domingo, 7 de agosto de 2016

A Organização (trecho)


Eu encarava o velho com certo destemor, embora com o respeito requerido pela organização. Minha tarefa é entrar em cena quando algo nos ameaça, desde segredos revelados a mortes não esclarecidas. Ele responde pelo segundo item. Embora seja o chefe, sabe que nosso projeto é maior, e sabe onde estão os verdadeiros chefes, cuja vivência com o mundo do crime é apenas eventual e se dá por meio de profissionais como eu. Certas coisas precisam ser comunicadas, até para controle interno, e o sumiço dessa gente tinha sido determinado por ele, o chefe, criando um hiato de poder entre seu mundo e o nosso.  Não matamos ninguém; apenas entregamos um problema para solução e o chefe resolveu da pior forma possível.

O porte continua o mesmo, ensimesmado, numa cadeira de madeira de lei maciça, sobre uma enorme mesa de trabalho e lazer.  Ali poderia decidir sobre a vida e a morte, enquanto era chupado por uma subalterna, ou subalterno; não fazia distinção. Em seu trono marrom, no cenário de papel de parede cobalto e obras de arte, o homem apenas estirou as mãos para o alto, com desdém, e disse: “assim seja”.

Levei-o à sala onde havia outros homens – interrogadores e analistas de risco -, capazes de nos dar uma visão mais detalhada das atividades do chefe. Eficiência, por um lado, e estardalhaço, por outro, não são bons para os negócios e ele começou a apresentar esse estilo, quase num padrão, causando transtornos ao mundo do qual não faz parte, que é o mundo dos homens de bem. Queria que ele soubesse, de saída, que não haveria muita gravidade em ele próprio encerrar tudo rapidamente, dispensando o serviço desses homens, vindos de outro mundo também desagradável.

Bastava contar por que matou as pessoas. Pessoas que não eram para estar mortas, apenas assustadas, pois dessa forma poderiam deixar de intrometerem-se nos negócios alheios. Fico imaginando que se tudo isso ocorre no ramo financeiro, ocorre em outros lugares ou em quase todos. Uma parte legal, outra criminosa. Queremos o mínimo contato com esse povo, mas naquele momento era necessário.

O chefe poderia apontar uma solução, a saída com outros culpados, o sacrifício de capangas fieis, capazes de ficarem calados mesmo sob tortura. Ele parecia não ter muito a temer e parecia querer chegar à comissão com sua versão dos fatos. Queria mesmo falar com os inquisidores e a eles cobraria uma parcela vencida do serviço.

Mais tarde, diante dos analistas, explicou que o desfecho do caso não fora acidente ou desleixo; as duas moças espernearam demais, gritaram muito e prometeram que saindo dali iriam aos jornais contar tudo, se é que não já contaram, antes de morrerem, naquelas condições. Ocorre que o site do jornal já dera a notícia, cheio de insinuações, recorrendo a possibilidades para o desaparecimento das moças. Nenhuma nos citava, graças à segurança que mantemos nessa área. 

O chefe parecia garantido diante dos representantes do cliente. Mas eram homens impermeáveis à emoção e logo eles se adiantaram, em busca da única razão de suas vidas: resultados. Ouviram as explicações do chefe, anotaram até os insultos, e no final fizeram o que vieram fazer: um tiro seco, impessoal; o corpo ensacado numa rapidez de Drive Thru. Os homens sumiram. O culpado só apareceu mais tarde, no Instituto de Medicina Legal, e era o chefe, o matador das moças, cuja história de seu bando cruel renderia o de sempre, morte em tiroteio de um sujeito mau.


Não deixo rastro. Nada. Tudo é terceirizado. 

domingo, 17 de julho de 2016

Ego



Chegou ao último degrau da autoestima quando, seguro de si, perdeu totalmente a compostura na hora do autoelogio, como faz sempre, mas dessa vez exaltava certo fragor da natureza que só ele era capaz de ouvir. Coisa para uns poucos especiais, sensíveis como partículas elementares, capazes de viver a vida de forma mais intensa, ao mesmo tempo ardendo e durando. Alguns dos amigos olhavam com ar de ironia, quase prendendo os lábios para não rir, enquanto o Ego seguia em frente, falando para o prazer de si próprio.

