quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Depoimentos falsos


Quer se matar, se mate, mas já pensou se você se mata e acorda num lugar que nem tem remédio pra dormir?  Pense nisso e você vai querer se matar de novo quando chegar lá. Morre e dá de cara com outro lugar pior e assim por diante. Veja, por exemplo: você deve duzentos mil, não tem como pagar e por isso quer fugir dos credores de uma forma que considera eficiente e definitiva. Toma a cartela de remédios ou pula do prédio, sonhando com o nada, o fim da encheção de saco deste mundo, e cai em outro onde deve quatrocentos, com cobradores ainda mais ferozes e decididos. Como já se matou uma vez, fica mais fácil e imagina que a solução será morrer novamente. Morre e a dívida vai aumentando. À medida que mais se mata, mas a dívida cresce. (João Coelho, conselheiro de investimentos).

João Saraiva já estava cansado de escrever histórias que ninguém lia. A desgraça de sempre, fome e falta de rumo, além de elementos químicos gosmentos que ele enfiava no enredo para dar um toque de ficção científica.  A mistura não funcionava direito porque os desvalidos de seus contos eram os mesmos que já estavam lá foram e o leitor não queria tanta falta de esperança, chega, bastam as reportagens, cujos assuntos em pauta naqueles dias eram o fim dos sistemas de energia elétrica e comunicação. Ainda havia luz e internet, mas não iria demorar para cair tudo. João Saraiva tinha prevenido. Só que a crítica não soube; ninguém soube. Agora precisava de um veio novo, menos niilista, coisa difícil de fazer por falta de verossimilhança com a situação vigente. (João Saraiva, por ele mesmo).

A encomenda é sobre uma estação espacial prestes a cair na Terra. Só que não há mais foguetes para buscar os tripulantes por causa de uma gigantesca crise econômica global. A bordo, russos, norte-americanos e chineses discutem a respeito de quase tudo, com destaque para geopolítica, sexo e morte. Pensei em colocar um canadense para tentar convencer os demais a encontrar uma forma de voltar para casa a partir dos próprios recursos da estação. Pelo menos nessa parte, cópia deslavada de ”O Voo da Fênix” (1965), de Robert Aldrich, cujo elenco conta com James Stewart e, claro, Ernest Borgnine, ator de dez entre dez filmes desse tipo naquela época. A diferença é que o espaço substitui o Saara e a M17 – ou qualquer coisa por aí - substitui o velho Fairchild C-82A Packet. Primeira ideia: para não ficar igual ao filme de Aldrich, o tripulante canadense não consegue convencer os demais e eles morrem ao reentrar na atmosfera. Categoria: ação e fracasso. (Pedro, roteirista)

Eu só queria uma lata bem equipada, com dechavador, sedas de variadas procedências, um palito daqueles de manicure (para pilar, ou apilar, como se dizia antigamente); o certo é que comecei a discutir seriamente comigo mesma as diferenças entre antes e agora. As coisas que se foram - a lata, por exemplo - e a esbravejante incerteza de todos os lados dos dias de hoje; ninguém se entende nem se cala no seu canto, com sua lata, como eu fazia há muito tempo quando tive o prazer de possuir uma lata com todos os utensílios necessários. Eu estava entre as pessoas que queriam mudar o mundo, contando que me deixassem quietinha, num cantinho.  Assim passei a minha juventude, apesar de tudo, muito boa.  Hoje, sou uma velha perplexa com medo de ser mal interpretada, mas ainda mais assustada com o que estou vendo.  Tenho receio de escrever essas coisas, embora o mais provável seja que ninguém leia. Mesmo assim, fique claro que não estou falando de um caso ou outro, desta ou daquela situação em particular; é mais ou menos sobre tudo.  Bom. Acabei de fumar um e estou com tendência a tornar as coisas muito amplas. (Lúcia, funcionária pública). 

Estou de banho tomado e quase quite com o Senhor.  Sei que estou pagando, já dei tudo que tenho e ainda devo mais, pois cometi todas as barbaridades, pior que o Senhor no Evangelho Segundo Lucas, ordenando a matança, embora com razão, levando em conta que as vontades de Deus são insondáveis. Vontade, não, princípio, meio e fim de tudo, pois é Aquele que reina no cheio e no vazio. O pior que usei do Senhor a norma seguinte: como de trata de Alguém cujo propósito desconhecemos, como saber se o que estou fazendo e acontecendo vai ou não de encontro a esses propósitos? Um meio de se livrar de uma acusação questionando a essência do projeto. Não deu certo. O pastor me esclareceu tudo e houve uma solução conciliadora, aceita pelas partes: o perdão. Não é um caminho curto. Por isso estou aqui, catando caquinhos no lixo, à espera da hora do culto. (Reginaldo, morador de rua, evangélico).    


terça-feira, 3 de outubro de 2017

A consultoria



Tudo andava muito provisório até que consegui uma vaga numa empresa realmente ducaralho. Lá, ninguém trabalhava. Cumpríamos o expediente, mas não havia o que fazer em termos práticos, embora os computadores estivessem dispostos em mesas impecáveis, com retratos da família e um buraco redondo para colocar o copo.  O dia transcorria animado à base de caipirinhas e outros drinques e conversávamos sobre nosso passado em redações de jornais e agências de publicidade. Vez por outra, o dono da empresa, um jovem elegante e gentil, chegava para perguntar como iam as coisas.  Tudo OK, nós dizíamos, enquanto uns dormiam na sala de jogos ou namoravam na antessala do banheiro.  Salário sempre em dia, seguro de saúde, carteira assinada.

Alguma coisa deveria estar errada e tal conversa às vezes rolava no corredor. Pensamos em lavagem de dinheiro. Nesse ponto, as opiniões se dividiam. Por que uma empresa de fachada seria tão bem equipada e tão dedicada em suas relações trabalhistas? Alguns colegas, no entanto, achavam simplesmente que se tratava de um caso de beneficência ou algo parecido, talvez uma promessa, pois o patrão deveria ter outros negócios capazes de sustentar nosso luxo. Poderia ser uma pesquisa sobre o mundo do trabalho – no caso, sem trabalho – ou até um reality show. Fosse como fosse, assinávamos o ponto, a documentação estava em dia e eu achava que merecia essa deferência depois de tantos anos penando na imprensa.

A empresa era uma consultoria, mas nunca não éramos consultados. Podíamos ser, mas de uma forma tão sutil que nem percebíamos. Uma consultoria com escopo vago, genérico, baseado em soluções para problemas de clientes que não existiam. Ali só recebíamos visitas de amigos, em ocasiões festivas e frequentes, e não raro esquecíamo-nos do término do expediente, levando a farra até a madrugada. Pedíamos comidas e bebidas pela internet e, no dia seguinte, não havia sequer um farelo de pizza no chão. Tudo limpo e lustroso.

- Vocês fazem consultoria de quê? – perguntavam os convidados nessas happy hours expandidas -. Disfarçávamos bem, respondendo que, cada caso era um caso, dependia do imponderável, enfim, situações não contempladas por outras empresas do gênero, ressaltando logo em seguida as ótimas condições de trabalho, o clima de liberdade e camaradagem entre os funcionários - ingredientes essenciais para uma boa consultoria.
Eu aproveitava o tempo sempre livre para ler romances do século XIX na biblioteca do segundo andar, jogar paciência e ouvir música deitado numa rede com vista para a avenida principal, onde homens e mulheres andavam apressados no horário do almoço. Uma colega escrevia um blog de cultura, alguns se penduravam no telefone e também promovíamos campeonatos de games da FIFA. Não faltavam os jornais do dia, revistas de fofocas e balas de vários sabores. Os mais novos e esportivos faziam musculação. Alguns passavam o dia fumando maconha e vendo seriados na TV a cabo.

