, desta vez com outra conversa, uma proposta de trabalho na igreja e no programa dele, um projeto para aumentar a audiência e arrebanhar mais fies, por meio da propaganda em redes sociais, uma coisa in process, como se diz.
Fui atrás de Iberê num sábado de folga. Tudo tinha mudado. Quando falei do projeto de comunicação para a igreja, ele riu, já tinha contratado uma dessas empresas especializadas em Social Media Marketing, com objetivos traçados de acordo com as necessidades do cliente e coisa e tal. O templo tinha sido reformado, havia sofás novos e uma TV de tela plana; lá dentro, no auditório, tudo recém-pintado, com cadeiras da Tok stok brancas. Na frente, duas colunas, meio para o neoclássico, com elementos da arquitetura grega e romana, mas o prédio lembrava mesmo a casa do filme “E o vento levou...”
Iberê tinha carro do ano, cartão de crédito internacional e uma nova mulher, Zilda. Esteve nos EUA fazendo um curso de pastor, num esquema com outra igreja, com sede em Nova Jersey e filiais espalhadas pelo mundo. Era uma espécie de franquia, só que Iberê manteve o nome original, Igreja Pentecostal do Evangelho de Jesus. Fui bem-recebido, conheci os novos empregados e o novo sistema de avaliação de resultados, ou seja, o cara ganhava por produção: arrecadação de dinheiro. “Posso colocar você no projeto”, ela disse. “Mas te quero como pregador”. Eu disse que ia pensar. Iberê não falou no bilhete de despedida nem eu.
No dia seguinte, na chatice do lava a jato, matutei bastante sobre a proposta e pensei que, em termos financeiros, poderia ser compensador. Eu ia ganhar dinheiro falando e poderia dar um toque mais amplo às pregações, graças aos meus conhecimentos de literatura e filosofia, inclusive sobre religiões. Bastava estudar um pouco mais sobre o culto, com ênfase na doutrina do batismo com o Espírito Santo. Iria virar um missionário mesmo sem acreditar naquelas ideias, mas comparei com o lava a jato e conclui que seria um emprego como outro qualquer. Claro que o lava a jato é mais liberal em questões de comportamento, mas eu estava levando uma vida bem regrada, somente preocupado com a sobrevivência, e quase sem beber. Tinha outros poréns. Eu era grato e Iberê, mas continuava achando que ele não agia certo com as pessoas, empurrando aquela pregação goela abaixo, enganando uns e outros, enquanto sua conta bancária só fazia crescer.
Argumentei comigo mesmo, pros e contras, pensei em adotar uma neutralidade ética, coisa pré-aristotélica, assim entendi nos livros - o tal do phatos, se não estou enganado -, e resolvi voltar a Iberê dois dias depois para dizer sim. Vou aceitar, mas impor algumas condições, em relação ao salário e ao discurso; quero um fixo, além do porcentual dos dízimos, e mais liberdade para a pregação, incluindo novos livros, além da Bíblia, na minha conversa com os fiéis e infiéis. O primeiro vai ser A Divina Comédia, que era quase sagrado no seu tempo, e depois virão outros, mais leves, para contribuir com a formação daquele povo tão desprovido de cultural. Não sei o que Iberê vai achar, mas é isso. Finalmente terei parte numa igrejinha literária.
III
Nesse ponto da minha história com Iberê eu queria fazer uma pausa para contar como conheci Assis, o fotógrafo, num restaurante a quilo da Rua Augusta. Sujeito inteligente e frustrado, parecido comigo. Conversa vai, conversa vem e ele me convidou para conhecer seu trabalho numa revista de pornografia, com sede numa casinha do Paraíso. Fui lá e fiquei impressionado. Sentado num banquinho do estúdio, já no dia seguinte, pude observar como funciona esse mundo das publicações de putaria.
“Empina a bunda mais um pouco”, instruía Assis à modelo. Ela pensava já estar empinada o suficiente, mas o fotógrafo queria destacar as reentrâncias de forma mais escancarada ainda, seguindo os padrões de qualidade da revista. Buscava um ângulo novo, embora novidades nessa área não sejam tão valorizadas. Queria compensar a falta de atributos da mulher com uma pose menos usual, sem perder de vista os necessários teores de sacanagem. Mas não havia jeito. A decepção de ambos era visível. Poderia dar um intervalo, comer a modelo, e reiniciar o trabalho, como ocorre com freqüência na publicação pornográfica. Não. Assis foi tomar um café comigo na esquina e maldizer a vida. Ela foi chorar no banheiro.
Soube que Assis e a modelo, Letícia, tinham outros planos de vida. Ela sonhava com as passarelas internacionais quando era mais jovem; ele sonhava com as savanas africanas, os povos do terceiro mundo, uma vida de Sebastião Salgado. Mas estavam ali, no estúdio improvisado, produzindo closes de xerecas para o lupem do punhetariado.