- Minha gente, vamos mudar de assunto – disse uma delas, sem saber que assunto estava sendo tratado, pois na verdade só prestou atenção a algumas palavras, como “inextrincavelmente”, por se tratar de uma palavra feita para ser escrita, não para ser dita numa conversa. De qualquer forma, não sabia o que significava “inextricavelmente” e desinteressou-se. Ele manteve o ritmo, quase discursivo. Entre os que se deram ao trabalho de ouvir, algumas subdivisões: “ele está louco”, “cada dia mais chato” e “o cara é foda”.   

Poucos admiradores fidelíssimos. Todos queriam entender como ele entende, ver com os olhos dele e finalmente sentir-se ele, ou Ele, em muitos casos. Por sorte o Ego não acredita em Deus, senão disputaria o trono do Todo Poderoso, numa briga de iguais. Seus adeptos ouvem, sempre: “não sei como você aguenta”, às vezes durante a sessão oratória. O Ego percebe o desprezo de maioria. Não se abala. Nesses momentos, dirige-se à sua seleta e minúscula confraria e derrete-se com o olhar de aprovação da dona da casa, a mais bonita da turma. Ela serve a cerveja para edulcorar a homilia do amigo mais sabido; e serve-lhe de tradutora em situações em que o Ego é obrigado a recorrer a palavras em latim e alemão. Ele gosta muito de "Vorfreude”, que é, segundo o Google, a felicidade antecipada por algo que ainda está por vir.


domingo, 10 de julho de 2016

O outro


Carros da polícia surgiram no meio do mato, enquanto eu passeava com um cigarro na boca, no tempo em que era proibido fumar.  Eu não sabia por que tantos homens naquela operação, vários destacamentos armados, e desconfiei que o negócio fosse comigo, pois num raio de quase quinhentos metros não via ninguém descumprindo a lei. Sem saber o que produziu do nada aquelas luzes vermelhas piscando no meio do mato, passei a andar mais rápido, cada vez mais apressado, quase correndo, e aí uma viatura se deslocou em minha direção e o soldado saltou dela, armado, ordenou o “mãos ao alto” e gritou: “é ele”.

Eu já tinha jogado o cigarro no chão, lá atrás, e não havia provas contra mim, pelo menos nesse caso, mas o caso era outro. Estavam atrás de um fugitivo do presídio, condenado a 30 anos, cujo rosto parecia com o meu, pois quando o policial mostrou a foto do sujeito, já examinando meus documentos, eu mesmo fiquei impressionado. Era igualzinho a mim. A primeira coisa que me veio à cabeça foi o conselheiro titular Goliadkin, personagem de Dostoievski às voltas com um homem que lhe usurpa a identidade. Além de ser a minha cara, o foragido tinha o meu nome: Jose Emiliano Pereira.

Enquanto eu era preso, algemado, desviei a atenção para um filme onde um homem se vê diante de sua cópia, num duelo, e a cópia termina matando o verdadeiro, embora a reprodução seja tão real a ponto de pensar: “matei a pessoa errada”. Naquele momento eu não sabia mais de mim, se era o José Emiliano que fugiu ou o que não tinha nada a ver com aquilo. Talvez eu fosse o conselheiro titular Goliadkin ou sua cópia.

Fui conduzido de forma muito coercitiva ao presídio e lá indicaram minha cela, arrumada de maneira familiar, como eu arrumava meu quarto, e na prateleira perto da cama a mesma sequência de pertences dispostos do meu jeito: barbeador, escova de dente, sabonete Phebo e o livro O Duplo, marcado na página onde o conselheiro titular Goliadkin realmente se enrola ao dar-se conta das atividades de seu homônimo. Eu, Emiliano José, ou ele, Emiliano José, nós dois, digamos assim, éramos acusados de assassinato, sendo que eu nunca tinha visto o outro, então fugitivo, embora tivesse a consciência de não ter cometido qualquer crime. 

Pedi para ser confrontado com ele, seja como fosse, e uma acareação resolveria nosso problema, a partir de um cotejo de informações. Eu sabia onde estive nas últimas horas e poderia provar. Desse modo, ele, meu outro, ficaria em sua cela e eu iria embora. A polícia achou minha defesa fraca, senão absurda; O advogado também achou. Ficar preso, então, tornou-se um problema secundário. Eu queria saber “quem é ele?”, ou melhor, “quem somos nós?”. Na cela, sozinho, descobri numa caixa de papelão fotos da infância dele, ou minha, uma vez que as situações ali fotografadas envolviam ocorrências do meu passado. Lembro de um retrato em polaroide de 1986. Estava lá, perdendo a cor.