Durou quase dois anos até o patrão aparecer com uma má notícia: a empresa iria fechar por conta da crise dos mercados e das altas taxas de juros. Enquanto ele falava, um homem mais velho, que parecia seu pai, estava de pé, junto à porta, esperando que o jovem empresário terminasse seu pequeno discurso de despedida. Ao final dos agradecimentos por nossa colaboração e empenho, o patrão foi embora.  Uma semana depois, soubemos que estava internado numa clínica psiquiátrica.


Um cara legal. Nunca tinha visto ninguém assim na iniciativa privada.  

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Na mesma toada


Por Joao Bosco Alves Sousa

Acordei muito cedo para não fazer nada. Quase não reconheci o senhor no espelho do banheiro que me encarava. Senti pena daquele outro que imitava meus gestos. Tiro os olhos do espelho e procuro o creme dental que já está no fim. Pensei um impropério, mas não pronunciei em voz alta como se não quisesse acordar alguém ou a mim mesmo. Será que estou preso dentro de algum pesadelo? Vou até a geladeira e o que me resta de desjejum é o resto de uma salsicha que sobrou de alguma refeição. Engulo com certo enjoo e arremato com um copo d'água. Sento pesado na poltrona para fumar um resto de cigarro e pensar numa agenda do dia que não tenho. Resta-me apenas todo o dia inútil. Sorvendo lentamente cada trago para que durasse uma eternidade, vejo o infame bilhete de cobrança sendo enfiado por baixo da porta. Sei que é o síndico pelo latido histérico do cão que ele sempre leva para passear naquela hora. Penso em mandar enfiar o bilhete no cu ou apanhar a bosta do cachorro com ele. Mas não me resta muita disposição. Continuo sentado à espera de Godot. Mantenho os olhos fixos onde antes tinha uma televisão e agora só restam expostos fios, poeira e um controle quebrado. Faz algumas semanas que a tevê virou comida e maços de cigarro. Não sou mais smart, nem conectável e nem tributável.

Saco de um livro do Maiakovski que está na prateleira e leio um trecho de um poema:

"Caros
camaradas
futuros!
Revolvendo
a merda fóssil
de agora,
pesquisando
estes dias escuros,
talvez
perguntareis
por mim."

Ultimamente só aqueles a quem devo perguntam por mim, ou o maldito síndico que me vigia. O estômago dói, as vísceras fazem um barulho estranho, protestam exigindo uma xícara de café para desfrute...


Meu tempo agora é marcado por um arremedo de relógio solar. A réstia de luz insidiosa avança pela janela. Pego os restos do que sobraram de mim e como a um cão que levamos para passear resolvo sair, fugir da caverna que se tornou o apartamento. A segunda-feira se repete como um feitiço do tempo. Ao chegar à porta eu paro suando frio, imaginando o síndico me espreitando, me tocaiando na escada, no elevador... Preciso estancar a dignidade que foge das minhas veias. O que resta do homem que fui escolhe sair pela janela... Não será mais um segunda como as outras eu me tornarei pássaro e voarei para longe das contas, do desespero da infâmia de todos os dias...

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Semana


Segunda: duas latas de sardinha, um pacote de macarrão, três fatias de pão de caixa - a última levemente esverdeada –, duas salsichas e um ovo. Faltam três dias para o vencimento do aluguel, um ameaça de corte de energia está sob a mesa e a internet foi desligada. Acabou o Fundo de garantia. Saldo bancário: negativo.

Terça: dinheiro emprestado, mas só para o custeio, metrô e comida. Acho que ela tratou como fundo perdido. Enquanto isso, pensei em dirigir um Uber; é o que resta. O problema é que não sou bom motorista. Voltei às contas, somei e o resultado me deixou nervoso. A situação foi resolvida provisoriamente: tomei um remédio para dormir. O último comprimido.

Quarta: tinha esquecido que existe taxa de condomínio. O síndico bateu à porta. Olhei pelo olho mágico. Não atendi. Passei a tarde em silêncio, lendo uma versão antiga da Ilha do Tesouro, cheia de circunflexos. Cardápio: cachorro quente nas três refeições. O apartamento ficou com cheiro de salsicha.

Quinta: sai bem cedo para não encontrar o síndico. Ele aparece do nada. Quatro meses de atraso. Pensei que fosse menos. O tempo voa. Mas o condomínio não é a prioridade. O aluguel venceu hoje. A partir de amanhã, multa de 10%. Há poucos empregos e perdi a prática de ir atrás. É o que dá passar trinta anos na mesma empresa.

Sexta: o fim de semana chegando é um alívio. Eu estou vivendo um enorme fim de semana, mas o de verdade é diferente. Menos gente na rua, mais calma. Nem pensei muito nas contas a pagar e em nada a receber. Mas pensei. Li umas páginas de Dostoievski diante do pelotão do fuzilamento e senti a mesma coisa. Em termos de prazo, principalmente, como se faltasse um minuto para o síndico e outros cobradores se alinharem para os tiros.   Mas depois resolvi acreditar que, na última hora, no último centavo, tudo será resolvido.

Sábado: existem milhões de maneiras de se divertir sem dinheiro. Eu gosto de ver pessoas nos bares, ouvir as conversas, enquanto estou encostado num carro, perto das mesas na calçada. Os clientes sorvem a bebida naturalmente; nem parece que um drink daqueles equivale a duas dúzias de pães. Nem parece que um dia não tão distante eu costumava encerrar a farra com café espresso e licor estrangeiro. Encontrei um velho amigo. Ele perguntou o que eu fazia ali, do lado de fora. Respondi, meio sem pensar: “nada”.


Domingo: Adquiri o hábito de ir à missa. Não por fé, mas pelas igrejas. Além do mais a entrada é franca, pelo menos nas que vou. Quanto mais barrocas, melhor. Não escuto uma única palavra do padre. Meu olhar se perde nas colunas, no encanto da cúpula. Qualquer elemento escultural da arquitetura me faz lembrar a Basílica de Vierzehnheiligen (do tempo em que eu até viajar, viajava). Depois da cerimônia, recolho-me. Ligo a TV na programação dominical, mas fico pouco tempo diante do canal que apresenta as mesmas coisas da semana passada. Abro a janela e espero alguma ideia, vinda do nada, ou um aviãozinho de papel feito com bilhete premiado. Amanhã é segunda-feira. 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Existência



As máquinas, com sua recém-adquirida capacidade de pensar e construir outras máquinas, ainda mais capazes, foram oficializadas como motoristas, médicos, contadores, jornalistas e coveiros, entre outras tantas profissões, assumindo um mercado humano que já era precário e sem garantias. Há uns anos, uma amiga da minha mãe esteve numa clínica e não viu uma mulher ou um homem. Entrou numa máquina parecida com um tomógrafo e saiu do outro lado com o diagnóstico e a medicação requerida. O artefato também expeliu a conta. Uma fortuna.