O caso dela foi coração partido. Casou-se, teve um filho, foi abandonada e ficou com cicatriz de cesariana. O dele foi álcool. Como a profissão não decolava e as fotos não renderam o devido reconhecimento, caiu na cerveja até onde o dinheiro dava, depois, quase na miséria, restavam Dreher e 51, as mesmas bebidas que eu tomava antes de ser resgato por Iberê. Quando parou já era tarde. Só apareceu emprego na revista de mulheres nuas, quase pelo avesso, e ele topou. O paudurismo só durou uma semana. Logo, logo o trabalho ficou chato, repetitivo, uma sequência interminável de bundas, linguinhas pra fora, sorrisos falsos, pernas abertas, e o velho fundo escuro do estúdio. Vidinha de merda – e Assis ainda tinha que ajudar na paginação. Mal conversava com as meninas, muito menos saía como elas depois do expediente. Não era moralismo. Achava tudo sem muita imaginação, poderia até inovar, aqui e ali, mas os leitores, digamos assim, nem iriam notar. O cara que compra a revista quer ver xoxota in natura, sem frescuras estéticas, esqueça o Cartier-Bresson. Então eu sugeri a Assis: posso te arrumar uma colocação na Igreja de um amigo, a gente pode produzir uma publicação, house organ, sobre os cultos, as obras sociais, enquanto você faz um trabalho por fora, mais artístico, para seu uso, mostrando a presepada das sessões de cura. Assis ficou curioso, já pensando num livro de arte, com capa dura, e resolveu ir comigo conversar com Iberê.
Assis me acompanhou só para assuntar, mas Iberê não gostou. Quando chegamos ao templo, o pastor perdeu a espontaneidade, ficou com uma conversa que não chegava ao ponto e eu ainda nem tinha entrada em detalhes sobre a função prometida ao meu amigo. Muito menos sobre o conteúdo da minha pregação, capaz de atrair gente da classe média, com mais dinheiro. Finalmente, olhei para Iberê e disse:
- Olha, Iberê, não adianta você se concentrar apenas no pessoal do bairro e no seu público da TV, que no final das contas é a mesma coisa, pobres e ignorante. Sei que você vai concordar comigo. É um homem religioso, mas a mensagem não anda sem o tino empresarial – e você também é bom nisso, eu sei. Não pode restringir sua pregação. Temos que atrair fiéis com conta no banco, situados na sociedade, e para os que já estão aqui, dar uma melhor formação cultural, botar esse povo pra ler e refletir sobre o mundo terreno. Não é o caso de deixar o céu e o inferno no segundo plano, isso não, é arrumar um jeito para lidar com a vida, enquanto Jesus não volta. Jesus é C.E. O; você é o executivo.
Iberê ficou pensativo. Primeiro, disse que sua igreja não previa a volta de Jesus; a pessoa é que vai se encontrar com ele ou desanda pro inferno, depende do comportamento. Nessa hora eu fiquei pensando no comportamento de Iberê. Só falava no inferno, parecia ter estado lá, e poucas palavras sobre o ambiente celestial, o funcionamento do céu, as facilidades, a beleza do paraíso, as recompensas, a abundância, o clima ameno. “Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus”, conforme o Apocalipse (2.7), ou então que seja aqui mesmo na Terra. As coisas seriam resolvidas, conforme os salmos, pois está escrito que os homens morrerão uma só vez, vindo depois disso o Juízo final, que confirma a sentença recebida por cada um no seu juízo particular. Precisamos organizar as idéias, fazer uma cartilha com os principais ditames da nossa religião. Nesse caso, o Assis pode nos ajudar. Além de fotógrafo ele é diagramador. Faz um serviço de primeira.
Num ponto eu sabia por onde pegar Iberê. A Igreja Pentecostal do Evangelho de Jesus era uma bagunça em termos de doutrina e ele precisava de um guia prático, um negócio com começo meio e fim, um Vade-mécum. Na verdade, era uma mistura de várias crenças, além do pentecostalismo, incluindo o catolicismo e a umbanda, com traços esotéricos. Minha ideia: o inferno será o de Dante, sob as ordens e comando do poeta Virgílio, como está na Divina Comédia. O céu a gente constrói a partir da Bíblia e de outros livros da antiguidade, sempre mostrando o lugar do modo mais favorável possível. A terra será um lugar de preparação e aperfeiçoamento, com boas condições de vida para todos, principalmente para a sua, Iberê, e nesse caso temos vasto material teórico. Juntamos tudo em um novo livro, sem desprezar a Bíblia, mas sem nunca esquecer o acabamento, em papel couchê, fotografia caprichada, ilustrações chiques. Eu pensei que Iberê iria encrencar com aquilo, mas não, ele gostou. “A gente começa na semana que vem”, prometeu Iberê. “E Assis?”, eu perguntei. “Assis vem junto”, falou o pastor. (Continua)
quinta-feira, 8 de março de 2012
Iberê (1° parte)
Por esses subúrbios todos eu já passei, rastejando, tomando pinga com desconhecidos, puxando conversa sobre besteiras, indo a lugares perigosos, quase escorrendo junto com a água das latrinas. Vomitava e bebia de novo, os pés inchando, sem carteira assinada, sem contrato com ninguém, nem comigo, porque estive semimorto, mas estava semi-vivo, observando tudo, escrevendo memórias em papel de embrulho, guardando tudo num quarto de pensão do centro, andando, andando, sem dinheiro pro ônibus, sem guarda-chuva na tempestade, ensopado, com dores pelo corpo, enquanto minhas lembranças de amigos e parentes iam sumindo. Eu só estava no momento, sem lembranças de ontem, sem saber o que fazer amanhã, dormindo horas e horas para o tempo passar e chegar a lugar nenhum. O pastor me salvou dessa vida, aleluia. Ele me pegou na Casa Verde, na praça, sentado no chão, e me levou para o templo da redenção, e me deu horas de sono e a bíblia sagrada. No dia seguinte, eu já estava no culto, ainda de ressaca, mas salvo, graças a Deus, aleluia.