Essas perguntas sem respostas que me custaram seis meses de cadeia, até encontrarem aquele que é parecido comigo, igual para ser exato, e o sistema jurídico ficou confuso. A acareação, enfim, foi feita. Eu diante de mim ou de minha cópia, deu-se numa sexta-feira, às 19 horas.

Poderia pensar na grande injustiça de estar preso no lugar de outro; eu inocente, ele culpado, naquele momento em minha frente, como se fosse um espelho. No meio, um escrivão de polícia, espantado, supôs que talvez fossemos gêmeos, mas não havia justificativa para o mesmo nome: Jose Emiliano Pereira.


O outro foi preso de bobeira, passeando no mato, com um cigarro na boca. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Personagens desnecessários XIX



1. 

Olhava para o teto, refletindo sobre o tema vago daquele dia: a vida desprovida de alma, apenas uma existência que começa e finda e cai no esquecimento. Tinha hábitos teatrais muito bem dosados, gestos combinados com palavras, além de citações adequadas ao contexto. Um sucesso. Na sala, alunos se inebriavam com o discurso cheio de citações bem postas, e postas de maneira natural, sem pedantismo aparente, ao passo em que elucidava, ou quase, por que não somos quase nada num universo tão vasto e porque, mesmo assim, valia a pena viver. O pessimismo otimista do professor carregava certa animação; sorvia cada frase como um sorvete. O nada enchia seu vácuo interior como se algo fosse, ou fosse um gás intelectual capaz de chamar a atenção de uma garota bonita e inquieta, de óculos, figurino perfeito para a personagem desejada por ela, provavelmente candidata à cátedra ou a coisa muito maior.

Como num filme, soava a campainha e ele se recompunha, fechando um livro ou uma mão contra outra, suspirando, cheio de energia para a próxima aula. Em casa escrevia seus pensamentos superiores com calma e vinho. Religião era um tema sempre presente em suas reflexões por ser melhor do que o ateísmo em termos de literatura, nada além disso, obviamente. As melhores citações vêm dos deuses e de seus desejos, pois o professor identifica o desejo como principal característica dos deuses, inclusive do nosso Todo Poderoso monoteísta, Ele, como escrevem, em caixa alta. Além do mais, as religiões sempre têm rios a atravessar, como o Jordão e seus afluentes, irrigando uma planície de trigo, uvas e azeitonas, e depois os mares, mortos e vivos ao mesmo tempo, como o gato de Schrödinger. Enfim, o professor era dado a ruminações, às vezes confusas, mas ele dava um jeito de levá-las à sala de aula de modo organizado. Curto e grosso, como sempre dizia a menina, sentada na primeira fileira, saia curta, igual a filme pornô, embora sempre fizesse perguntas muito pertinentes – algumas até melhores do que as respostas.

Segundo período de Filosofia.  Era professor mais cobiçado, por sapiência e marketing, tanto faz. Todos queriam aulas daquele homem de livros publicados e canal no Youtube. A moça, de 24 anos, sentia-se uma sumidade. Escolheu o professor por seu niilismo charmoso, roupas casuais até demais, e uma enorme capacidade de convencimento. Quase uma técnica. Suas frases saíam em forma de ondas; só que ondas imprevisíveis, cheias de reviravoltas, inclusive no campo moral, em que determinados comportamentos eticamente aceitos, pareciam coisas abomináveis ao professor. Ou o contrário: práticas condenadas pelos departamentos jurídico e religioso, na verdade deveriam estar abertas, sem preconceitos, como a questão das drogas. Vale ressaltar que o professor não era um usuário e só às vezes, em festas da universidade, dava umas tapinhas numa inocente maconha. Só para ser coerente com suas ideias e, claro, para não quebrar aquele círculo tão naturalmente construído. Indo nesse caminho, e até falando um pouco de suas próprias elucubrações, ele conseguia satisfazer todo mundo sem precisar dar um fecho na história; deixava no ar para amadurecer naquelas cabeças juvenis e levemente histéricas. Ela, no entanto, estava mais atraída pela possibilidade de confrontar o professor, jogá-lo no canto da parede, sem chances.

Não rolou. O professor escapava de todas, com requinte, consciente da armadilha, mas fazendo que não. A coisa terminou virando um jogo apreciado por ambos e pelos colegas da classe. Uma encenação sempre esperada, em que ela perdia com prazer, extasiada diante do professor, mas sempre esperançosa de pegá-lo de algum jeito. O jeito foi partir para a ignorância e seduzi-lo. Há todo um jogo, cujos transcorrer e regras são demasiados longos para o espaço disponível. São também difíceis de descrever. Ficam para depois.