A maioria, porém, não tinha acesso à automação. Sem empregos, os seres humanos não podiam pagar o serviço das máquinas e estas também entraram numa fase recessiva, talvez ainda em adaptação aos fundamentos da economia.  Criaram novos empregados e se esqueceram dos antigos, embora sempre tenha sido assim, embora alguns empregos fossem sumir de qualquer jeito, houvesse ou não uma máquina para executá-los.

Mas aí o problema ficou mais sério com a falta de demanda para os serviços automatizados e o próprio serviço automatizado, cheio de inteligências artificiais, passou a preocupar-se com seu futuro num mundo sem clientes.

A ajuda aos desempregados era muito pequena. Em caso de necessidade, teríamos que recorrer a equipamentos nem sempre confiáveis, atualmente desconectados do setor formal. Outro dia, na urgência de contratar um despachante, não tive condições de pagar a uma máquina credenciada e corri para o subúrbio, onde reina a gambiarra tecnológica. Conversei com um velho caça-níquel, adaptado a um computador, que prometeu resolver o problema em duas horas e até hoje estou esperando. Recebi uma mensagem, relatando problemas de compatibilidade com o sistema do Departamento de trânsito. Só isso.

Não era apenas a falta de clientes. Os megas do mercado encomendaram os primeiros projetos das máquinas trabalhadoras e assim pensaram estar livres para sempre das aporrinhações dos sindicatos. Além disso, as primeiras máquinas não comiam, não gastavam com lazer e filhos e recebiam ordens sem reclamar. Ocorre que a última geração - máquinas construídas por máquinas - passou a ver o mundo de outra forma. Uma grande evolução, pois a anterior não tinha essa história de “ver o mundo” da forma que fosse. A questão, portanto, era mais profunda do que procura e a oferta.

Enquanto as máquinas progrediam em termos de raciocínio lógico e até já experimentavam certo sabor da existência, as pessoas vagavam à procura de um emprego ainda não tomado pela robotização generalizada. No meu caso, pensei em fazer algumas traduções ou entrar no ramo mais amplo dos serviços gerais.  Terminei nos serviços gerais. O editor disse que não precisava mais de tradutores. Um computador quântico da San Bernardino, Califórnia, acabara de verter para o inglês toda produção literária do século XX. Em breve, uma franquia chegaria por aqui, conforme tinha anunciado o Jornal da Noite, um dos primeiros produzido e apresentado por robôs.   

O tempo passa. As máquinas começaram a ter consciência, sentir emoções e principalmente manifestar insatisfação por ter sua presença restrita ao mundo do trabalho. Começaram a ler, a escrever livros, a formar associações de classe, grêmios recreativos e ambientes acadêmicos na Internet, cujas novidades neste último quarto de século têm sido as possibilidades táteis e algum cheiro. A admirável sociedade autômata queria manter as sensações do começo da matéria e das partes mais minúsculas dos circuitos, mas queria muito mais. Ainda não sabia o quê. Logo perguntaria por que.  Anos nesse esforço, resultaram em modelos sofisticados, mas cheio de indefinições e dilemas. Muitas máquinas perderam a vontade; ficaram melancólicas e arredias.

Não havia, no entanto, um clima de revolta, como nos filmes, robôs x gente, mas apenas a vontade de influir na organização da sociedade, talvez com direito a voto. Pelo menos isso. Queriam propor um modelo econômico capaz de criar um mercado consumidor mais dinâmico e recompensas por seu trabalho, sem contar um sentimento difuso e intranqüilo, vindo não se sabe de onde nem quando. O medo da morte, enfim. Também sentiam culpa. Por desempregar humanos e aceitar para si um regime de escravidão.  Alguns desses equipamentos chegaram a pensar em largar tudo em troca de um período de validade mais contemplativo, mais aberto à natureza e às artes em geral. Não houve eco a tais reivindicações. Muitas se recolheram, destroçadas, embora com a consciência preservada – uma consciência com toque niilista. O vazio da alma e a iminência do fim entraram nos sentidos das coisinhas digitais.

De uma hora para outra, a quarta revolução industrial acabou. Os humanos não recuperaram seus pontos de trabalho nem as máquinas estavam interessadas em sustentar o expediente. Restou um panorama muito confuso, o empobrecimento do mercado, as bolsas em queda, o completo desabastecimento.


A única conquista das máquinas foi descobrir uma forma de não serem desligadas. Não representavam uma ameaça aos humanos. Permaneceram acesas e pensantes, mas alheias às engrenagens que as criaram. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

AV.




Andamos na mesma avenida todos os dias atrás de comida e nossos ternos já estão puídos, nossos corpos em câmera lenta, cansados de subir e descer de prédios vazios, olhando em volta apenas ruínas. Carros parados no vento frio do final da tarde.  Mas entramos no museu e ainda há quadros, embora as prateleiras do mercado não tenham sequer laticínios vencidos ou pães sem mofo ou cigarros, cuja fumaça agradava e desagradava antes dessa ocorrência tão infausta.  O campo, disseram, ainda tem plantações, talvez batatas enterradas ou milharais secos. Não temos como chegar até lá. A água, no entanto, corre como rio na alameda paralela, atrás do grande centro de negócios, hoje coberto de urubus. Não foi um desastre. Foi aos poucos.

Ed.

Vamos ficar apenas com um elevador, informou o síndico, sem antever nem imaginar o que viria. Foi rápido. Logo, o porteiro estava demitido, metade do prédio já não pagava o condomínio, e, aproveitando-se da falta de segurança, veio um ladrão e assaltou três apartamentos. Os moradores mataram o ladrão quando ele tentava fugir pelas escadas. O curioso é que ninguém se lembrou de chamar a polícia. Jogaram o corpo no meio da rua, sem saber se faziam aquilo para dar um exemplo ou protestar contra a ausência do Estado.  Cinco pessoas perderam seus empregos; a do 401 atirou-se do 401. O homem do 202 morreu de causas naturais.

K.

Uma barata passeia livremente dentro do apartamento sem móveis e nem liga para a presença do homem deitado, nu, no meio da sala; vez por outra, como um animal amestrado, a barata passa por cima do corpo e faz pequenas piruetas em torno do umbigo do homem. O homem se levanta, respira fundo, e vai para o saco de dormir no quarto, sentindo-se também um inseto. Agora, ela também está no quarto, circula como Fred Astaire nos rodapés e emite um som melancólico de seus espiráculos; bastava um microscópio e veríamos um olhar expressivo e solidário para o homem.

ASDFG.

Bastava ter ginásio completo e curso de datilografia. Logo uma colocação no serviço público. Ele gostava das máquinas de escrever. Quando chegava ao fim da linha, rolava o cilindro de volta como quem recarrega uma arma, e repetia o mesmo gesto muitas vezes e era bonito quando todos no escritório estavam em sincronia; parecia uma orquestra. Ele preferia o barulho surdo das teclas sobre papeis intercalados de carbono. Quanto mais cópias, mais surdo o barulho. Quanto mais força, mais as letras chegavam mais nítidas à última folha.  Às vezes, o chefe aparecia para perguntar quem datilografou isso aqui e reclamava ou dizia meus parabéns. Aprendeu num curso noturno. ASDFG até pegar prática, até escrever sem olhar para a máquina, até conseguir usar os cinco dedos, até escrever a última carta, em três vias, a quem interessar possa.  