Foi assim que conheci Iberê, o pastor salva-vidas, e eu dizia aleluia para sua presença sem, contudo, sentir-me seguro de convicções religiosas. A salvação veio em boa hora, mas poderia ser o governo, o partido comunista, os traficantes do morro, uma loba, um disco voador ou minha mãe. Eu tinha vontade de beber de novo, e bebia escondido dele, mas estava com casa e comida, por enquanto, e poderia comprar uma camisa no armarinho e sair em busca de emprego, nem que fosse no supermercado, embora eu tivesse o segundo grau, lesse tudo, e agora, a Bíblia, não por causa de Jesus, mas pelas palavras, a leitura, as histórias, os evangelhos muito bem encaminhados. Mas quando apareceu um livro de Graciliano Ramos, meio rasgado, no lixo, eu preferi. Lia aquilo de noite e não saia para vaguear pelos pés sujos do Limão, barracas que só tinha conhaque Dreher com limão e de acompanhamento, caldo de mocotó.
Fiquei no fundo do templo, num cubículo, com colchão sem lençol e uma garrafa d’água, além de jornais velhos, Angústia e a Bíblia. Li a Bíblia inteira, umas duas vezes, e Iberê já me achou pronto para ajudá-lo na Praça da Sé, onde ele pregava e uns poucos prestavam atenção, e quando ele estava cansado eu entrava em cena, ameaçando todo mundo com o fogo do inferno, mesmo sem acreditar em nada daquilo, mas sou agradecido a Iberê, ou era, não sei mais, porque ele começou a ter inveja da minha pregação, sem erro de português, pois Iberê não tinha estudo, ia na base da crença, repetindo aleluia, irmão, com muito sentimento e devoção. Um dia ele perguntou se eu estava certo da minha vocação e eu jurei, por nosso senhor Jesus cristo, com punhos cerrados, balançando a cabeça, olhos fechados, aquela munganga toda, e ele disse ta certo, assim, meio desconfiado.
Apesar de sua fé sincera, Iberê era astuto e malandro. Sabia capturar os indefesos na perdição, no inferno do desejo, e transformá-los em quase escravos de uma razão mais política do que religiosa. Iberê me usou para seus objetivos, como ajudá-lo na conversão de infiéis, recuperá-los das sarjetas e, em pouco tempo, criar uma mão de obra barata para o templo, ou seja, para ele mesmo. Por isso, subitamente deixei de ser o pregador da Sé para virar um arrecadador de dízimos. Não questiono a fé de Iberê, questiono a forma como mudou meu jeito. Continuei sem religião – e, no fundo ele sabia -, mas muito útil aos seus negócios. Ele era um teo-empresário guloso e selvagem, pois passei a trabalhar demais em troca de casa, comida e um terno amarfanhado. O pior foi ter mudado meu jeito de escrever. Basta ver o primeiro parágrafo desta confissão e meus rabiscos no papel de embrulho. Fiquei influenciado pelo linguajar da pregação religiosa e depois pelo texto empresarial, errado na língua, mas certeiro em termos de estratégia de mercado. Isso estava no seu instinto. O homem nasceu para ganhar dinheiro e louvar a Deus.
O certo é que um dia pensei em sair, mas não queria voltar à merda de antes. Aproveitaria o terno para procurar emprego. Aproveitei e achei, como administrador de um lava a jato. Deixei um bilhete de despedida para Iberê e sumi de vista. Trabalhava duro e lia nas horas vagas. Fazia ponto em bibliotecas públicas para entender direito o que se passou, desde a idade média para cá, e também antes, a Grécia, saltando logo para o Iluminismo, numa mistureba de Montaigne, Voltaire, Baudelaire, Proust, Flaubert, esses franceses todos, porque eu comecei a gostar muito dos franceses, mas hoje não gosto tanto assim. Embiquei por obras de ateus e teólogos, e achei que estava preparado para coisa melhor em termos de emprego, mas isso não é assim. Se você quer ingressar no mercado de trabalho precisa de uns livros de auto-ajuda empresarial, que são chatos, não tem conteúdo, mas os patrões gostam, acham que aquilo é cultura. Então eu li também uma coleção completa da revista Você S/A, que comprei num camelô. Ele também vendia Playboy antiga, Sexy e outras de mulheres mais peladas ainda, com as xoxotas abertas. Também comprei. Mesmo assim segui no mesmo trabalho, com salário de R$ 1.250, mais vale refeição. (Continua)
Foi assim que conheci Iberê, o pastor salva-vidas, e eu dizia aleluia para sua presença sem, contudo, sentir-me seguro de convicções religiosas. A salvação veio em boa hora, mas poderia ser o governo, o partido comunista, os traficantes do morro, uma loba, um disco voador ou minha mãe. Eu tinha vontade de beber de novo, e bebia escondido dele, mas estava com casa e comida, por enquanto, e poderia comprar uma camisa no armarinho e sair em busca de emprego, nem que fosse no supermercado, embora eu tivesse o segundo grau, lesse tudo, e agora, a Bíblia, não por causa de Jesus, mas pelas palavras, a leitura, as histórias, os evangelhos muito bem encaminhados. Mas quando apareceu um livro de Graciliano Ramos, meio rasgado, no lixo, eu preferi. Lia aquilo de noite e não saia para vaguear pelos pés sujos do Limão, barracas que só tinha conhaque Dreher com limão e de acompanhamento, caldo de mocotó.