Seguro de si, ou jeito de seguro de si, o professor entrou na sala de aula para mais observações sobre o absurdo da existência, embora detestasse o existencialismo. Ele achava que havia criado uma doutrina própria, mas não tinha certeza, poderia ser retalhos de outros autores, pois nas ciências humanas não há aceleradores de partículas para detectar os modos de encarar a existência. Tinha algumas restrições, como não transar com alunas, e a moça de óculos havia chamado sua atenção. Especialmente a calcinha branca. Ele maldisse tais pensamentos, tão animalescos, e começou a falar para sua turma. 
 
Nesse dia realmente atrapalhou-se. Não no conteúdo. Na forma. Enquanto dissecava com toda vontade de potência que as leituras de Nietzsche lhes deram, não parava de olhar para a calcinha preta, desta vez exposta de forma mais expressiva.  A cena foi percebida por todos, entre o espanto e o voyeurismo, numa situação da qual o professor safou-se ao dizer que o comportamento humano está sujeito a condições bizarras, como a que se passou, e prometeu que na próxima aula trataria do assunto de maneira mais ampla.
Só que a menina esperou por ele, lá fora, encostada no carro como uma pinup num car wash, acenando com mãozinhas falsamente inocentes, acenando e dando saltinhos, como uma cheerleader, mas num estilo a fazê-lo entender que tal performance era caricatura, uma encenação jocosa num final de tarde.  Talvez dessem uma volta por aí, e talvez discutissem mesmo a sério e, depois disso, espontaneamente, ocorresse o inevitável. Assim ocorreu.

O professor estava encurralado em seu próprio desejo; um desejo de deuses, poderia pensar, mas não era isso que pensava quando entrava na sala. Pensava num fraquejo teórico, numa queda ética. Mesmo porque a tentação era diária. Ela sempre na frente, do mesmo jeito, tentando massacrá-lo em público, citando frases de alcova, e respectivos pensadores, e transformando estas em contradições para acertá-lo. O que ela queria dizer: você é uma fraude e por isso aconteceu. Você foi desmascarado na essência, pois tudo que pensava deixou de existir; a potência deixou de existir. Ela pensou em tudo isso, mas não disse nada. Apenas deixou que ocorresse mais vezes, enquanto ele mergulhava no desconforto de sentir-se canalha.

O desejo era maior e mais amplo. O desejo teria que ser expulso, por causa de suas consequências morais e filosóficas, muitas vezes nefastas. Mas não havia jeito. O sol filtrado da janela da sala batendo em sua camiseta fininha, formando tiras - com luz, sem luz, a beleza quando jovem, e a reunião dessas cenas não lhe soavam bem, tinha cara de romance barato, tinha o realce da canalhice, e poderia ocupar parte de sua mente, talvez até afastando pensamentos mais densos de sua área primordial. O desejo, no entanto, não se apegava a detalhes. 

2.

O velho é daqueles que descobrem uma novidade com anos de atraso e sai com essa novidade adiante, convicto, tentando provar que, descoberta por ele, a história, embora conhecida de todos, ganha o direito de repetir-se, numa segunda versão mais aprimorada. Mais ou menos assim: foi descoberta por pessoas que não souberam interpretá-las. Agora eu estou aqui para esclarecer e iluminar.

Podemos até supor que é ensimesmamento em estado bruto, a certeza de quem já passou por tudo, mas no fundo um orgulho sempre ferido, disfarçado de altivez. Talvez, não. Ele procura apenas justificar sua defasagem, tentando consertar a situação para não parecer atrasado e velho. O certo é que dá opinião sobre tudo, falada e por escrito, pois tem a ânsia de estar por dentro e gosta de plateia, mesmo as condescendentes. Mas acho que seu maior prazer, infinitesimal para os jovens, é sentar-se sozinho e escutar uns boleros do seu tempo.

3.

Meu trabalho é manejar a opinião pública. Com minha expertise, posso fazê-la pender para um lado ou outro, ao gosto do freguês, e ainda dou garantias de até um mês, quando não se não falará em outra coisa, a não ser sobre você, ou não se dirá nada, caso seja o caso.

4.