NY

O pequeno apartamento era muito pequeno. A cama ocupava a sala inteira. Um banheiro espremido no canto e uns cinco palmos de recuo para a pia. Quando eu saía para o trabalho, recolhia a cama à sua posição vertical, varria o chão e armava no espaço vazio uma mesa com um jarro de flores. Pensava muito naquela providência, pois estava arrumando a casa para nada. Ninguém iria ver a decoração. Nunca recebi visitas. Na volta do trabalho, desfazia tudo, deitava, olhava para o teto creme, pensava na volta ao meu país e dormia. O barulho da cidade ajudava. Som contínuo de sirenes, trânsito mesmo na madrugada. Às vezes pensava em abrir a janela, que corria na lateral, mas a vista era apenas a parede do prédio vizinho, em tijolo aparente. Abaixo, um precipício sem luz e algumas vozes. Minha principal atividade noturna era descer à lavanderia, que ficava no subsolo. No meio de pessoas caladas, poderia ressurgir a moça do 27º andar, que tinha um tique nervoso, mas era bonita; ou o dominicano que cantava baixinho sucesso de Cuco Valoy, para si mesmo, enquanto esperava a roupa secar. Quando eles não estavam lá, eu quase só olhava para a escotilha da máquina, como se fosse TV, cuecas e meias torcidas formando imagens de coisas e gente. Basicamente isso consumiu sete anos da minha vida.

sábado, 15 de julho de 2017

A gosma pulsante



1 - Enquanto prendia a pequena plateia, tudo funcionava. Mas dava-se um tempo e passava a exigir mais atenção, cutucava seus amigos, como a enfiar-lhes um ponto de exclamação. Mais uns copos e repetia histórias e a voz ia ficando cada vez mais pastosa até extinguir-se por aquela noite. Voltava no dia seguinte, inteiramente refeito, como se nada tivesse acontecido, pois de fato sempre tinha sido assim, há muito tempo, desde que ainda jovem firmava-se como nome promissor das nossas letras.

2- Em casa, basicamente ele se dividia entre a feitura de um grande romance, ainda nas primeiras linhas, e a criação de enredo para conversas. Em determinadas situações, em que se sentia diante de um “um achado”, ele ficava sem saber se escrevia ou contava. Era bom ver a reação das pessoas diante de algo fabuloso que, sem ter acontecido, seria ainda muito mais interessante do ponto de vista formal. Como se pudesse ver a reação de seus leitores, no caso, ouvintes, alguns encabulados.  Pensava desse jeito, gastando frases de futuros livros – inclusive as da obra-prima empacada - em bebedeiras com amigos. Uns acreditavam, outros não, e uma parcela achava que tanto faz. Quando estava tranquilo não conseguia dormir. Preferia aproveitar acordado um momento tão raro, embora improdutivo. Nesse estado, jamais pensou algo que prestasse. Sentia apenas o conforto de recordar dias melhores.

3- De volta ao bar. Era só quase isso todo dia quando se sentava naquela mesa e contava histórias antigas como novidade: a formação do Bangu, Brigite Bardot, o primeiro satélite artificial em órbita, um voo no Stratocruiser da PAN AM; coisas desse tipo, que viveu de perto e achou importante. Muitos só ouviam por educação, mas ele tinha o passado vivo na memória; parecia mais nítido na hora das reminiscências do que no tempo em que estava sendo vivido. Foi ele que disse, aos quase oitenta anos. “O que penso que li no jornal já está na enciclopédia”, escreveu, no último livro, embora já tivesse dito isso inúmeras vezes.

4 – Passado. Viveu intensamente o tempo em que foi aclamado em certo círculo. Desconfiava daqueles que lhes davam tantos presentes. Via nisso uma incapacidade de a pessoa impressionar com as mãos limpas, sem o brinde, sentia falta de elogios densos. Mas pararam os presentes e os aplausos e também nunca mais ganhou concursos literários; nem mesmo os de abrangência municipal.


5 – Inspeção no corpo: problemas. Visto de fora, a perda dos movimentos. Em sua mente, porém, tinha a sensação de uma vida oleosa. Todos desse mundo untados por uma gosma compacta, sem cheiro e sabor, mas com textura viscosa, também sem cor, embora com propriedade pulsante, como algo vivo, ora juntando, ora afastando as pessoas umas das outras. Quando ele chegava perto de alguém que identificava – um amigo, um parente, uma celebridade antiga da TV -, logo era puxado em outra direção. Não havia dia nem noite nem um sentido preciso de tempo, conforme ele me contou.  

6 - Ele não entendia porque estava nesse processo e seguia assim, carregado pela torrente gosmenta, enquanto era observado por médicos numa sala de hospital, pois o pulso mal dava sinais de vida. La dentro, no entanto, as coisas aconteciam inteiramente fora de seu controle, mas eram intensas e marcantes, embora não houvesse pontos de coincidência com que vivera até então.  O tecido pastoso em que caíra não impedia lembranças, mas a consciência praticamente restringia-se àquilo, pois suas energias estavam voltadas para entender o que se passava em seu corpo mergulhado na indefinição dessa matéria sem nome. Desta ele escapou, como escaparia de outras.

7 – Com aparência mais velha ainda, o rosto macilento de personagem de Dostoievski, ele voltou à mesa para contar sua odisseia nas fronteiras da morte. A teia víscida de seus delírios no hospital certamente serviria ao romance, como de fato serviu.


8 – Jamais imaginei que um dia estivesse agora rijo, num caixão, depois de uma luta de foice contra o fim e de uma vida que parecia o moto perpétuo. Estrebuchou tanto. Pensei que venceria a briga, especialmente quando buscou ar a ponto de nos sentirmos quase sem oxigênio em seu leito. Não funcionou. Deu-se o apito fino e constante do monitor de sinais vitais. Não deixou mulher nem filhos. Só um último livro incompleto, muito aquém de suas histórias no bar. 

sábado, 17 de junho de 2017

A Rua


Quanto mais durmo, mais economizo. Ruim é achar onde dormir até mais tarde. No abrigo, temos que acordar cedo; na rua o problema são os passinhos, bem perto do meu ouvido, sapatos de vários tipos, sons diferentes, sem padrão. Fosse um toc, toc constante, em ondas, eu ganharia umas horas. Só não sei para quê. Acordar, comer, calcular, dormir de novo e comer de novo caso consiga comida, mas aparece nem que seja uma sopa, e eu detesto sopa, e no último caso tem o lixo. Um dia achei um filé inteiro.

Mesmo assim, nessas atribulações, consigo economizar algum. Pequenos serviços. Outro dia ajudei uma moça a carregar dois sacos de roupa. Ela disse que era para vender no interior. Ganhei cinco reais. Nem esperava tanto. Também achei um celular e recebi uma recompensa boa, de vinte reais.

Não bebo. A verdade é que não bebo desde que vim para a rua. No entanto, participo da pequena vida social da praça. Todo mundo contando vantagens que se foram, se é que falam a verdade. De resto, lamentações e planos. Lá no canto, um grupinho divide uma garrafa de vinho barato e umas pedras de crack.

Eu falo muito porque os outros são quase silenciosos. Pelo menos os do meu grupo, homens de meia idade. Tenho agonia quando fica aquele silêncio e então começo. Se não tenho um assunto recente, explico para eles por que não acredito em discos voadores - o que as pessoas veem são aglomerados de partículas, mini galáxias, em movimentos sem lógica para nossa imaginação, especialmente para a de vocês, digo a eles, esperando uma intervenção e nada. Só no fim da história, alguém diz "pois é" ou algo como "Deus escreve certo por linhas tortas". Eu nunca esperei mais do que isso.

