segunda-feira, 20 de março de 2017

Em movimento 4



Às vezes dava vontade de encerrar as transmissões.  Não tinha ouvintes. Todos se foram para longe das nossas ondas médias, enquanto eu falava sozinho sobre variados temas apenas para não perder a prática. A emissora deixou de pagar salário, mas continuei no expediente, como se nada tivesse acontecido, abrindo o jornal da manhã com o entusiasmo de antes, quando ainda havia alguém do outro lado e até patrocinadores. Mas bastava sair da emissora, no final do dia, para ver meu trabalho perdido: casas vazias, latidos esparsos de cães abandonados, ruas desertas. A Zona rural estava esturricada. Só tinha cascavéis e insetos.

Fazia tudo sozinho. Locução, sonoplastia, redação de notícias e colocava as músicas que ninguém pedira. Mesmo quando o carteiro ainda passava, não recebia cartas, mas pelo menos existiam os mortos de fome da Praça do Desterro, antiga 15 de novembro, que morreram de fome ou foram embora. Eram os últimos ouvintes.

Tinham um rádio ou dois, se não me engano, mas trocaram por comida. Ficavam debaixo de árvores raquíticas e quase sem sombra. A maioria dos homens dispensava as camisas, peitos magros ao sol, esperando alguma obra da prefeitura ou apenas não esperando nada; só deixando o tempo passar. Lá adiante, tinha um trator velho coberto de ferrugem e erva. Lugar de matar calangos, tirar a pele e assar na brasa, caso não houvesse outro jeito. As crianças ficavam nas calçadas e as velhas ficavam na janela; olhando pouca coisa porque a paisagem só mudava com a chuva. Não chovia há sete anos. Não melhorou, piorou.

A população começou a diminuir porque os mais jovens e dispostos foram embora. Os alfabetizados saíram primeiro, em busca de concursos públicos e comércio. Os fracassados voltaram à Praça do Desterro e deram conta aos demais que não havia trabalho fora dali para quem não estudou ou não sabia assentar tijolos. O movimento estava fraco, até na capital, onde a construção civil entrara em crise.  Eles eram bem informados, conheceram melhores dias, ouviam meus programas, sabiam da política; só não tinham mais profissão – eram agricultores numa terra sem agricultura.

Eu narrava tudo aquilo, com voz empostada, e conversava no ar com um ou outro sobre esperança ou miséria. Também vinha gente de fora, como uma moça das Nações Unidas, que tive o prazer de entrevistar. Veio num carro grande, com dois assistentes. Todos ficaram na praça, olhando o carro de longe, e só depois de uns cinco minutos os recém-chegados se aproximaram. Perguntaram o que faziam ali e eles disseram que não havia muito que fazer. As terras secaram e não plantavam mais. “Nem sei mais o que é isso”, disse um homem de quarenta anos que pareciam setenta. “Só tem um restinho de água no riacho”, explicou um ex-meeira esquelética, enquanto arranhava os dentes numa macaíba - tirada de um pé que ainda existia a cinquenta quilômetros dali. Mas o fruto, que servia para combater a desnutrição, segundo pesquisa médica, parecia não ter substância, não matava a fome.

O pessoal da Praça do Desterro pensou que traziam notícia sobre a evacuação da área porque o estado não tinha condições de manter os caminhões-pipa. Um transtorno, pois preferiam a praça, apesar de tudo. Outros apostaram que trariam comida e água mineral pelo menos por algum tempo. Não era uma coisa nem outra. Vieram fazer um estudo da população, ou seja, vieram preparar um documento sobre eles. As entrevistas iriam durar meses e até que fosse tomada alguma providência, se é que haveria essa parte, mais outro tempo.

Mais tarde, quando o sol baixou, o carro foi embora. O caminhão-pipa não veio e o riacho tinha mais lama do que água. Homens, mulheres e crianças se atiraram ali, sedentos, mas tranquilos, filtrando a água nos dentes. Só nas casas, as mulheres coavam a lama com mais eficiência, mas não tanto.  Poucos meses depois, a Praça do Desterro ficou sem ninguém.


Quando dei por mim, estava só no fim do mundo, minha terra, sem os meus mortos de fome e eu era um deles. Baixei o som da música, um bolero, e toquei a contar a história que se passara ali, enquanto decidia o que fazer da vida. Decidi: continuei transmitindo. Comia calango assado e guardei uns enlatados para viver até não sei quando. Aprendi a coar a água do riacho e, em capítulos diários, contei tudo, com nomes e história das pessoas, e chamei por sobreviventes até a saúde aguentar. Dê notícias, Maristela; chegou ao Recife, Antônio?  conseguiu emprego, Nestor?  Nunca obtive resposta.   

Ouvi dizer que os sons não se perdem; espalham-se pelo tempo, vagam pelo espaço. Um dia alguém vai ouvir.


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