Nessas horas, sempre eu me fodo, pois acredito, vou em frente, mas ninguém me segue, e termino aguentando as consequências sozinho. Tudo combinado. É amanhã, às 8 horas, e lá estou com o equipamento, tudo em cima, e nada dos meus amigos. Volto para casa, penso naquilo um pouco, e mais tarde estarei pronto para o que der e vier.

sábado, 28 de maio de 2016

Esquecimentos



A vontade de escrever já me deixou. Não escrevem mais, por isso também perdi a jeito, e não existem mais envelopes com as cores do Brasil nem espátulas abridor de latão cromado nem selos nem raros papéis nem carimbos dos correios e telégrafos. São coisas que somem, com o tempo, e dão lugar a outras, sempre mais práticas. Também não escrevi porque não queria evocar a poesia dessas antiguidades; tem gente que gosta. O tempo das cartas, dos telegramas e de outros sustos vindos de longe já foi embora há muito anos, mas entendi o seu desejo fora de hora de receber uma carta, via aérea, como antigamente.

Agora, as palavras viajam em outras linhas, ondas-partículas, e se perdem no espaço depois de lidas. São efêmeras, fugazes e fugidias e por isso tenho agora, neste momento, a imensa dificuldade em reuni-las para explicar o que se passa, uma vez que você perdeu a lembrança do presente e vive no passado, num ponto do passado. Abre o portão de ferro rebuscado, hoje ferrugem, e pega do carteiro o envelope, postado em 1956, quando eu ainda não havia nascido.

Em letra miúda e firme, treinada no caderno de caligrafia, a carta dava conta da saúde dos seus e das mortes na cidade. Recebeu da amiga a descrição de uma festa em papel pautado, nonsensibilidades sobre pessoas estranhas à mesa, homens chegados da capital, cheios de vigor e cheiro de álcool. Correu logo para a resposta, três páginas, igualmente escritura perfeita, envelope fechado com goma arábica, selos da Princesa Isabel e Getúlio Vargas.

A cena se repete. Só existe o ano da graça 1956 na mente da senhora que quer a carta e esqueceu-se de outros anos, outros nomes e quase tudo.

&

Acorda na casa de uma desconhecida depois de uma noite de muitas ocorrências e poucas lembranças. Houve uma grande discussão a respeito de uma banalidade qualquer – ele recorda de um pedaço – e dai seguiu-se uma troca de insultos generalizada e este corte na cabeça deve ter sido por causa disso, ele pensa. Nu, sangue talhado, ressaca zunindo na cabeça e provocando taquicardia. Alguém acende a luz no quarto de janela fechada e ele não sabe dizer se é dia ou já outra noite, e não sabe quem é a dona da casa e daquele quarto cheio de retratos de atrizes do cinema em preto em branco, entre elas Kim Novak, com jeitinho sedutor.

Há dias nessa batida, deixando-se levar, sem medo, apesar da ressaca e apesar de não saber onde está. Não é a primeira vez. Já acordou em outra casa e ao abrir a porta do quarto viu um monte de gente sentada a mesa, esperando por ele, perguntando se dormiu bem. Ele estava tonto porque nunca vira aquele pessoal antes. Todos eram cordiais, como cordial é agora a dona da casa, ao abrir as cortinas, e dizer que está na hora do trabalho. Parece cena de filme, mas é real, embora nunca ele nunca tenha descoberto o nome dessas pessoas que lhes dão abrigo e conforto com certa frequência.


terça-feira, 26 de abril de 2016

Em órbita



Antes eu queria chegar aos fins logo de saída, mas tenho mudado, não vou direto ao assunto, pois agora cuido de enxertar histórias paralelas e só tomo a iniciativa depois de um enorme cruzamento de dados, com rigor científico, baseado em experiências e teorias. Sou um novo homem.

É um trabalho penoso e longo. Não se decide numa festa, só com olhares e conversas, sob o som nas alturas. Requer tempo. O último durou quatro meses. A primeira tarefa é ouvir. Deixe-a falar e só a interrompa se tiver algo grandioso em mente. Algumas não gostam de interrupções mesmo nesse caso, ou especialmente nesse caso. Por quê? Porque eu passaria a ideia de estar pensando na próxima frase – ao invés de prestar atenção a ela. Portando, atenho-me apenas à história da moça, sem esboçar qualquer trejeito sugestivo, gracioso; comporto-me como se estivesse em sua história, dentro, no meio, observando calado e vigilante qualquer movimento dos personagens e das coisas.