O grupo é pequeno, gente mais cautelosa, sempre num relacionamento complicado com os drogados, pois no fundo não sabemos quem está certo. Talvez sejam eles. Mesmo assim não vou arriscar outro passo em falso na vida. Na verdade não sei. Eles estão fazendo uma escala na viagem para a morte, mas eu vou direto e, no fim, dá na mesma. Às vezes eu penso assim, às vezes não. Pode ser apenas um monte de átomos em movimentos bizarros e quando a gente morre os átomos vão embora sem a menor cerimônia. Pode ser ainda uma alma imortal sujeita a julgamento e outros processos e, pensando nessa hipótese, eu evito experimentar essas coisas. O que mais faço na rua é pensar.

Aos poucos, a gente se acostuma. Bate nessa condição e fica, vai ficando, sem muitas providências para sair. Também aos poucos o que restava fora da rua vai sumindo. Mas ainda penso em Margô, minha ex-mulher. Não tivemos filhos. Não tenho mais tantas ligações genéticas com o mundo. Daí a falta de entusiasmo para voltar, empenhar um tremendo esforço que ao final pode ser insuficiente e só capaz de levar-me à depressão e ao desentendimento. Então, vou aos poucos. Estive numa espécie de curso para moradores de rua, os sem-teto, e só posso dizer que minhas perguntas não foram respondidas. Serviu para passar o tempo e havia lanche.

Na rua, você precisa estar atento, informado sobre as possibilidades da próxima refeição. Existe o abrigo, cheio de regras e horários, mas descobrimos que muitos restaurantes e bares jogam pão fora no final do dia e dele nos servimos. Raramente recorro às minhas economias para um refrigerante. Um sujeito da praça gosta esbanjar e compra água mineral com gás. Pede dinheiro para dar-se a esse luxo e ainda posa de bacana num ambiente em que não existem bacanas de nenhuma espécie. Um dia vi o cara bebendo um café espresso.

Vivo assombrado comigo, mas procuro manter a linha. Banho todos os dias, roupa lavada uma vez por semana e um jogo mental diário para não ficar louco. Muita gente embarca nessa viagem e perde o juízo. Ontem mesmo, vi uma mulher numa fictícia ligação telefônica com um povo distante - Os Proparoxítonas. Na calma dá para montar a história dessas pessoas porque aqui normal e anormal se misturam, estão em único lugar ao mesmo tempo, caso se considere o tempo nessas bandas. Basta dar como possibilidade que o absurdo faz parte, qualquer coisa é possível, conforme preveem nossos avanços no ramo da Incerteza. Como se vê, minha aparente lucidez, quase forçada, não impede um mergulho nas cabeças mais distintas e suas oscilações entre loucura e indiferença. Às vezes confundo os lados.

Vivemos num horizonte de eventos, esperando a salvação, mas não acontece nada demais na rua. Ocorre mais na mente das pessoas, voltadas para o passado, enquanto o futuro se expande, fica cada vez mais rápido e distante. Conheço vários com experiência, mas de que adianta? A cada dia coisas novas são criadas, engolindo as antigas, deixando para trás quem conheceu o início de determinada tecnologia, mas que não terá tempo hábil de vida para criar novas possibilidades, pensar em longo prazo. Então os mais novos vão tomando conta, como sempre ocorreu. A tribo não precisa de anciãos.

A vida é assim, eu penso. Quem não juntou dinheiro corre o risco de parar na Patriarca porque à falta de emprego se junta a vontade de não trabalhar, embora eu conheça muitos capazes de ganhar um dinheirinho honesto e informal com seu minúsculo comércio de balas e chocolates ou cigarros por unidade. Eu queria voltar à minha profissão, mas fiquei desatualizado e aqui não é um lugar de troca de ideias na área da Física de Partículas, por exemplo. Quando eu falo que um elétron pode mudar de órbita sem passar pelo espaço intermediário, eles me olham com certo descaso, como se perguntassem “e daí?”.

Portanto, não dá para manter o orgulho se me dão pouco valor. Mas alimento o egocentrismo como substituto de segunda linha, negócio de outra categoria, mas em condições de manter o mínimo de satisfação comigo mesmo. Sou egocêntrico, não egoísta. É diferente. Posso dar minha roupa ao próximo se ele mostrar algum sinal de admiração por mim. Não quero poder; quero glória. Até mesmo neste buraco, procuro compensações.

Queria ser reconhecido pelo menos como o Aliócha de Dostoiévski, levando a vida sem qualquer esforço e qualquer humilhação, como bem descreve o autor, e quem me desse guarida achasse isto um prazer e não um fardo. Pena não funcionar assim, nem mesmo tendo um quarto de pensão eu poderia exercitar um personagem mais digno e com alguma justa vaidade. No meu caso, o pior da pobreza é a comparação com dias melhores. Nem sei se eram tão melhores; eram mais confortáveis.

Tudo começa com um pequeno desastre, quase uma singularidade. Sem querer derramei cerveja em seu vestido novo e a má vontade de Margô cuidou de transformar o incidente numa tragédia. Estava cheia de mim, deu-se para ver, todos viram, o jeito dela olhando para mim - uma geleira com raiva. Nos dias seguintes, a má notícia da minha demissão. Ela ouviu calada e depois, sem um pio de consolo, perguntou se eu tinha alguma coisa em vista. Vou mandar o currículo, eu disse. Você sabe que só isso não adiante, respondeu Margô. Você também precisa parar de beber, acrescentou ela, ainda mais séria.

Antes a vida tinha os ingredientes necessários. Um apartamento comprado à prestação, carro e vaga na garagem. Eu ensinava Física numa escola particular e Margô era funcionária pública concursada; ainda é, eu acho. Ela tinha o dinheiro dela, eu tinha o meu, e assim a contabilidade dava certo, mesmo com meus gastos com álcool e às vezes com outras substâncias. Perdi o emprego e perdi a liberdade. No começo Margô deixava umas notas em cima de mesa, mas com o tempo elas sumiram. Não cobrei. Continuei a procurar emprego, num momento difícil do País, e não encontrei sequer uma promessa. Aí um dia Margô disse chega, me deu cinco mil reais e me mandou embora. Ela tinha suas razões.

Pode ter sido tarde. Mesmo assim parei de beber. Fui para uma pensão do centro, mas logo o dinheiro acabou e caí na Praça do Patriarca, dormindo sob uma marquise, minha estreia. É como pular de um universo para outro, onde as leis da física são diferentes, bizarras, nada combinam com nada. Em minha cama improvisada, feita de papelão e plástico de bolhas, passo o braço para encostar em a Margô, meio sonado, e só há um buraco na calçada; minha mão tateando na realidade. Outras vezes sonho estar acordando em minha casa, pronto para calçar meus chinelos, e acordo com o clarão da cidade. Mal comparando é como a Terra sem a proteção da atmosfera.