Fiquei no fundo do templo, num cubículo, com colchão sem lençol e uma garrafa d’água, além de jornais velhos, Angústia e a Bíblia. Li a Bíblia inteira, umas duas vezes, e Iberê já me achou pronto para ajudá-lo na Praça da Sé, onde ele pregava e uns poucos prestavam atenção, e quando ele estava cansado eu entrava em cena, ameaçando todo mundo com o fogo do inferno, mesmo sem acreditar em nada daquilo, mas sou agradecido a Iberê, ou era, não sei mais, porque ele começou a ter inveja da minha pregação, sem erro de português, pois Iberê não tinha estudo, ia na base da crença, repetindo aleluia, irmão, com muito sentimento e devoção. Um dia ele perguntou se eu estava certo da minha vocação e eu jurei, por nosso senhor Jesus cristo, com punhos cerrados, balançando a cabeça, olhos fechados, aquela munganga toda, e ele disse ta certo, assim, meio desconfiado.
Apesar de sua fé sincera, Iberê era astuto e malandro. Sabia capturar os indefesos na perdição, no inferno do desejo, e transformá-los em quase escravos de uma razão mais política do que religiosa. Iberê me usou para seus objetivos, como ajudá-lo na conversão de infiéis, recuperá-los das sarjetas e, em pouco tempo, criar uma mão de obra barata para o templo, ou seja, para ele mesmo. Por isso, subitamente deixei de ser o pregador da Sé para virar um arrecadador de dízimos. Não questiono a fé de Iberê, questiono a forma como mudou meu jeito. Continuei sem religião – e, no fundo ele sabia -, mas muito útil aos seus negócios. Ele era um teo-empresário guloso e selvagem, pois passei a trabalhar demais em troca de casa, comida e um terno amarfanhado. O pior foi ter mudado meu jeito de escrever. Basta ver o primeiro parágrafo desta confissão e meus rabiscos no papel de embrulho. Fiquei influenciado pelo linguajar da pregação religiosa e depois pelo texto empresarial, errado na língua, mas certeiro em termos de estratégia de mercado. Isso estava no seu instinto. O homem nasceu para ganhar dinheiro e louvar a Deus.
O certo é que um dia pensei em sair, mas não queria voltar à merda de antes. Aproveitaria o terno para procurar emprego. Aproveitei e achei, como administrador de um lava a jato. Deixei um bilhete de despedida para Iberê e sumi de vista. Trabalhava duro e lia nas horas vagas. Fazia ponto em bibliotecas públicas para entender direito o que se passou, desde a idade média para cá, e também antes, a Grécia, saltando logo para o Iluminismo, numa mistureba de Montaigne, Voltaire, Baudelaire, Proust, Flaubert, esses franceses todos, porque eu comecei a gostar muito dos franceses, mas hoje não gosto tanto assim. Embiquei por obras de ateus e teólogos, e achei que estava preparado para coisa melhor em termos de emprego, mas isso não é assim. Se você quer ingressar no mercado de trabalho precisa de uns livros de auto-ajuda empresarial, que são chatos, não tem conteúdo, mas os patrões gostam, acham que aquilo é cultura. Então eu li também uma coleção completa da revista Você S/A, que comprei num camelô. Ele também vendia Playboy antiga, Sexy e outras de mulheres mais peladas ainda, com as xoxotas abertas. Também comprei. Mesmo assim segui no mesmo trabalho, com salário de R$ 1.250, mais vale refeição. (Continua)
domingo, 4 de março de 2012
Maconha
Quero ver quem vai garantir o meu de hoje. Quero ficar na cara, não, visse. Não é assim que dizem na minha terra? Visse. Serve pra tudo: pergunta, resposta, ameaça, etc. Te cuida, visse. Mas não era disso q’eu estava falando; é sobre passar o dia sem uma presença, pelo menos uns tapas, porque a pessoa não pode viver sóbria o tempo todo e é isso a causa de muitas doenças, pois ficar sem maconha significa que você (eu, no caso) será envolvido por preocupações e problemas, seguindo daí uma série de coisas que encaminham o sujeito para uma velhice das piores ou mata ainda cedo, de ataque cardíaco ou qualquer merda dessas. Voltando, pois, ao assunto principal: onde vou arranjar fumo?
