segunda-feira, 15 de abril de 2019

Geometria




Eles caíam aos poucos, em câmara lenta, embora um observador pudesse vê-los caindo de uma vez - uma queda seguida do baque seco e finalmente corpos inertes no chão. Alguns se mexiam; outros, não. Quem caía, no entanto, experimentava um demorado suplício, e sem a aceleração própria da gravidade. Uma viagem vertical em que os pensamentos eram repassados como uma via sacra, compactando os piores momentos da vida, os maiores desatinos, a vergonha, o medo e a dor. Mas havia também um cotidiano, famílias, expedientes, contas a pagar e até o simulacro de um governo. Não estavam ali por vontade própria nem foram empurrados. Só estavam naquela situação e não havia como explicar por que caíam.

Durante a queda conseguiam manter contato com outros cadentes de longo prazo. Questionavam a razão de estarem ali e estavam certos de não tratar-se de um simbolismo sobre a existência ou algo parecido. Era um acontecimento físico e envolvia centenas, talvez milhares, de seres desinformados. Um fenômeno recente da natureza em contradição com certas leis estabelecidas. Sabiam que não estavam num precipício – era uma queda em si, feita sob medida para determinadas pessoas, como um castigo ou um destino. Os observadores, por sua vez, estavam igualmente espantados. Tanto por verem tanta gente nessa trajetória quanto por temerem que eles também pudessem desabar de uma hora para outra. O mundo, naquela época, basicamente era isso. Os que caiam e os que observavam. A instabilidade, portanto, afetava todos.

No meio da queda havia tempo e espaço para refletir sobre aquilo. Nenhuma explicação razoável, mas tentativas de encontrar uma saída – a interrupção da queda, o despertar de um pesadelo, a revelação de que tudo não passava de uma brincadeira – uma pegadinha da TV, embora muitos já estivessem acostumados à queda e procuravam levar a vida como se nada demais estivesse acontecendo. Despertavam, no entanto, quando vinham as partes mais difíceis do processo: pesadelos vívidos e realidade num só bloco, situações tão assombrosas que faziam o sonhador preferir voltar à queda regular do dia a dia.

A velocidade era igual para todos na mesma linha de queda e nesse ritmo as mesmas coisas e pessoas estavam num mesmo plano, como a banca de revista, que cai junto com a mulher que compra um jornal, sendo que mais adiante – ou mais embaixo, que seja – não existem mais jornais nem revistas.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

Armas



Não fazer gestos bruscos porque se fizer eles disparam. Também nos instruíram a não emitir opiniões divergentes, em qualquer língua, pois se atiram a esmo, por nada, podem muito bem atirar numa pessoa capaz de contrariá-los. Portanto, não se pode falar sobre determinados assuntos e muitos preferem ficar em casa – deixam até de ir ao trabalho -, com medo das armas engatilhadas na cidade.  Apertam o gatilho por qualquer coisinha.

Portanto, levantar dados sobre o país tem sido uma tarefa complicada. O fato de ser estrangeiro ajuda, mas ser jornalista atrapalha. O rapaz com um rifle de assalto Heckler e Koch - calibre de 5,56 mm e alcance de 600 metros - foi o que pareceu mais amistoso e, após cautelosas tentativas de aproximação dispôs-se a falar, mas exclusivamente sobre armas. Nada de política, disse.

Ele não está inteiramente satisfeito com o equipamento atual. Espera um financiamento do governo para adquirir uma metralhadora MG3 - calibre de 7,62 mm, alcance efetivo de 1200 metros, 1000-1300 tiros por minuto, conforme o manual de instrução na Internet.  Seu rendimento, porém, tem sido elogiado com a Hecker e Koch. Matou 26 no mês passado, quase todos vadios e viciados, segundo ele.

No final do dia, ele e seus amigos se reúnem em um bar para comentar as ações do dia, as estatísticas, o desempenho de cada um e a chance de obter uma promoção, talvez um patrocínio. É preciso aproveitar as oportunidades.  

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O homem na caixa



“Primeiro inchou. Depois a pele dele ficou brilhante, mas quebradiça, como um leitão à pururuca - aparência crocante, escamas em formato de cheetos, creca de um corpo já passado dos setenta e coçava. Coçava e expelia uma nuvem de poeira, apesar dos cremes umectantes e dos banhos de óleo. Um dia ele caiu no banheiro e a cobertura quebrou-se, misturou-se à água, escorreu pelo ralo, dissolvida, uma sopa. Sobraram os órgãos internos, de aparência sadia, e uma cabeça em carne viva pedindo socorro. Chegaram a tempo de recolher o amontado – miúdos, músculos, a fáscia e o crânio, a rete mirabili, o osso occipital; a coluna solta, mexendo-se como duas centopeias entrelaçadas” (O cuidador).

