sábado, 13 de agosto de 2011

O fraudador e as mulheres imaginárias

Seu trabalho, neste mato sem cachorro, era criar gente de mentira, nomes falsos, notas frias, aposentadorias fantasmas e histórias nebulosas. Não se considerava no mundo do crime, mas no campo das artes e da ciência. A freguesia queria boas desculpas para as autoridades; ele as construía com esmero e rapidez. De um morto fazia um vivo e vice-versa, dependendo da necessidade do cliente, e ia montando uma vida, com biografia, fatos necessários ao objetivo, documentos em estilo da época requerida, um passado entre outros seres imaginários, um presente para uso imediato, além de músicas prediletas e, se fosse o caso, cartas, bilhetes, escritos para a posteridade, livros de cabeceira, jeitão de ser, aparência e aventuras amorosas. Religião, time para torcer e partido para votar.

A minúcia caia no exagero na hora de compor uma mulher. A parte física era mais fácil, pois ela era o conjunto de várias fêmeas do planeta, moídas e retocadas no fotoshop, e depois saia um álbum de fotografia, RG, CPF, uma nota na coluna social, um perfil no Facebook. O trabalho mais longo, pensativo e penoso, era o caráter, as maneiras, o modo de olhar e o pensamento, ou seja, o miolo, o enchimento da existência, a parte de dentro, as entranhas, os líquidos, a alma. Tinha ainda um nome que combinasse com tudo isso e nessas horas recorria a programas de computadores que cruzavam todas as possibilidades, desde sonias com asma a clarinhas bipolares, heleninhas bem magrinhas e marcelas com doutorado.

Em relação às mulheres ele sempre queria mais. Não apenas seres que circulassem nos canais obscuros da burocracia, fraudando o governo e a rede bancária. Sonhava em fazer mulheres que deixassem o vento bater em suas saias, bebessem nos bares, contassem piadas e escrevessem blogs.

@_lulafalcao

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