domingo, 9 de fevereiro de 2014

A diarista



Sempre defendi tratamento igual entre patrões e empregados, mas Ercília não aceita, quer ser superior, sempre tem sido, desde que trabalha lá em casa, há quase dez anos, como diarista. Seu olhar crítico reina sobre a bagunça — meias no chão, comida no sofá, bagas na mesa —, e ela  vistoria tudo como um sargento, dando esporros, reclamando da minha incapacidade de levar a vida como um cidadão normal. Deixa tudo arrumado, chão brilhante e ausência de provas, e até os livros são acomodados na estante de acordo com sua particular visão da literatura ocidental. No entanto, na hora dela sair, sinto o prenúncio de lições de moral, conselhos ditados de cara feia e a advertência final: «você precisa dar um jeito nesta merda».

Na minha terra, onde as pessoas conhecem seu lugar, acima ou embaixo, Ercília não teria futuro. No interior, usam muito palavras como topetuda, insolente e atrevida para gente igual a ela, pois era só o que faltava: uma empregada dando ordens. Lá em casa é diferente, tanto pelas relações de trabalho na capital quanto por minha inclinação socialista. «Socialista é o caralho», costuma dizer Ercília, em momentos de explosão, e aí me bate o sentido de hierarquia, só um pouco, porque no fundo ela tem razão, minha vida é um caos.

Ercília acha o homem solteiro inviável, pelo menos os do meu tipo, criado por uma mãe servidora exclusiva do lar, cuja principal tarefa consistia em consertar porcarias deixadas pelos filhos no caminho – toalhas molhadas, lençóis revirados, pratos sujos. Acredito que Ercília tem algo que minha mãe não teve, embora cobre por isso cento vinte reais a diária, sem contar o ônibus. Ela tem poder sobre mim. Às vezes, desafiando a preguiça, arrumo aqui e ali, escondo a sujeira sob o tapete, e quando a montanha de pratos cresce sobre pia, jogo água fervente para dissolver a gordura. Não tenho coragem de pegar em pedaços de macarrão com aparência de verme porque já ocorreu o contrário. Era verme com aparência de macarrão. Ercília percebe as gambiarras, os jeitinhos, a safadeza e aí o esporro é dobrado.

No fundo, Ercilia se preocupa comigo, eu acho, como também acho que existe uma tensão sexual entre nós dois. Pode ser pura fantasia, pode ser verdade, e por dúvida não convém levar a história para o lado mais complicado. Pode ser também, e aposto mais nisso, que ela encare tudo como trabalho – faxina e consultoria moral – e talvez sinta um pouco de pena de mim; pena de homem perdido num contexto muito desorganizado.

Especulo muito se não temos um trato inconsciente. Eu sigo na vida sem muito controle e ela ajeita tudo sob a condição de poder recriminar meu comportamento de forma crua e dolorosa. Ouço, obediente, para não cair num estado de precariedade ainda mais grave do que o atual. Desejo muito seu jeito forte, ombros de nadadora, pernas bem abuladas e em harmonia com o resto corpo. Perdi umas noites pensando nisso. Mas o que me prende a Ercília é a segurança que ela transmite; ora na posição de mãe, ora transbordando raiva e sensualidade em seus sermões. Faltam coisa lá em casa e repito, de um jeito infantil, que o importante não é ter; é saber encontrar. Não encontro nunca, nada, e Ercília sabe e continua comigo. Sem ela eu já estaria morto.




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