Aquilo coube em uma caixa sem tampa – em cima, a cabeça; embaixo, o resto. Como manter viva tão intensa personalidade do nosso tempo? Houve sugestões, consultas a médicos, telefonemas para especialistas em diversas áreas. Por alguma razão, o homem não sentia dores, apenas incômodo e vergonha, pois estava mais nu do que nu, camadas a menos do nu. Pensava em terno e gravata, solenidades no Rotary, política e salvação da alma, caso contrário a vida não teria sentido. Ou teria? O homem que se preocupava com a imagem pública, descuidou-se da saúde. Por que não salvou a própria pele? Por que não deu atenção aos sintomas, muito raros, por sinal. Como exercitar a vaidade naquelas condições?

Pesava na morte, embora aquela consciência já fosse alguma coisa; não queria perdê-la, por enquanto. “Ainda sou eu”, disse ele a seu cuidador, em tom afirmativo, dentes simétricos no meio de um rosto em brasa. O cuidador acostumou-se “à forma da massa informe”, conforme escreveu anos depois, ao tornar-se escritor pouco lido e dado a jogos com palavras parecidas.   

Todos os cuidados com a assepsia foram tomados para o homem sem crosta e misteriosamente sem hemorragias. Um quarto especial, refrigerado, inteiramente branco, sem janelas e projeções de imagens agradáveis na parede: infância num bairro aristocrático, colégio interno, formação em Direito, discursos, opúsculos, viagens a convite de ditadores latino-americanos. Uma retrospectiva ao estilo Facebook, intercalada com projeções de textos integralistas de Gustavo Barroso, Miguel Reale e Plínio Salgado.

O cuidador não perdia a paciência, não perdia nenhum detalhe (anotava), não perdia o senso de oportunidade. Nem mesmo diante de exigências de seu patrão, aos gritos:
- Quero uma tampa decente – ordenava o homem de cara desencapado, com esse tom pedante, enquanto imaginava uma saída. Era preciso fechar a caixa, com buracos para a entrada do ar e saída da voz. Ele precisava falar, expor suas qualidades internas de cristão injustamente condenado àquele destino ou àquele acaso. Assim foi feito. No lado externo da caixa, o sinal que lhe daria identidade a partir de então: ∑. 

No entanto, ainda havia coisas a fazer e na ordem de preferências do homem em pedaços estava uma cadeira no Senado.

Desejo atendido por correligionários, curiosos e entidades de classe. Campanha difícil para um não intacto. Tudo pelas redes sociais: um pouco de sua história, uma candidatura a serviço da ordem e em nome de Deus.  A situação em que se encontrava, com preocupações muito práticas – “cadê meu pulmão esquerdo?”, por exemplo -, não lhe tirava a carência por votos, segundo relato do cuidador num livro chamado “O Cuidador”.

Um dia o sistema das duas caixas deixaria de funcionar, mas haveria a posteridade, um nome eterno na lembrança de seus compatriotas, caso não houvesse outro lado, o paraíso com sua promessa de eternidade, ou um inferno cercado por uma tampa de quilômetros e quilômetros. O importante veio de um eleitorado disposto a mudar. O homem que não aparecia na TV teve seu drama exposto em pequenos textos nas redes, explicando que seu estado não o impedia de servir à pátria, a Deus e à família.


quarta-feira, 7 de novembro de 2018

L.





