segunda-feira, 5 de maio de 2014

Amante imobiliário



Era um sujeito que se casava por interesse imobiliário. Os aluguéis estão caros. Não tinha planos de dar o golpe do baú; apenas recolhia-se ao apartamento da namorada mais recente, com sua mudança, e lá ia ficando até as coisas se estabilizarem. Ele ficava, por uns tempos, as coisas nunca se estabilizavam, mas se aparecesse um lugar maior, com mais canais na TV a cabo, ele embarcava em outro casamento e assim seguia a vida, num desvario com método, oscilando o jeito de ser de acordo com a morada da vez.

Enquanto estava hospedado agia como marido perfeito, em qualquer circunstância, mesmo com Tânia, que o traía, ou Olívia, a anti-penúltima, rainha do mau humor.  Se o apartamento fosse grande e bem localizado, ele fazia amigos entre os amigos da mulher, contava mentiras sobre negócios e jogava tênis. Se a acomodação fosse pequena e suburbana, ei-lo entre seus pares da esquina, jogando dominó e fumando um.  Tratava as duas experiências com igual peso e valor.  

Seu estilo, no entanto, era conhecido. Ninguém poderia alegar surpresa diante de chegadas ou saída; todas sabiam as regras do jogo. Mesmo assim, ele deixou para trás algumas almas sofridas, rastejantes, enlouquecidas pelo fim  do casamento. Uma se matou, Aldira; outra está internada com depressão, Suzana. Fora esses, não foram registrados incidentes mais graves com ex-mulheres.

Teve casos em que ele foi expulso de casa, depois de uma briga com a mulher, e não tinha para aonde ir. Nessas situações, contemporizava ou saía sem rumo pelos bares. Em emergências, casava-se com mulheres que não admirava; Suzana, 32 anos, três quartos -  um com suíte -, foi uma delas.  Adriana, 39, casa de dois cômodos com problemas de vazamento, foi outra.  


O personagem, inverossímil por natureza, existiu de fato, nesta cidade,  e à beira dos cinquenta ainda manteve a estratégia e o modelo de vida, mesmo depois de Eugênia, dois quartos, a  que era para sempre e não foi. Perdeu Eugênia, perdeu o viço, virou um apaixonado padrão e seguiu sua sina em casas e apartamentos cada vez menores. A lembrança de Eugênia batendo na trave, causando dores, junto com as dores da idade. Sofreu e continuou sofrendo sob o teto de Eulália, dois quartos, sem suíte. Eulália, esposa dedicada e enfermeira, cuidava dele para a próxima mudança, talvez a última.

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