Hoje tem duas possibilidades. Primeiro é a casa de Lurdinha, mas ela anda tão amarga, e chegar assim de repente, só com o objetivo de fazer a cabeça, fica deselegante demais, negócio de maloqueiro da pior espécie, e eu acho que não vou fazer isso, não. O plano B é uma festa de jovens subjetivos, moças bonitas, nenhum playboy, quadrinhos pornográficos, conversas sobre o fim do capitalismo, todo mundo contra qualquer censura na Internet; enfim, gente boa. Vou nessa festa. Conheço a menina que vai botar som e dois produtores de cinema, além de uma enorme gama de produtores de outras artes, especialmente teatro, literatura e eventos governamentais da área de cultura. Tem também gente que gosta de circo e anarquistas.
Neste ponto, salvo engano, já estou na festa. Nunca sei quando é “neste” ou “nesse”, mas isso é outra história. O número do lugar confere, é aqui. Está animada, com repertório entre Zeca Pagodinho e Arvo Pärt, passando por quase todos os gêneros para não deixar ninguém insatisfeito ou porque eles são assim mesmo, ecléticos. Posso dizer que me deixam à vontade, entro num grupo, saio pra outro, até chegar numa rodinha, esperar a minha vez, não ser fominha, rodar na paulista, porque tem muita gente aqui a fim de fumar. O principal, então, aconteceu. Estou levemente alterado, mais descansado, pensando uns absurdos bons, mas me deu agora certa agonia. Vou sair à francesa, pegar um táxi, embora a festa esteja ótima, especialmente para quem está dançando, mas o problema é que eu não danço, fico só olhando, e quando passa o efeito do fumo, ou mesmo no meio, eu quero sair. Não é paranóia, é falta de jeito para ambientes dançantes.
Antes de todo mundo cair na pista ainda dava. Foi nessa hora que um amigo explicou como será dará o fim do capitalismo. Ele também tinha fumado, é claro, mas foi uma conversa interessante, cheia de dados, declarações de economistas; o rapaz conhecia tudo e então resolvi não argumentar contra, mesmo porque eu não tenho nada a perder com o socialismo, ressaltando-se essa história de não pode isso, não pode aquilo, que também acontece na direita; é uma discussão longa, e resolvi encerrar o assunto com o tradicional “pois é...”
O certo é que volto para casa. Já estou em casa. O meu espírito não fracassou, eis a verdade. Pensei em pedir uma presença daquela moça dos malabares, mas ela tinha tão pouquinho. Fui correto. Mas sempre tem o outro lado: estou careta de novo. Queria um pra ver um filme e depois dormir. Começo a vasculhar a casa e quem esperava uma daquelas agônicas procuras, com final infeliz, se estrepou. Vou usar “eis” de novo. Eis que surge, diante dos meus olhos, sua excelência, a baga. Uma baga de bom tamanho, esquecida talvez de propósito. Sou do tipo que perde uma baga aqui e ali só para ter o prazer de encontrá-la por acaso ou numa procura desesperada.
O filme começou e sinceramente não estou entendendo. O pior é que se trata de um filme simples, sem maiores elucubrações, mas tenho a mania de tentar remontar o roteiro à minha moda, complicando situações, como o ato de tirar o carro da garagem. O cara já pensa em Road-movie. O ator sai da garagem rumo ao desconhecido, não quer existir mais, meio Passageiro - Profissão Repórter, mas não ficaria por ai, a paisagem seria o deserto e um bom discurso sobre a cultura norte-americana do século 20 daria conta do resto. Mas o miserável pega o carro apenas para ir ao supermercado e depois, pior, volta e estaciona o carro novamente. Rola depois um almoço em família e perguntas do tipo “como vai na escola?” ao filho cabisbaixo. Não entendi e mudei de canal.
Mas há uma programação feita sob medida para maconheiros: os especiais sobre o universo. Como tudo começou? O big Bang, os buracos negros, as galáxias e as possibilidades de um asteróide atingir a terra no fim do ano. Esses programas normalmente terminam sem acontecer nada, uma vez que o narrador tranquiliza a todos, depois de ter criado o maior pânico, mostrando aquele pedregulho batendo no meio dos Estados Unidos. Até hoje não sei a razão dessa preferência de alienígenas e asteróides pelos Estados Unidos. Mas isso é outra história. É a segunda vez que digo “isso é outra história”, mas não tem importância, os melhores escritores americanos do Norte repetem uma palavra não sei quantas vezes e foda-se. Queria dizer que as Imagens do asteróide e da terra são feitas no computador e mesmo assim uma amiga minha já sentiu um baque pros lados da Jaraguá quando o Planeta virou em pedaços. Isso não interessa muito a quem está acostumado a ver essas TVs de Ciência, nem se assusta mais, porque no final eles vão dizer que todo aquilo que disseram era mentira. O que vale é o mistério. Ai você fica viajando nas mais espetaculares teorias, que não são espetaculares nem teoria, mas naquela hora funcionam, é uma beleza. Então você esquece tudo, fica ali navegando entre as estrelas, come banana com leite Moça, e depois dorme.