L. gosta daquele momento, o de escrever uma coisa e depois dizer de si para si “que texto do caralho!”. Levanta-se da cadeira, volta, uma segunda lida e a expressão de contentamento, enquanto a mulher prepara o café solúvel. Três anos sem emprego e a vaidade continua intacta, mesmo quando a mulher reclama de sua preguiça na hora de lavar os pratos ou varrer a sala.  Neste tempo ainda há anúncios classificados no jornal.  Ela: “Eu vi que tem uma vaga de subeditor numa revista imobiliária". Jamais ele iria aceitar aquilo, imóveis; queria o suplemento de cultura do maior jornal da cidade, talvez do país, já ocupado por um jovem com doutorado em Yale.
-.-
L. sente a indireta com a história do emprego – pobre coitada, pensa – e vai lá fora fumar um cigarro. Ela trabalha no tribunal, concursada, e ele deixou de participar do orçamento assim que acabou o fundo de garantia. Passa o dia escrevendo suas memórias romanceadas. Um dia ela se vê sozinha em casa, abre o computador, lê um pedaço e acha aquilo uma merda. Acha também que deveria ser mais clara, “olha, não vai dar etc.”, mas desiste porque não quer afetar uma pessoa tão próxima, um casamento de vinte anos, mesmo um casamento naquela fase em que cada um cuida de si. Apesar de tudo uma convivência a ser preservada, como se L. fosse um animal doméstico.  Baixa a tampa do laptop, um dos primeiros desse modelo, e dá fim ao velório do texto - cheio de interjeições, frases de efeito; as sacadas, como ele diz com frequência.
-.-
Uma sensação estranha persiste, a cronologia precária - a sensação de que o tempo não passa como deveria.  O agora parece esticado ao máximo e o que deveria ter sido ainda é.  O tecido em que se encontra está parado; apenas se desloca no espaço, conforme ele supõe, baseado na Relatividade Geral. Sua mulher acha que L. precisa tomar remédio para uma síndrome que viu na Internet, capaz de provocar esse efeito indesejável, que é descobrir que o tempo é mesmo uma ilusão, e acostumar-se com isso. Apenas deslocar-se no espaço. Nem ontem, nem amanhã.
-.-
L. só consegue escrever nas piores condições, como agora, diante de tanto aperto no coração, apesar dos comprimidos. Mas só escrever não funcionava. Queria ir à guerra, às últimas consequências, até descobrir que estava mal acompanhado nessa empreitada. Pelo menos em termos militares. A coragem brotou de uma vez na semana decisiva, em que o País poderia enveredar por um caminho turbulento, ou por coisa muito pior, e ele estava deposto a enfrentar o adversário em seu próprio campo. Mas a análise da situação, como fazia no Diretório Estudantil, deu-lhe o bom senso de ficar calado e voltar aos livros.
-.-
L. surpreendeu-se ao receber uma advertência das autoridades. Queriam esclarecimentos sobre sua inadimplência com o erário de Salomão e mais ainda sobre um artigo que escrevera para uma publicação semiclandestina, classificado pelos censores do regime na categoria de “Contra Deus”. Tratava-se de um pequeno ensaio sobre coisas antigas, como o Estado laico, mas o comitê pentecostal não gostou. L. manteve a calma e ainda brincou consigo mesmo: “finalmente Deus encontrou um adversário à altura”. Na manhã seguinte, as seis em ponto, chegaram os Homens de Cristo, com seus fuzis automáticos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Urubus da Sala




Meu livro "Urubus da Sala" sairá pela editora Casa Forte Publishing, versão em inglês (Vultures in the living room), com bela tradução de Helena Cavendish. Enquanto isso, alguns pequenos contos já estão publicados em formato digital, um a um. Não é um procedimento usual, mas no ano que vem também haverá a edição em Português. Caso haja literatura no Brasil em 2019.



CASA FORTE PUBLISHING

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Mar de lama



O navio corre da terra que se dissolve no oceano e dá para ver a lama da proa e da popa. Pelo rádio, no último contato, informaram sobre a existência de um fenômeno ainda sem nome. A preocupação das autoridades era não criar pânico, mas isso foi há dois dias. Não se sabe se ainda há autoridades no continente e se ainda há continente. Pelo binoculo: tudo se passa devagar, um tsunami lento e pastoso movendo-se como no início dos tempos, em dois sentidos. Não temos a menor ideia para uma solução parcial do drama que nos envolve e pode mudar tudo. Em algum momento será preciso avisar aos passageiros que o porto de destino não existe mais – nem o de origem. A bordo, no entanto, o cruzeiro segue como cruzeiro e não como retirada de emergência: jogos no cassino, camas arrumadas, casais de idosos na última viagem.

O barco é imenso e os passageiros não sabem o que se passa. Quando embarcaram tudo estava normal. Para manter as pessoas longe do convés, foi anunciada uma falsa previsão de tempestade. O navio é seguro, mostram os folhetos, e há muita diversão a bordo. Todos na ponte de comando estão atentos e preocupados.

Adélia está em sua cabine. Olha pela escotilha e vê pássaros desorientados. Não há de ser nada. Não sabe sobre pássaros e suas migrações.  Pensa em Otavio, na noite anterior, e como são chatos os cruzeiros. Por que um homem estaria só, num transatlântico de 230 mil toneladas e 5.999 mil estranhos? 

