sábado, 28 de maio de 2016

Esquecimentos



A vontade de escrever já me deixou. Não escrevem mais, por isso também perdi a jeito, e não existem mais envelopes com as cores do Brasil nem espátulas abridor de latão cromado nem selos nem raros papéis nem carimbos dos correios e telégrafos. São coisas que somem, com o tempo, e dão lugar a outras, sempre mais práticas. Também não escrevi porque não queria evocar a poesia dessas antiguidades; tem gente que gosta. O tempo das cartas, dos telegramas e de outros sustos vindos de longe já foi embora há muito anos, mas entendi o seu desejo fora de hora de receber uma carta, via aérea, como antigamente.

Agora, as palavras viajam em outras linhas, ondas-partículas, e se perdem no espaço depois de lidas. São efêmeras, fugazes e fugidias e por isso tenho agora, neste momento, a imensa dificuldade em reuni-las para explicar o que se passa, uma vez que você perdeu a lembrança do presente e vive no passado, num ponto do passado. Abre o portão de ferro rebuscado, hoje ferrugem, e pega do carteiro o envelope, postado em 1956, quando eu ainda não havia nascido.

Em letra miúda e firme, treinada no caderno de caligrafia, a carta dava conta da saúde dos seus e das mortes na cidade. Recebeu da amiga a descrição de uma festa em papel pautado, nonsensibilidades sobre pessoas estranhas à mesa, homens chegados da capital, cheios de vigor e cheiro de álcool. Correu logo para a resposta, três páginas, igualmente escritura perfeita, envelope fechado com goma arábica, selos da Princesa Isabel e Getúlio Vargas.

A cena se repete. Só existe o ano da graça 1956 na mente da senhora que quer a carta e esqueceu-se de outros anos, outros nomes e quase tudo.

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Acorda na casa de uma desconhecida depois de uma noite de muitas ocorrências e poucas lembranças. Houve uma grande discussão a respeito de uma banalidade qualquer – ele recorda de um pedaço – e dai seguiu-se uma troca de insultos generalizada e este corte na cabeça deve ter sido por causa disso, ele pensa. Nu, sangue talhado, ressaca zunindo na cabeça e provocando taquicardia. Alguém acende a luz no quarto de janela fechada e ele não sabe dizer se é dia ou já outra noite, e não sabe quem é a dona da casa e daquele quarto cheio de retratos de atrizes do cinema em preto em branco, entre elas Kim Novak, com jeitinho sedutor.

Há dias nessa batida, deixando-se levar, sem medo, apesar da ressaca e apesar de não saber onde está. Não é a primeira vez. Já acordou em outra casa e ao abrir a porta do quarto viu um monte de gente sentada a mesa, esperando por ele, perguntando se dormiu bem. Ele estava tonto porque nunca vira aquele pessoal antes. Todos eram cordiais, como cordial é agora a dona da casa, ao abrir as cortinas, e dizer que está na hora do trabalho. Parece cena de filme, mas é real, embora nunca ele nunca tenha descoberto o nome dessas pessoas que lhes dão abrigo e conforto com certa frequência.


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