terça-feira, 30 de março de 2010

O Rei da Notícia

O “Rei da Notícia” era um jornal independente que circulou – ou pelo menos passou de mão em mão – nos anos de 1980 do século passado. Pobre, mas pouco modesto, chegou a ter correspondentes em Londres (Geneton Moraes Neto), Tel-aviv (César Sobreira) e o autor deste blog (San Francisco/Nova York). Na sede (Recife) sobravam bons jornalistas: Amin Stepple, Manoel Costa, Homero Fonseca, Clériston, Xico Sá. O “Rei” enfrentou uma primeira falência por causa de sucessivos interurbanos para a Santa Sé. A redação queria uma exclusiva com o Papa João Paulo II, acho, não tenho certeza. Parece que voltou a rodar e emplacou 1987. Já descobri um colecionador com três exemplares e publicarei algumas matérias aqui. Não só por falta de tempo para escrever sempre coisas novas, mas para resgatar um divertido “eventuário” da imprensa brasileira que, nem no Google, deixou muitos rastros.
Para começar vai uma que fiz em 1984, em San Francisco. Era imensa, segue com cortes. Datada, ingênua e deslumbrada, a matéria é típica de quem põe os pés fora do Brasil pela primeira vez e acha tudo, digamos, “jornalístico:

_lulafalcao

San Francisco - 1994

Punks, sado-masoquistas, bêbados, mendigos internacionais e gatinhas classe média alta da cidade de San Francisco resolveram ressuscitar a Haigth-Ashbury em 1984. Verão californiano com tempero dos sons pesados, cabelos curtinhos e o rosto pálido do cantor David Bowie impresso em todas as camisas. A palavra de ordem é “atrocity” e as flores pintadas no metrô lembram vagamente a arte de Juan Miró.

Aos poucos a esquina começa a perder a calma que a decadência preservou nos últimos 20 anos:

- Um casal entra no ônibus fantasiado de John-Jackie Kennedy, arrastando um cachorrinho com o pelo raspado e o corpo crivado de brincos e alfinetes;

- A vedete pornô Carol Doda torna-se star do movimento (?) ao estuprar um pianista durante uma apresentação pública na Columbus Street;

- As meninas da Pacific Heights exibem, orgulhosas, buttons com a frase “I Have herpes”;

- E os sadôs, vestidos com justíssimas roupas de couro do SFPD, encaram punhos fechados em seus bumbuns.

Esses grupos não têm nada entre si a não ser o fato de freqüentarem a rua no mesmo horário. O clima é dado por dezenas de jornais alternativos, confusões sem motivo aparente e shows de música. Fui ao último deles: um cantor tetraplégico, acompanhado por baixo guitarra e bateria, tentava cantar alguma coisa com o nome de “Paralisys”. Depois, um sujeito com a cara de Raul Seixas deu uma mijada no palco, enquanto ficava rodado o fio do microfone, de uns cinco metros, sobre o público enfurecido.

O ônibus que carrega trupes desse tipo para a Haigth-Ashbury é o 22 (Filmore). O espetáculo começa a bordo. No último Hallowen a lotação de um dos veículos foi esgotada apenas por pessoas fantasiadas de conde Drácula, inclusive o motorista. Em outro ônibus, uma briga de giletes terminou levando dois para o hospital. Ninguém estava embriagado ou drogado, segundo a polícia.

Um amigo paraibano não esquece um nordestiníssimo “vôte” toda vez que passa na Haigth-Ashbury. E viveu longos anos ali, durante a explosão hippie, quando, segundo disse, a esquina era “um Baixo Leblon bem intencionado”. Hoje, ele e seus companheiros quarentões estão chocados com tanta depravação...

Os punks e Cia ficaram apenas com o cenário: victorian houses, bons bares e a velha Free Medical Clinic, que hoje recolhe e trata, grátis, pirados, sifilíticos e drogonautas da cidade. Os hippies foram parar um pouco mais longe, mas ainda no perímetro: um índio Sioux alcoólatra, veteranos do Vietnã e até gente mais jovem - como Helen, 21 anos – são alguns desses exemplares dessa área. Helen nasceu em plena esquina, numa das primeiras experiências ao ar livre com o parto de cócoras. Típica filha de hippies que seguiu a opção dos pais.

Ela contou que detesta a “falta de sentido” dos novos donos da esquina e há dois anos arruma as malas pensando na América do Sul. Ouviu falar muitos de algumas cidades brasileiras e estava disposta a zarpar no próximo mês. Outro dia nos vimos numa festa, uma das tantas organizadas pelo pessoal da Haigth-Ashbury: Joan Baez, um fuminho com todo o ritual e muita troca de endereços intercontinentais. Saí de lá quando alguém resolveu passar slides de uma viagem à Guatemala.

Resumo da história: voltei a encontrar a moça, anteontem, no lugar de sempre, a Haigth-Ashbury: fez um corte esquisito no cabelo, agora já come carne e, surpresa maior, usava uma camisa com a foto de David Bowie. O ato mais recente de rebeldia – voltou a morar com os pais.

2 comentários:

juliana disse...

WRITE A BOOK !

renata disse...

lembro bem do Rei da Notícia!muito legal!

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