Hoje tem duas possibilidades. Primeiro é a casa de Lurdinha, mas ela anda tão amarga, e chegar assim de repente, só com o objetivo de fazer a cabeça, fica deselegante demais, negócio de maloqueiro da pior espécie, e eu acho que não vou fazer isso, não. O plano B é uma festa de jovens subjetivos, moças bonitas, nenhum playboy, quadrinhos pornográficos, conversas sobre o fim do capitalismo, todo mundo contra qualquer censura na Internet; enfim, gente boa. Vou nessa festa. Conheço a menina que vai botar som e dois produtores de cinema, além de uma enorme gama de produtores de outras artes, especialmente teatro, literatura e eventos governamentais da área de cultura. Tem também gente que gosta de circo e anarquistas.
Neste ponto, salvo engano, já estou na festa. Nunca sei quando é “neste” ou “nesse”, mas isso é outra história. O número do lugar confere, é aqui. Está animada, com repertório entre Zeca Pagodinho e Arvo Pärt, passando por quase todos os gêneros para não deixar ninguém insatisfeito ou porque eles são assim mesmo, ecléticos. Posso dizer que me deixam à vontade, entro num grupo, saio pra outro, até chegar numa rodinha, esperar a minha vez, não ser fominha, rodar na paulista, porque tem muita gente aqui a fim de fumar. O principal, então, aconteceu. Estou levemente alterado, mais descansado, pensando uns absurdos bons, mas me deu agora certa agonia. Vou sair à francesa, pegar um táxi, embora a festa esteja ótima, especialmente para quem está dançando, mas o problema é que eu não danço, fico só olhando, e quando passa o efeito do fumo, ou mesmo no meio, eu quero sair. Não é paranóia, é falta de jeito para ambientes dançantes.
Antes de todo mundo cair na pista ainda dava. Foi nessa hora que um amigo explicou como será dará o fim do capitalismo. Ele também tinha fumado, é claro, mas foi uma conversa interessante, cheia de dados, declarações de economistas; o rapaz conhecia tudo e então resolvi não argumentar contra, mesmo porque eu não tenho nada a perder com o socialismo, ressaltando-se essa história de não pode isso, não pode aquilo, que também acontece na direita; é uma discussão longa, e resolvi encerrar o assunto com o tradicional “pois é...”
O certo é que volto para casa. Já estou em casa. O meu espírito não fracassou, eis a verdade. Pensei em pedir uma presença daquela moça dos malabares, mas ela tinha tão pouquinho. Fui correto. Mas sempre tem o outro lado: estou careta de novo. Queria um pra ver um filme e depois dormir. Começo a vasculhar a casa e quem esperava uma daquelas agônicas procuras, com final infeliz, se estrepou. Vou usar “eis” de novo. Eis que surge, diante dos meus olhos, sua excelência, a baga. Uma baga de bom tamanho, esquecida talvez de propósito. Sou do tipo que perde uma baga aqui e ali só para ter o prazer de encontrá-la por acaso ou numa procura desesperada.
O filme começou e sinceramente não estou entendendo. O pior é que se trata de um filme simples, sem maiores elucubrações, mas tenho a mania de tentar remontar o roteiro à minha moda, complicando situações, como o ato de tirar o carro da garagem. O cara já pensa em Road-movie. O ator sai da garagem rumo ao desconhecido, não quer existir mais, meio Passageiro - Profissão Repórter, mas não ficaria por ai, a paisagem seria o deserto e um bom discurso sobre a cultura norte-americana do século 20 daria conta do resto. Mas o miserável pega o carro apenas para ir ao supermercado e depois, pior, volta e estaciona o carro novamente. Rola depois um almoço em família e perguntas do tipo “como vai na escola?” ao filho cabisbaixo. Não entendi e mudei de canal.
Mas há uma programação feita sob medida para maconheiros: os especiais sobre o universo. Como tudo começou? O big Bang, os buracos negros, as galáxias e as possibilidades de um asteróide atingir a terra no fim do ano. Esses programas normalmente terminam sem acontecer nada, uma vez que o narrador tranquiliza a todos, depois de ter criado o maior pânico, mostrando aquele pedregulho batendo no meio dos Estados Unidos. Até hoje não sei a razão dessa preferência de alienígenas e asteróides pelos Estados Unidos. Mas isso é outra história. É a segunda vez que digo “isso é outra história”, mas não tem importância, os melhores escritores americanos do Norte repetem uma palavra não sei quantas vezes e foda-se. Queria dizer que as Imagens do asteróide e da terra são feitas no computador e mesmo assim uma amiga minha já sentiu um baque pros lados da Jaraguá quando o Planeta virou em pedaços. Isso não interessa muito a quem está acostumado a ver essas TVs de Ciência, nem se assusta mais, porque no final eles vão dizer que todo aquilo que disseram era mentira. O que vale é o mistério. Ai você fica viajando nas mais espetaculares teorias, que não são espetaculares nem teoria, mas naquela hora funcionam, é uma beleza. Então você esquece tudo, fica ali navegando entre as estrelas, come banana com leite Moça, e depois dorme.