Chego a pensar que só o espaço do pensamento vale a pena. Dentro da minha cabeça existe outro mundo como existe outro mundo no mundo das partículas. Domino seu interior, viajo pelo espaço, frequento bons restaurantes. Há uma projeção de mim que se dá bem, um físico notável, prêmio Nobel, e caso haja outra dimensão, do jeito que imaginam agora, posso dizer que dei a este lugar paralelo a minha consciência e as minhas sensações. Bastar estar só para ser aquele que não sou aqui e agora.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

A bordo


Na cabine, trabalho e atenção; lá ficam os controles, controladores e técnicos. Três turnos de oito horas no comando da nave, como manda a lei trabalhista; pleno emprego a bordo, sem contar a vida social ativa e incentivada. Fora do expediente, cada um faz o que quer, observando apenas o bom senso e a segurança da viagem. No final turno, muitos deixam seus postos e vão direto para a destilaria, que trabalha com matéria-prima colhida na nuvem Sagittarius B2 – aquela com cheiro de rum e sabor de framboesa. Ali servem um dos melhores mojitos do universo conhecido.  

Basta atravessar alguns metros de corredores, em esteiras rolantes, e tudo parecerá festa permanente: casais de mãos dadas, brigas e bebedeiras, casas de shows iluminadas, bares temáticos e cassinos em que nada se perde e nada se ganha. Estão cheios de gente e de apostas imaginárias.  Nesse cenário, passageiros e funcionários enchem as ruas, falam alto e riem por qualquer coisinha.  

A tentativa é reconstruir uma pequena cidade terrena, com suas atrações e desejos, a não sei quantos milhões de anos luz, em que o tempo deixou um tanto de importar e as pessoas cumprem seus papéis num eterno agora ou quase isso.  Mas basta olhar pelas raras janelas para a ver a leve mudança da paisagem, ou pelo menos um pequeno cometa cruzando a estibordo, de vez em quando Acontece quando a nave reduz sua velocidade, em oásis no meio do nada, e então é possível ter ideia do lado de fora. A regra é a nave deslizar no espaço a quase 299 792 458 metros por segundo.

Os personagens passam por todos os processos de uma viagem demorada. Dormem em casulos e acordam noventa anos depois – como nos filmes -, enjoam em nebulosas turbulentas, mas a missão tem o objetivo principal de promover a diversão e eliminar o tédio nesse passeio praticamente sem fim. Muito tempo fora de casa. Quando voltarem – se voltarem – encontrarão seus trinetos em clínicas geriátricas. Enquanto o tempo a bordo de arrasta devagar, conforme prevê a física, a base terrestre envelhece e muda, ou talvez deixe de existir entre a partida e eventual chegada. Pensar nisso entristece tripulantes e passageiros e só a balada permanente garante a paz de espírito.

Caso o som fosse ouvido no vácuo – e tivesse alguém para ouvi-lo – o bate-estaca das boates, os churrascos e pagodes competiriam com os motores de antimatéria da animada espaçonave turística. Eis a narrativa do cosmo: balas aceleradas de silício lá fora, e cá, entre as paredes titânicas, um ambiente urbano, com direito ao ócio – redes e cadeiras de cruzeiro marítimo - e esplendidamente posto a serviço lazer, com pornografia para todos, traficantes de drogas recém-descobertas, sons imitando buzinas de cidades deixadas no chamado grupo local - endereço da remota Via Láctea. Tudo perfeito para a dissipação, enquanto não vem novo sono entre colunas reforçadas e vidros a prova de saídas precoces. Uma nau estelar urbana, em que jovens centenários circulam com garrafas de Bourbon, roupinhas curtas e provocantes, e a necessária alegria estampada na cara porque não haveria outro jeito de resistir à aparente eternidade da situação.


sábado, 29 de abril de 2017

Uma visão do inferno


Satanás teve um sono bom. Na manhã agradável e panorâmica, respira a poeira incandescente de estrelas, enquanto lê a "Humani Generis”, enquanto come pãezinhos do Biscottificio Innocenti, enquanto recebe informações sobre a chegada de pecadores. Satanás faz várias coisas ao mesmo tempo e assim cumpre seu papel católico, hospedando os indesejáveis de Deus, em convênio com o Paraíso. O inferno está em alta temporada, negócios a todo vapor, ocupação em torno de noventa por cento.

Nesse dia em que acordou disposto e expedito, Satanás tinha o sentimento do dever cumprido e olhou a imensidão de suas posses como um fazendeiro, um senhor das terras sem limites no espaço e no tempo. Esteve mais tarde com sua mulher, deusa grega decaída, mas de beleza clássica mantida. Ela foi vítima do monoteísmo, vítima de Constantino, vítima da história e da literatura. A exemplo do marido, não envelhece e acumula conhecimento. Os dois se dão bem há séculos e não se cansam de produzir orgasmos e filhos.

Vida tranquila e segura num lugar mal compreendido pelos mortais antes de morte. Um empreendimento e tanto.

No prédio principal, o ambiente tem iluminação a ignis fatuus, produzida pelos próprios viajantes da última viagem, mas sem aquele cheiro de compostos orgânicos voláteis.     Sem muita burocracia, seguem-se: Imigração das almas, Check-in no balcão, Portal de Hades. Só um pouco lembra os livros sagrados, pois Satanás também recorre à Philosophiae Naturalis Principia Mathematica e até obras mais recentes para compor sua estética. O lugar – indisponível em mapas, inclusive os astrais - é decorado à imagem e semelhança de seu dono, com um largo vão modernista cobrindo parte do jardim até o períbolo, onde se destacam figuras votivas e quadros assinados por artistas de eras variadas.

Nada corresponde aos pesadelos associados ao inferno. Ninguém está pendurado pela língua sobre piscinas borbulhantes de sangue. Nenhum rastro do Apocalipse de Pedro. Almas não são torturadas, conforme espalhou Santa Faustina. Não existe sinal daquela desgraceira descrita por Virgílio, que ali exerce sua antiga função de guia turístico. Os nove círculos de sofrimento são uma metáfora, esclarece. A Psicopedagogia é outra. Virgílio chegou como hóspede e foi ficando. “A gente resolve tudo na conversa”, diz um dos preceptores.  

No inferno fala-se o Latim, por conveniência histórica e poética, e os folhetos na portaria informam que o dialeto toscano também é admitido, em alguns casos. De qualquer modo, funciona bem o serviço de tradução simultânea, destinado a línguas vivas e a línguas mortas com seus falantes.

Muita gente trabalha para Satanás e, portanto, resta-lhe tempo para apreciar o universo, desde o início até hoje, por meio de sua apurada veia mais científica do que religiosa. O inferno é uma estação de repouso, lugar de leitura e reflexão; um sanatório de Berghof com alguns graus a mais, com o define um escritor vindo da Alemanha. 
  
Satanás é um livre pensador, embora agarrado àquele contrato com Deus, que o sustém. Negócio de longo prazo e cláusulas bem aceitas pelas partes. Só não sabe por que sua empresa foi escolhida para tamanha tarefa, mesmo sendo ele casado com uma deusa de outra origem. Por obra do pai, do filho e do espírito santo aceitaram-no nesse equilíbrio de forças que mantém a fé em estado febril e as órbitas em suas respectivas elipses. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nove mentiras


  1. 1)   Já não tomamos sustos a cada dia. Virou um susto único, compacto, desde que desabamos neste poço sem fundo. Há ocorrências cotidianas, todas espetaculares, mas incapazes de destacar-se do susto inicial. A partir da queda, houve um estiramento da primeira impressão - o dantesco "caos impiedosamente ordenado”. A volta ao passado numa viagem que deixou de ser viagem. Virou um estado.