Depois, chega a minha vez. Antigamente, antes de aprender isso, eu teria entrado com outra conversa. Não. Tenho um repertório de perguntas, sinceras e pertinentes, capazes de fazê-la falar mais ainda, revelando, desta vez não apenas o conteúdo, mas também a forma, seu jeito de contar, uma imensa alegria em contar, o risinho mais lindo deste mundo. Mas não mostro entusiasmo. Estou vidrado nas descrições detalhadas de seus casos passados e de suas aventuras nas savanas, em seus tempos de leoa.    

Haverá o meu momento. Ainda não o momento do espírito da carne, nenhum sinal nesse sentido, mas a hora de mostrar meus predicados de forma vendedora, com pegada, como dizem, e salpicar sobre o conjunto umas tiradas de bom humor e citações obscuras. Aprendi a não ser pedante nem humilde, nem carente nem metido, e aprendi que é possível enfiar um Spinoza aqui e acolá com naturalidade e jeitinho, vocês precisam ver. 

No meio do caminho, no entanto, posso descobrir que não vale a pena.Não a pessoa, mas nossa junção e seus desdobramentos. A causa? A possibilidade de conflitos e ciúmes, paixão exacerbada e finalmente o trágico momento da separação. Às vezes, nessas horas, penso em ir embora, nunca mais voltar, encerrar aquilo que ainda não é quase nada. Pressinto o problema. Só que não saio nem me resolvo, porque ela atrai e repele ao mesmo tempo, e entro em sua orbita, girando nas histórias; a atenção sincera, sem planos, apenas o giro em torno dela, na distância requerida. 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A felicidade que se compra



De vez em quando a felicidade irrompe. Dura mais ou menos uma hora. A paz se instala num só canto da imaginação inquieta, produzindo uma terceira coisa, não nomeada, mas confortável e agitada ao mesmo tempo, como se isso fosse possível – e talvez seja.  Ninguém imagina que a felicidade estará em breve, em todos os mercados, vendida como Iphones.

No início, o homem vivia a questão acima, mas longe dele querer passá-la adiante. Estava interessado em si próprio, em sua relação com o mundo particular que construiu em anos de pesquisa. Felicidade para uso privado. Apenas ele experimentava a doce sensação de uma hora inesquecível, pois serviria também à memória, sobrepujando, com o tempo de uso, todas as situações desagradáveis registradas. Nesses momentos, o personagem apresenta certo ar operístico, especialmente quando contempla o Atlântico. Ele não olha para o mar - contempla o Atlântico. Usa suspensório. Um egoísta, portanto. Um homem com todos os defeitos do mundo e que é capaz de ser genuinamente feliz – misteriosamente feliz por uma hora – e ainda refletir sobre sua posição nisso tudo.

O tempo passa e problemas práticos aparecem. Eis que é preciso vender alguma felicidade para sobreviver e manter o vício. Tempos de fusões e aquisições. Também uma oportunidade de ser mais feliz ainda, por mais tempo, na condição de criador desse ramo da satisfação e do prazer.

O empreendimento ainda não começou, mas está em planilhas, bem traçado, e o plano de negócios inclui um detalhado perfil do consumidor. Quase todo mundo deseja o produto. O que se discute agora – e nesse ponto entram mais personagens, os executivos - é como lidar com as acusações de que o homem está vendendo uma felicidade ilusória e, além disso, com efeitos desconhecidos, também capazes de desviar as pessoas de sua vida diária, influir na produção de bens e serviços e por fim arruinar a economia do País.
- Não é ilusão, explica o homem, em sua conferência aos acionistas, deixando transpirar segurança nas afirmações. Não é ilusão, segundo ele, porque o produto passou por todos os testes de realidade e se saiu bem.

- Oferecemos uma situação completa, tão real quanto a real – acrescentou o personagem, claramente sob efeito de sua hora de felicidade. – Não se trata da criação de um novo mundo, mas da imposição da vontade individual; quero isso, quero aquilo, e logo os objetos e situações estarão a seu dispor, portando os mesmos átomos do dito mundo real. Dura pouco, tudo bem; mais do que uma por dia mata, vá lá, mas é o melhor que temos a oferecer no momento. Há gente que passa a vida inteira sem sequer vinte minutos de felicidade digna de ser lembrada. Agora temos uma hora, todos os dias; mais na frente, quem sabe, teremos mais tempo, até chegarmos ao dia inteiro.

- E depois? – perguntou um acionista, no auditório.

- Depois a gente vende algum tédio?