terça-feira, 19 de abril de 2011

O elogio da vaidade

O fato de que qualquer pessoa pode morrer a qualquer momento e que se não for agora ou daqui a alguns anos será algum dia, torna espetacular o fato de tudo continuar andando e funcionando normalmente no mundo. Mais do que isso, é impressionante a quantidade de planos para o futuro quando se sabe que o único futuro que nos espera é a morte. Alguém pode explicar tal comportamento com a imortalidade da alma, mas se pegarmos os ateus veremos que são do mesmo jeito: planejam, pesquisam, fabricam, constroem, estudam, trabalham, fazem um monte de coisas como se fossem ficar aqui para sempre.

É claro que muita gente percebe isso e detona a vida, como se ela fosse para arder, não para durar, como já observou um desses caras bons de frases. Mas daí para a vadiagem é um passo. O sujeito pensa: Se vou morrer porque devo me mexer muito. É umas. Mas se todo mundo pensasse assim, desde o início dos tempos, ainda estávamos sem fogo, sem roda e sem I-Phone.

Nessa questão, a vaidade explica muita coisa. Mais do que religiões. As pessoas querem deixar algo escrito, construído, esculpido, pintado, descoberto, embelezado, etc e tal, porque sonham com um futuro em que não estarão presentes. Não querem ser esquecidas depois de mortas. Embora o defunto não possa usufruir dessas recompensas e elogios, o sujeito aproveita a sensação enquanto vivo, numa espécie de posteridade pré-gozada. Pelo menos sonha com um velório concorrido, uma nota de jornal, uma biografia ou mais modestamente com uma foto sua no álbum do neto.

Entre os artistas e intelectuais, a finitude parece mais sentida, mais aguda e mais curtida - mesmo porque vem sempre acompanhada de Psicanálise, Filosofia e Literatura. O certo é que, para essas pessoas, especialmente as que hoje são mortas e famosas, a realidade do fim tornou-se também material de trabalho. Basta ler um pouquinho de Spinoza e de outros menos votados para descobrir que é mais ou menos assim. O ser angustiado diante da morte aprofunda mais seus pensamentos em torno de um assunto que a maioria prefere fazer de conta que não existe.

Para resumir, é a vaidade, mesmo escondida, a grande responsável pela civilização. Sem ela, multidões de seres humanos estariam aos prantos, nos braços do desespero, sem qualquer projeto ou saída, apenas esperando dolorosamente o inevitável.

@_Lulafalcao

2 comentários:

Rebeca disse...

O que me impressiona é que não existam mais loucos no mundo, sabendo que a qualquer momento podemos passar para o lado de lá... Será mesmo que a vaidade está por trás dos que querem deixar seus registros pessoais? Acho que evolução vem pela necessidade de conforto...

Ioanna disse...

Rebeca, a questão da vaidade não chega a ser uma tese. Apenas acho e crônicas podem ser feitas de achismos. Creio que o conforto também deve ser levado em conta.
abrs

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