sexta-feira, 2 de março de 2012
A virgem flutuante
Todos se preocupam com ela, a frágil e delicada, encerrada a maior parte do dia em seu quarto, enquanto o dia corre, enquanto a madrugada não chega. Então ela abre a porta, há silêncio na casa, e quem resiste ao sono não pode espantar-se nem fazer de conta que não a viu. Pode dizer “oi”, mas não pode fazer perguntas. Sua saúde é delicada, sua pele é branca, quase transparente. Nunca riu, nunca chorou em público, mas inquieta-se de uma maneira especial, cobrindo o rosto com as mãos, num movimento suave, sanctus. O pai é cuidadoso e quando vê a filha, como se vê um fantasma, pensa no poema japonês – a borboleta pousada em um sino de bronze. Um contraste enorme. Ao menor sinal de agitação externa, ela desmaia. Nessas horas tão frequentes não gosta de ser reanimada por terceiros. Vai e volta por conta própria. Ninguém arruma suas coisas. A cama está eternamente composta, pois parece não fazer pressão sobre a colcha branca. Talvez não durma ou durma o tempo inteiro – ninguém sabe - ou levite como Santa Teresa de Ávila.
Aos 18 anos, nunca saiu pela porta da rua, não tem amigos e trata a família com uma indiferença não ofensiva. Todos se preocupam com ela, mas estão acostumados com seu jeito. Parece líquida. Parece um vento fraco. Às vezes não toca na bandeja com frutas deixada todos os dias em cima da mesa. O médico tem licença para entrar, tomar seu pulso e temperatura. Uma vez por ano. Nunca viu sinais de menstruação, não está autorizado a entrar no banheiro, solicitar exames ou avaliar seu corpo sem a camisola azul, vestida dos pés à cabeça.
Ela é uma pluma, assim parece, mas guarda segredos. Nos momentos em que a casa dorme, a pequena indolente transforma-se no inverso, vira-se pelo avesso, num espetáculo de selvageria e sexo. Um bando de homens imaginários ou entrados pela janela enrosca-se em seu corpo grácil e sutil e, no auge das estripulias, ela se transmuta na pequena diaba, alucinada e febril, suando litros e emitindo gemidos de animais no cio. A lava escorre do pensamento, ex-votos eróticos se despregam das paredes. No dia seguinte, todos os sinais desaparecem, sangue e contrações do delírio, e por baixo da camisola só ficam as cicatrizes, cada vez mais fundas. As chamas se apagam, a fogueira some e a bruxa volta ao estado de casticismo, flutuando no quarto, em profundo silêncio.
Aos 18 anos, nunca saiu pela porta da rua, não tem amigos e trata a família com uma indiferença não ofensiva. Todos se preocupam com ela, mas estão acostumados com seu jeito. Parece líquida. Parece um vento fraco. Às vezes não toca na bandeja com frutas deixada todos os dias em cima da mesa. O médico tem licença para entrar, tomar seu pulso e temperatura. Uma vez por ano. Nunca viu sinais de menstruação, não está autorizado a entrar no banheiro, solicitar exames ou avaliar seu corpo sem a camisola azul, vestida dos pés à cabeça.
Ela é uma pluma, assim parece, mas guarda segredos. Nos momentos em que a casa dorme, a pequena indolente transforma-se no inverso, vira-se pelo avesso, num espetáculo de selvageria e sexo. Um bando de homens imaginários ou entrados pela janela enrosca-se em seu corpo grácil e sutil e, no auge das estripulias, ela se transmuta na pequena diaba, alucinada e febril, suando litros e emitindo gemidos de animais no cio. A lava escorre do pensamento, ex-votos eróticos se despregam das paredes. No dia seguinte, todos os sinais desaparecem, sangue e contrações do delírio, e por baixo da camisola só ficam as cicatrizes, cada vez mais fundas. As chamas se apagam, a fogueira some e a bruxa volta ao estado de casticismo, flutuando no quarto, em profundo silêncio.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Literatura e materiais de construção
Não sonhava em terminar sem nada, embora nada tivesse. Jovem trata a pobreza de outra forma, encontra diversão e arte em qualquer canto: entradas francas, bocas livres, almoços grátis, cigarros filados, mulheres e punhetas. Mas na meia idade começou a reclamar da sorte. Logo ele, tão inteligente, colegial completo, dado à escrita, estava num emprego vagabundo, há 30 anos, vendendo material de construção na loja de um amigo.
À noite escrevia um longo romance de aventuras, mas o personagem central, o herói, era sempre sacrificado pelas condições do narrador. A aventura era simplesmente sobreviver como vendedor de material de construção. Aos poucos, o livro estava cheio de blocos cerâmicos, argamassa, cantoneiras, rejuntes, cal hidratada, tijolos vazados, pias, azulejos e louças sanitárias. O personagem se movia entre coberturas de Eternit (tropicais e ondulados), enquanto sua amada cumpria expediente, no mesmo estabelecimento, na seção de iluminação, catalogando modelos de interruptores com múltiplas funções, lâmpadas halógenas (de preferência dimerizadas), abajures, lustres e arandelas.
Conseguia encadear suas idéias, mas elas pertenciam exclusivamente ao mundo da construção, acabamento e decoração de interiores. Um salto em outra direção tornou-se necessário quando ele descobriu que sua vocação era mesmo a literatura. A primeira providência: viver uma vida fora da loja. Pedir demissão. Correr o mundo. Tinha 43 anos. Saiu da loja para ser aventureiro ao estilo Rimbaud, que ele conhecia de nome, não de leitura. Trocou a carteira assinada por uma passagem de ida para a África.