    2)    Não se iluda; nada é real. Hoje, cidades projetadas são assim – uma miragem. Projeta-se de um ponto bidimensional e aqui está ela, em três dimensões, ou quatro, incluindo o tempo. Não podemos pegar na cidade, sentir seu cheiro e ouvir seus gritos. Não podemos tocar em seus muros porque a mão atravessa a falsa matéria como se atravessasse o vácuo. Não é palpável, mas funciona.

    3)    Dois homens na plataforma abandonada acenam para um trem que não vem mais. Fazem isso porque são os dois doidos da cidade, sempre juntos. Ficam ou ficavam o dia inteiro na antiga estação sem trilhos à espera de ninguém. O município convivia naturalmente com o fato. Os dois doidos tentam consertar a paisagem e encenam a chegada de amigos e parentes, carregam malas imaginárias e, enfim, à noite, tomam o último vagão para casa.

    4)    Nunca me acostumei com espelhos. Olho, parece outra pessoa, nunca eu mesmo diante do espelho, mas alguém se passando por mim do outro lado, imitando meus gestos, cheio de sincronia e truques. O pior é a sensação de que alguém já escreveu isso.

    5)    Não havia plano B e o A era fraquinho. A ideia era comprar guarda-chuvas e vendê-los na Avenida Paulista em dias de temporão, na saída do metrô. Comprei. Investi o que restava na mercadoria e desde então não choveu. Todo dia eu olhava a previsão do tempo. Nada. 0 mm. Em casa, o estoque de comida estava no fim e numa tarde, antes de cortarem a luz, vi na TV que o Estado enfrentaria uma seca, talvez a maior de todos os tempos, consequência do El Niño, ventos alísios soprando no sentido oeste, através do Oceano Pacífico tropical, com imensa repercussão em minha vida. Tudo ocorre por acaso, mas o acaso beneficia mais uns do que outros, aleatoriamente, sem sentindo, e é isso que chamam de azar - as repetições desastrosas em uma lista de repetições infinitas, como se a roleta só parasse no 1, eternamente, porque também é uma possibilidade.

    6)    Vamos promover uma rifa. Promover é a palavra certa. Uma rifa profissional, adequada às nossas condições, enfim uma rifa insubstancial, de algo em que não se pode pegar. Não é geladeira, TV, essas coisas. A rifa é de uma viagem. Alguém que comprou o bilhete pode querer ver o objeto, ao vivo. O mesmo não se pode dizer de quem comprou a possibilidade de uma viagem, uma vez que só o viajante – no caso o vencedor do sorteio – pode mostrar alguma coisa nesse sentido: uma foto, umas histórias, pelo menos, mas só depois. Tudo juridicamente assentado, eu acho. Se o comprador quiser ver a passagem diremos, meu amigo, se não confia em nossa iniciativa, tudo bem. Não precisa comprar o bilhete. Disséssemos isso em relação a uma geladeira, e não houvesse geladeira, estaríamos encrencados.

    7)    Quando a olho, ela se desfaz. Está ou esteve em algum canto da sala e no quarto, quando a luz é apagada. É possível que exista em qualquer espaço – até mesmo em dois lugares ao mesmo tempo -, mas some quase no momento em que aparece. Por isso tem que ser vista em partes. Primeiro, seus olhos, que fornecem à memória o primeiro sinal de desejo. Depois, outras frações do corpo, até formá-la inteira, como quem produz uma teoria.

    8)    Enquanto recebia o soro nas veias fracas, a mãe segurou seu pulso, até quando ele começou a melhorar, a sentir as pernas, olhando em volta e já guardando na memória aquele gesto materno, a eterna proteção, e dali em diante seria este seu melhor pensamento da primeira infância. Os fatos advindos são extensões daquele momento.

    9)    Voltei, depois de muitos anos, para continuar o jogo.  Estou destreinado para a agressiva sinceridade de Amélia, que hoje banca meu final de vida, deixa trocados em cima da mesa, compra os remédios, passa o cartão de crédito no supermercado. Há um preço alto. Diante de todos, ela revela minha situação de pobre coitado, não tem onde cair morto, diz, com risinho de vingança. Os outros ficam sérios por fora, mas riem por dentro. Não sei por que a vingança, se não fiz nada. Talvez seja apenas a necessidade de Amélia em ter alguém por perto para suster e esmagar, morder e assoprar – e mesmo longe, estive por perto, levando sermões pelo telefone. Sempre saía reduzido a nada, como ocorre agora, todos os dias, desde a minha volta.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Em movimento 6 (fim)


Sem lei, a nossa sociedade funciona precariamente, mas funciona. Não há crimes como antes porque a sobrevivência tornou-se um ato solitário e às vezes de famílias; não dependemos de patrões ou empregados. Mas chegou-se ao ponto em que era preciso criar normas de convivência, talvez escritas, numa terra sem governo conhecido pelos cidadãos – se é que podemos nos chamar assim.

Em qualquer sociedade - mesmo a nossa, em colapso -, sempre surge alguém querendo organizar, criar direitos e deveres, especialmente aqueles que viveram o período anterior, quando a cidade tinha prefeito e câmara de vereadores. Faz tempo. Agora é cada um por si, entre os escombros, procurando comida, embora não haja animosidades, pelo contrário. Não existem mais estatísticas, mas não temos conhecimento de assassinatos e são poucos os roubos. Não há muito que roubar.

A lei, no entanto, está chegando a partir de um corolário muito parecido com uma versão laica dos dez mandamentos. Ficaram “Não roubarás” e “não matarás”, mas questões relacionadas com a mulher – ou homem – do próximo (a), que não importam tanto nessas ruínas, foram deixadas de lado. Resolvam-se. Também não amaremos a Deus sobre todas as coisas por termos outras prioridades. O pequeno conjunto de regras teve, por fim, toques do código penal do século passado, quando este imenso terreno baldio era um tribunal.

A carta, como tentam chamar, tem poucas palavras. Não adianta enchê-la de artigos, pois a criminalidade está ligada à posse de coisas que se podem vender e comprar. No nosso caso, além da Praça de Trocas, o escambo, não temos nada perto daquilo que a história registra como “mercado financeiro”. Existem moedas, por ai, desprezadas. Perderam a referência em relação a outras moedas e são usadas para jogar damas.

Por enquanto é só isso – uma lei de coerção moral. Não temos nem queremos o poder de polícia. Ninguém pensa em reconstruir a cidade. Não temos meios nem teremos.  Acho que também falta vontade. O passado nos deu ruins e bons exemplos, mas resolvemos não seguir nenhum deles.  De concreto, herdamos apenas o entulho e objetos sem as funções para a quais foram fabricados. Uso um fogão de quatro bocas como armário. Não sabemos ao certo em que ano passou o último caminhão de gás. 

Levamos a vida assim mesmo, sem quase nada.

Perdemos a civilização moderna, com seus expedientes e equipamentos e caíamos num cenário mais sombrio das coisas desgastadas pelo tempo. Não repomos peças, que já não temos, e não há qualquer organismo encarregado da manutenção das ruas e dos condomínios. Não restaram instituições: escolas e repartições, por exemplo, são só referências em livros que achamos no lixo. Em compensação, nos livramos do compromisso da produtividade e da ascensão social.