O mar fica um pouco agitado, mas não balança o navio. As ondas de lama ainda estçao longe, lá atrás e lá na frente, mas temos vantagem sobre elas, ressaltou o comandante, pensando bem que aquilo poderia ser uma onda só e não duas. Em algum ponto se fecha em circulo e nos engole. Outro oficial pediu licença e perguntou até quando duraria a vantagem se aquilo vinha dos dois lados e quando e onde iria parar. O capitão coçou a testa, como faria num filme, e respondeu que mudará de curso para navegar entre os dois himalaias lamacentos. Na melhor das hipóteses, estaremos num fiorde.  Na pior, numa pororoca sólida, uma pasta do fim do mundo. Ele entende um pouco de Geologia.  

Sem comunicação com qualquer lugar do mundo, O navio solitário inclina-se para o Sul, sob um céu nublado. Os passageiros estão aqui para esquecer suas vidas em terra e não convém preocupá-los com notícias desagradáveis. O capitão olha o oceano, pergunta de si para si qual seria a textura dessa lama.

No último comunicado deu-se a informação de que o fenômeno não era localizado e indicou lugares agora inacessíveis, portos destruídos, cidades deslizando com a lava morna. Logo veio o ruído e depois o silêncio. Os passageiros ficaram sem internet. Mais uma vez, o comando culpou a tempestade no continente. Não havia previsão para a normalização do serviço. A maioria se conformou.

A tempestade que o comandante não esperava que viesse, e que mentira sobre ela, estava de fato, começando. Um ataque em dois flancos, entre a lama ainda distante e os tufões enormes de água. O transatlântico quase foi encoberto pela água, balançou, enquanto Adélia trata tudo isso como uma diversão. Suas amigas, nem tanto, pois mantém as mãos apertadas no varão da cama; rostos horrorizados.

Dada a iminência do desastre, Otavio e Adélia se reencontram por acaso, no corredor, e numa conversa subsequente – mais naturais e cúmplices do que no bar, na noite anterior -, desconfiam sobre o destino do navio e do público em geral. Sabem que é o fim ou algo parecido.  Decidem investigar, como fazem alguns passageiros de Os Prêmios, que Adélia leu na adolescência. Mas não investigam o navio. Os dois querem chegar ao convés para olhar o que se passa no céu e na água. Todas as portas estão fechadas.

Eles desconfiaram porque cruzaram com tripulantes e leram seus rostos. Uma oficial passou pelo corredor com uma pesada maquiagem que lhe cobria o pânico. Para Otávio, foi o choro de outro funcionário graduado. Chorava e tapava a boca com as duas mãos; os dedos subiam para enxugar as lágrimas.

Na ponte, a política muda. Nao há mais o que esconder. O comandante acaba de tomar a decisão de dirigir-se aos passageiros e contar o que está ocorrendo. A boa notícia: a onda gigante de lama havia parado. Solidificou-se do mar a muitos metros do chão, criando uma parede no horizonte, uma nova fronteira, entre os passageiros e os ex-continentes. Todos deveriam permanecer no navio que, por razões técnicas, iria lançar âncora ali mesmo e parar também.  Não adiantaria ir em frente sem saber se ainda há algo à frente. Voltar, a mesma coisa. A saída seria ficar parado, à espera de algum contato.

Alto-falantes anunciam que os passageiros receberão em suas cabines um comunicado sobre a situação. Todos pensam na tempestade, enquanto o comandante e um assessor de imprensa estão na ponte discutindo os termos do informe cujo ineditismo causa alguma dificuldade de redação. O que dizer? A paisagem mudou? Todos os parentes das pessoas podem estar mortos? Será dito apenas o que se sabe, ordena o comandante. Uma onda desconhecida, uma nova topologia, a montanha de barro nos dois lados - causada por fatores desconhecidos – e o fim da tempestade; apenas isso. A Internet continua fora do ar. A piscina será liberada.




sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Espera sem tempo



Samarone Lima 


Cada dia uma aventura, um infinito
O gosto de falar sozinho
De costas ao espelho que não existe

O infortúnio, a dor
A desigualdade das mãos
Resvalando em outras mãos
Que invento

Cada dia um sopro, um susto
Uma gargalhada que ecoa
Na memória do amor

E o não dito
O guardado
Fica como uma espera sem tempo
uma casa desabitada
com a memória dos passos
a marcar o chão