Naquele pequeno país conheceu de tudo, a começar pela guerra, a fome e a insegurança. Lutou ao lado dos rebeldes, que logo tomaram o governo e viraram tão facínoras quanto seus antecessores. Daí mudou para outro país, tão precário e pobre quanto o primeiro, mas em reconstrução. Não escreveu uma linha sobre a fase africana, pois tinha ocupações demais, negócios com armas, coisa perigosa, e dois filhos para criar no meio da terra arrasada.
Aos 50 anos, chegou a hora de pensar numa vida mais segura naquele pedaço do mundo que precisava de tudo, especialmente de material de construção. Montou uma lojinha, ele e a mulher, e o casal voltou à rotina: anéis de vedação, areia, caixas d’água, sifões, suportes, massa corrida, forro PVC, telhas, bandejas para pintura plástica, cimento, ripas, sarrafos, vigas, caibros, tubos e conexões.
O livro sairia um ano depois. Nada sobre a fúria da guerrilha, nenhum parágrafo sobre a miséria, campos de refugiados ou corpos ao relento. Sua literatura estava assentada em cal e cimento, revestida com mármore e granito. Fino acabamento, concisão e leveza de materiais, sem exagero nas tintas. Uma bela obra.
À noite escrevia um longo romance de aventuras, mas o personagem central, o herói, era sempre sacrificado pelas condições do narrador. A aventura era simplesmente sobreviver como vendedor de material de construção. Aos poucos, o livro estava cheio de blocos cerâmicos, argamassa, cantoneiras, rejuntes, cal hidratada, tijolos vazados, pias, azulejos e louças sanitárias. O personagem se movia entre coberturas de Eternit (tropicais e ondulados), enquanto sua amada cumpria expediente, no mesmo estabelecimento, na seção de iluminação, catalogando modelos de interruptores com múltiplas funções, lâmpadas halógenas (de preferência dimerizadas), abajures, lustres e arandelas.
Conseguia encadear suas idéias, mas elas pertenciam exclusivamente ao mundo da construção, acabamento e decoração de interiores. Um salto em outra direção tornou-se necessário quando ele descobriu que sua vocação era mesmo a literatura. A primeira providência: viver uma vida fora da loja. Pedir demissão. Correr o mundo. Tinha 43 anos. Saiu da loja para ser aventureiro ao estilo Rimbaud, que ele conhecia de nome, não de leitura. Trocou a carteira assinada por uma passagem de ida para a África.
Naquele pequeno país conheceu de tudo, a começar pela guerra, a fome e a insegurança. Lutou ao lado dos rebeldes, que logo tomaram o governo e viraram tão facínoras quanto seus antecessores. Daí mudou para outro país, tão precário e pobre quanto o primeiro, mas em reconstrução. Não escreveu uma linha sobre a fase africana, pois tinha ocupações demais, negócios com armas, coisa perigosa, e dois filhos para criar no meio da terra arrasada.
Aos 50 anos, chegou a hora de pensar numa vida mais segura naquele pedaço do mundo que precisava de tudo, especialmente de material de construção. Montou uma lojinha, ele e a mulher, e o casal voltou à rotina: anéis de vedação, areia, caixas d’água, sifões, suportes, massa corrida, forro PVC, telhas, bandejas para pintura plástica, cimento, ripas, sarrafos, vigas, caibros, tubos e conexões.
O livro sairia um ano depois. Nada sobre a fúria da guerrilha, nenhum parágrafo sobre a miséria, campos de refugiados ou corpos ao relento. Sua literatura estava assentada em cal e cimento, revestida com mármore e granito. Fino acabamento, concisão e leveza de materiais, sem exagero nas tintas. Uma bela obra.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
O Voo
O que faz um velho sem condições de trabalhar? O dinheiro da aposentadoria não dava para o aluguel, a família sumiu, os amigos morreram e o orgulho e a dignidade impediam que saísse por ai, a pedir empréstimos e esmolas. Então decidiu morrer. Um prédio alto do centro, um voo, a queda. Os órgãos públicos, enfim, tratariam dele da melhor forma possível: limpeza do sangue no asfalto e enterro de indigente.
Deixaria uma carta seca, com observações técnicas sobre o sistema previdenciário, e um pedido de desculpas ao condomínio do edifício de onde alçaria seu voo. Nenhuma referência a suicídio. A palavra “voo”, de acordo com a reforma ortográfica, sem circunflexo, soaria menos dramática. Morrer, afinal, não é uma coisa de outro mundo, e se caísse na eternidade – duvidava -, talvez as condições fossem mais adequadas.
Ao meio dia de uma terça-feira, o velho voou.
Deixaria uma carta seca, com observações técnicas sobre o sistema previdenciário, e um pedido de desculpas ao condomínio do edifício de onde alçaria seu voo. Nenhuma referência a suicídio. A palavra “voo”, de acordo com a reforma ortográfica, sem circunflexo, soaria menos dramática. Morrer, afinal, não é uma coisa de outro mundo, e se caísse na eternidade – duvidava -, talvez as condições fossem mais adequadas.
Ao meio dia de uma terça-feira, o velho voou.
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