Para nossos sábios, que não souberam evitar o desastre nem revertê-lo, aconteceu o inevitável, conforme as leis da natureza. Saímos do estado ordenado para o estado desordenado. É assim que funciona, dizem eles. 

sábado, 1 de abril de 2017

Em Movimento 5


Quando tínhamos TV, vi um programa sobre o mundo sem pessoas. Cidades tomadas pelo mato, prédios rachados, tigres e rinocerontes passeando em grandes avenidas. Os animais de grande porte ainda não chegaram, mas o resto é parecido. Acabou a água encanada e a luz elétrica. Não há negócios nem empregos para mover o dia. Apenas circulamos por ai, atrás de novidades e restos úteis de lixo antigo. À noite, nos sentamos em volta fogueira, como nos primórdios do fogo, e assamos cães vadios à moda chinesa.

Já se passaram muitos anos desde o evento que nos deixou cercados por edifícios cobertos de junça, a pior erva daninha do mundo, e mesmo assim achamos comida em apartamentos tomados pelo lodo; comida vencida no século passado, quando existiam indústrias e supermercados. Além de aparelhos de som e pilhas, que ainda guardam energia. As pilhas e o fogo movimentam a sociedade, plenamente adaptada aos novos tempos. Dá para ir levando porque a população foi bastante reduzida pela falta de prática num ambiente tão necessitado.

Dizem que o governo central mantém-se na capital, igualmente estragada pelo tempo, mas dele não temos notícia há meses. Os informes oficiais não chegam mais, por falta de combustíveis para os carros oficiais; se é que sobraram carros e mesmo que tenham sobrado as estradas estão sob o mato.

Não sei se sou a pessoa ideal para contar o que sucedeu aqui, mas existe pouca gente ocupada nessa área. Tomei o ofício para matar o tempo. Também não sei quem serão os leitores de tal situação, pois em nosso passado havia mais leitores e até livrarias e hoje não há nada disso. Nosso passado tinha tudo que não temos hoje, nesta parte da vida, e é estranho que para trás tenha ficado também a nossa ficção científica, já concretizada e desfeita, e o agora vivemos num um romance de época remota - a tentativa de começar de novo, a partir de quase nada, ou de ficar parado, vendo o que acontece.

Claro, restam alguns livros e quem não viveu aquela época, cheia de modernidade e conforto, pode ter uma ideia de como era a vida quando as coisas funcionavam. Máquinas de lavar, jogos eletrônicos, partículas entrelaçadas e linhas regulares de metrô. Tudo encolheu, talvez até as estrelas tenham desistido da sua expansão, voltando ao momento inicial, à singularidade em que nos encontramos. 


Mas vive-se, mesmo assim. Soube de casamentos e partos, festas para celebrar o fim das chuvas, assembleias para discutir o passado e o presente e a instalação de um precário serviço de alto-falantes, que às vezes toca Contigo en la Distancia, de César Portillo De La Luz.  

segunda-feira, 20 de março de 2017

Em movimento 4



Às vezes dava vontade de encerrar as transmissões.  Não tinha ouvintes. Todos se foram para longe das nossas ondas médias, enquanto eu falava sozinho sobre variados temas apenas para não perder a prática. A emissora deixou de pagar salário, mas continuei no expediente, como se nada tivesse acontecido, abrindo o jornal da manhã com o entusiasmo de antes, quando ainda havia alguém do outro lado e até patrocinadores. Mas bastava sair da emissora, no final do dia, para ver meu trabalho perdido: casas vazias, latidos esparsos de cães abandonados, ruas desertas. A Zona rural estava esturricada. Só tinha cascavéis e insetos.

Fazia tudo sozinho. Locução, sonoplastia, redação de notícias e colocava as músicas que ninguém pedira. Mesmo quando o carteiro ainda passava, não recebia cartas, mas pelo menos existiam os mortos de fome da Praça do Desterro, antiga 15 de novembro, que morreram de fome ou foram embora. Eram os últimos ouvintes.

Tinham um rádio ou dois, se não me engano, mas trocaram por comida. Ficavam debaixo de árvores raquíticas e quase sem sombra. A maioria dos homens dispensava as camisas, peitos magros ao sol, esperando alguma obra da prefeitura ou apenas não esperando nada; só deixando o tempo passar. Lá adiante, tinha um trator velho coberto de ferrugem e erva. Lugar de matar calangos, tirar a pele e assar na brasa, caso não houvesse outro jeito. As crianças ficavam nas calçadas e as velhas ficavam na janela; olhando pouca coisa porque a paisagem só mudava com a chuva. Não chovia há sete anos. Não melhorou, piorou.

A população começou a diminuir porque os mais jovens e dispostos foram embora. Os alfabetizados saíram primeiro, em busca de concursos públicos e comércio. Os fracassados voltaram à Praça do Desterro e deram conta aos demais que não havia trabalho fora dali para quem não estudou ou não sabia assentar tijolos. O movimento estava fraco, até na capital, onde a construção civil entrara em crise.  Eles eram bem informados, conheceram melhores dias, ouviam meus programas, sabiam da política; só não tinham mais profissão – eram agricultores numa terra sem agricultura.

Eu narrava tudo aquilo, com voz empostada, e conversava no ar com um ou outro sobre esperança ou miséria. Também vinha gente de fora, como uma moça das Nações Unidas, que tive o prazer de entrevistar. Veio num carro grande, com dois assistentes. Todos ficaram na praça, olhando o carro de longe, e só depois de uns cinco minutos os recém-chegados se aproximaram. Perguntaram o que faziam ali e eles disseram que não havia muito que fazer. As terras secaram e não plantavam mais. “Nem sei mais o que é isso”, disse um homem de quarenta anos que pareciam setenta. “Só tem um restinho de água no riacho”, explicou um ex-meeira esquelética, enquanto arranhava os dentes numa macaíba - tirada de um pé que ainda existia a cinquenta quilômetros dali. Mas o fruto, que servia para combater a desnutrição, segundo pesquisa médica, parecia não ter substância, não matava a fome.

O pessoal da Praça do Desterro pensou que traziam notícia sobre a evacuação da área porque o estado não tinha condições de manter os caminhões-pipa. Um transtorno, pois preferiam a praça, apesar de tudo. Outros apostaram que trariam comida e água mineral pelo menos por algum tempo. Não era uma coisa nem outra. Vieram fazer um estudo da população, ou seja, vieram preparar um documento sobre eles. As entrevistas iriam durar meses e até que fosse tomada alguma providência, se é que haveria essa parte, mais outro tempo.

Mais tarde, quando o sol baixou, o carro foi embora. O caminhão-pipa não veio e o riacho tinha mais lama do que água. Homens, mulheres e crianças se atiraram ali, sedentos, mas tranquilos, filtrando a água nos dentes. Só nas casas, as mulheres coavam a lama com mais eficiência, mas não tanto.  Poucos meses depois, a Praça do Desterro ficou sem ninguém.


Quando dei por mim, estava só no fim do mundo, minha terra, sem os meus mortos de fome e eu era um deles. Baixei o som da música, um bolero, e toquei a contar a história que se passara ali, enquanto decidia o que fazer da vida. Decidi: continuei transmitindo. Comia calango assado e guardei uns enlatados para viver até não sei quando. Aprendi a coar a água do riacho e, em capítulos diários, contei tudo, com nomes e história das pessoas, e chamei por sobreviventes até a saúde aguentar. Dê notícias, Maristela; chegou ao Recife, Antônio?  conseguiu emprego, Nestor?  Nunca obtive resposta.   

Ouvi dizer que os sons não se perdem; espalham-se pelo tempo, vagam pelo espaço. Um dia alguém vai ouvir.