sábado, 26 de junho de 2010

Diário de uma tuiteira compulsiva

@ Acordei cedo hoje porque sonhei com algo interessante para tuitar. Tomei café na frente do computador e postei, de forma meio cifrada, o caso da minha amiga Daise com a professora de yoga dela. Que babado. Nem lésbica ela é. Pelo menos não era. Falar nisso: é yoga ou yôga?

@ Já são quase 10h e tenho que trabalhar num projeto para a lei de incentivo. Perco o saco. Melhor tuitar. Penso em comentar a eleição, mas não tenho uma posição definida. Às vezes acordo de esquerda, às vezes acordo de direita. Não vou envolver o pessoal nessa minha bipolaridade política. Além disso, não quero perder followers. O povo partidário é assim: ou você está com ele ou está contra ele.

@ Melhor falar da Copa. O problema é ser óbvia demais. Tudo já está tão batido: Galvão, TV Globo, Dunga, vuvuzelas, jabulani... Não quero entrar em táticas futebolísticas. Primeiro porque acho chato, segundo porque não entendo. Sairia-me melhor como estrategista da guerra do Iraque do que no banco da seleção.

@ Quase meio dia e as meninas ainda não acordaram. Teve vodka demais ontem à noite, conforme disseram e até mostraram na tuitcam. Ontem, tomei uns goles à distância. @harpias e @fuckmeplease escrevem coisas insólitas e picantes. Sou boa nisso, mas como minha família é muito conservadora prefiro ficar só lendo os posts delas. I like to watch. No mais, tem coisas que ainda considero tabu: fustfuking, por exemplo. As duas falam disso como se fosse a coisa mais normal do mundo. Sem contar outra palavra que detesto: cu.

@ Ainda não almocei. Entre preparar alguma coisa mais sofisticada (arroz com carne) e comer miojo, opto pelo miojo. Mais rápido. É bom porque não perco o fio da meada de uma briga entre duas meninas. Motivo (aliás, motivos): traição amorosa, a escolha do vice de Serra e uso de uma frase de efeito sem citação da fonte. Reproduzo uma foto linda que encontrei no Google. Ninguém deu bola. Nenhum RT. Diante da dramática falta de assunto, vou à cozinha. Debaixo da pia tem meia garrafa de vinho. Miojo au ketchup com Château Duvalier (safra 2010). Festa de Babete.

@ Não sai daqui e já são três da tarde. Ainda não escrevi nada interessante. Só coisas do tipo: “Concordo”, “valeu”, “e ai, linda”, “Vamos nessa” e, claro, “delícia de miojo”. Vou comprar umas cervejas. Acho que seis dá, por enquanto. Quero ficar mais inspirada. Nunca deu certo. Sempre fico muito bêbada e começo a digitar frases que nem para mim fazem sentido. No dia seguinte, minha timeline parece uma cidade destruída pelas chuvas. Dislexia alcoólica.

@ Até que enfim. Emendei um papo com um rapaz de Minas que se diz produtor cultural. Rolaram umas DMs bem interessantes. A certa altura, ele pareceu querer algo mais sério. Não, nada ainda de encontros. Queria falar comigo no MSN. Como não tenho MSN, baixei um. A conversa dele era muito direta. Perguntou como eu estava vestida. Respondi: “até o pescoço”. Ele foi embora.

@ Noite. Já bebi todas as cervejas e desci para comprar mais. Comi um sanduíche frio no supermercado. Volto ao lap. Olho furtivamente para o formulário do Minc. “Objetivos”. Respondo baixinho: “nenhum”. Arrisco um comentário num post de um jornalista conhecido. Cruzo os dedos enquanto espero a resposta. Não veio. Que vergonha. Queria mesmo era dar uma notícia quente, em primeira mão, um furo. Mas essas agências internacionais são fominhas demais. Sempre dão na frente.

@ Vou passar uns #FFs para pessoas que nem notaram minha presença aqui. No meio da história, uma rara alma bondosa adverte que #FF é “Friday Follow” e hoje é sábado. Passei por imbecil. Mas pelo menos harpias e fuckmeplease estão numa sessão semi-erótica de tuiticam. Vejo aquele delicioso besteirol durante umas duras horas. Tuito uma frase de Camus e outra de Edmund Wilson. Nenhuma minha. Bêbada, só penso em sexo.

@ Meia noite. Fim de feira no twitter. Para os resistentes da madrugada, começo a tuitar links de música do youtube. Canto em voz alta. Para minha sorte, descobri um resto de vodka na geladeira. Tomo e crio coragem. A moça compenetrada da manhã se transforma numa rameira de segunda linha. Ai, sim, surgem os rapazes. Tirando as supracitadas “fustfuking” e “cu”, falo de tudo. Ofereço meu corpo. Marco encontros na DM, caio na boca do povo. O quarto começa a rodar.

@ Faço planos para amanhã: vou procurar ajuda médica ou começar tudo de novo?

@_lulafalcao

2 comentários:

Camaleoa disse...

me encaixei aí nuns tantos. texto bom demais, colega. bom d-e-m-a-i-s. parabéns!

Maíra Viana disse...

gostei da crônica com ritmo e humor na dose certa! sigo muitas tuiteiras como essa sua personagem, é curioso! a quem nao tem o que dizer, duas dicas: leia um livro e....desligue a tv antes! boa leitura! rsss!

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